Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Nilza Azzi
1 108
Fuga
Já não ponho meus pés nesta rua Numa aguda tristeza resvalo O meu leito de painas é ralo Na cortina uma estrela flutua No meu pé, atormenta este calo E no mar minha lágrima estua O cavalo que arrasta a charrua Abre o sulco e só resta fechá-lo Não bifurca uma encruzilhada Mas amplia essa estrada tão vasta Deixa em cruz uma escolha difícil Subo ao céu na rabeira de um míssil A fumaça é um sinal que se arrasta Vejo ao longe outra lágrima alada.
Nilza Azzi
1 811
Fúria
Relâmpagos no céu e as explosões ruidosas, ecoando além na serra, sugerem que os eventos temporões concentram mais poder. A luz descerra
a vasta paisagem... Borbotões, o céu despeja a água numa guerra. As gotas, sem cessar vêm aos milhões; encharcam extensões por toda a Terra...
Na alma, há tempestades arredias: provêm das emoções que, represadas, concentram sua força, pouco a pouco.
Um dia, desrespeitam quaisquer guias; explodem como a chuva extravasada, na fúria de um tufão insano, louco.
Nilza Azzi
1 100
No salgado desses verdes
Entre abismos de pureza, o mar esconde um tesouro, no resguardo das crateras, desde o tempo das palavras das quimeras, que, ai de mim, se aproximaram não sei donde...
Gentis heróis, bravos homens de outras eras: estendei além de mim as flores, ponde as coroas estreladas sobre a fronde e tomai parcas e moiras por sinceras!
No salgado desses verdes celebrai o que a vida ainda permite – um sonho efêmero! D’além-mar, onde esse engenho gera o sal,
entre as ondas de um liame, não banal, ó senhores, que comandam grau e gênero, recolhei, desse legado, os cabedais!
Nilza Azzi
1 022
Finjo que não ouço
Se finjo não ouvir aquela voz, algoz que faz de mim o teu refém, já vem a culpa, pois eu sei que após a dor, talvez ouvir-te não convém.
Tentado a procurar-te, estar a sós, há nós por desfazer, tu sabes bem. Quisera só pensar que existem prós, querida, e, para nós, que houvesse amém.
Mas finjo que não ouço o coração, dizendo para que eu não seja louco e esqueça do teu nome e do teu cheiro.
Procuro, mas não sei se quero, ou não... Talvez, por isso faça ouvido mouco, distante do que sei ser verdadeiro.
Nilza Azzi
1 111
O impossível nós
Quando contempla a sucessão dos dias, esse rosário de infinitas contas, que lhe escorregam pelas mãos vazias, por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias, das ilusões e das certezas prontas... Se redescobre o amor e as fantasias, como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado, de extrema rebelião, pelo pecado de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz, tempo suspenso que lhe cala a voz, pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
804
Avesso
A poesia, quando nasce, as rimas finas esparrama pelo vão das entrelinhas. A saudade já não cresce mais sozinha; pelo tempo, uma esperança descortina,
num futuro que procura, que adivinha. Ao dormir e ao despertar qualquer menina tem um sonho e um coração que não combina com o cinza do borralho da cozinha.
Quando a rama já vai longe e bem viçosa, batatinhas são colhidas com cuidado e se enxutas vão render um bom purê...
Adormece o coração e ninguém vê que o poema tem avesso, um outro lado: — certo humor que a desventura enfrenta e glosa.
Nilza Azzi
816
Borboletas
E se não mais houvesse as borboletas azuis, riscando o ar no céu de agosto? Seguidas de monarcas, por suposto, em pretas e amarelas piruetas...
Vacila o pensamento, predisposto a crer nesses ardis, fazer gazeta, deixar que a forma inerte se derreta, cair na realidade, a contragosto.
Se mesmo aquelas simples e amarelas fugissem dos recantos do jardim, teria o meu olhar, quais alegrias?
— Apenas as crisálidas vazias, a imaginar que a vida é mesmo assim, um campo de passagem, sem sequelas.
Nilza Azzi
766
Estava Antônio
Estava Antônio a olhar a Lua, ausente, perdido em sonhos vagos sobre a amada, a auréola do crescente nacarada, enquanto divagava, a sua mente.
Queria tê-la junto a si, mais nada, a doce Filomena, simplesmente, porque com todo amor que Antônio sente, não pode nem sonhar vê-la apartada.
Enfim, quer ver a jovem, toda sua, perder-se no calor do seu regaço e exclama: ― Já nem sei mais o que faço!
Então toma uma corda e a prende à Lua, segura numa ponta e dá um salto e alcança Filomena, Antônio, incauto.
Nilza Azzi
890
Adeus tristeza
É nas horas tristíssimas da tarde, quando o dia demora em se acabar e a luz do sol desperta outro lugar, que essa dor faz o seu maior alarde...
Era assim, fosse dentro do meu lar ou na rua, onde a luz, embora tarde, reverbera, incendeia, abrasa e arde, em fantasmagoria singular...
Mas um dia aprendi de alguém querido, que esse fim pode ter outro sentido, em que a dor sói doer mais passageira:
— Que lição é viver de outra maneira! — Atrás do fim, caminha um novo início interminavelmente vitalício.