Lista de Poemas
Elegia
Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.
Nilza Azzi
1 081
Fuga
Já não ponho meus pés nesta rua
Numa aguda tristeza resvalo
O meu leito de painas é ralo
Na cortina uma estrela flutua
No meu pé, atormenta este calo
E no mar minha lágrima estua
O cavalo que arrasta a charrua
Abre o sulco e só resta fechá-lo
Não bifurca uma encruzilhada
Mas amplia essa estrada tão vasta
Deixa em cruz uma escolha difícil
Subo ao céu na rabeira de um míssil
A fumaça é um sinal que se arrasta
Vejo ao longe outra lágrima alada.
Nilza Azzi
1 779
Fúria
Relâmpagos no céu e as explosões
ruidosas, ecoando além na serra,
sugerem que os eventos temporões
concentram mais poder. A luz descerra
a vasta paisagem... Borbotões,
o céu despeja a água numa guerra.
As gotas, sem cessar vêm aos milhões;
encharcam extensões por toda a Terra...
Na alma, há tempestades arredias:
provêm das emoções que, represadas,
concentram sua força, pouco a pouco.
Um dia, desrespeitam quaisquer guias;
explodem como a chuva extravasada,
na fúria de um tufão insano, louco.
Nilza Azzi
1 070
No salgado desses verdes
Entre abismos de pureza, o mar esconde
um tesouro, no resguardo das crateras,
desde o tempo das palavras das quimeras,
que, ai de mim, se aproximaram não sei donde...
Gentis heróis, bravos homens de outras eras:
estendei além de mim as flores, ponde
as coroas estreladas sobre a fronde
e tomai parcas e moiras por sinceras!
No salgado desses verdes celebrai
o que a vida ainda permite – um sonho efêmero!
D’além-mar, onde esse engenho gera o sal,
entre as ondas de um liame, não banal,
ó senhores, que comandam grau e gênero,
recolhei, desse legado, os cabedais!
Nilza Azzi
996
Finjo que não ouço
Se finjo não ouvir aquela voz,
algoz que faz de mim o teu refém,
já vem a culpa, pois eu sei que após
a dor, talvez ouvir-te não convém.
Tentado a procurar-te, estar a sós,
há nós por desfazer, tu sabes bem.
Quisera só pensar que existem prós,
querida, e, para nós, que houvesse amém.
Mas finjo que não ouço o coração,
dizendo para que eu não seja louco
e esqueça do teu nome e do teu cheiro.
Procuro, mas não sei se quero, ou não...
Talvez, por isso faça ouvido mouco,
distante do que sei ser verdadeiro.
Nilza Azzi
1 087
O impossível nós
Quando contempla a sucessão dos dias,
esse rosário de infinitas contas,
que lhe escorregam pelas mãos vazias,
por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias,
das ilusões e das certezas prontas...
Se redescobre o amor e as fantasias,
como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado,
de extrema rebelião, pelo pecado
de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz,
tempo suspenso que lhe cala a voz,
pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
775
Avesso
A poesia, quando nasce, as rimas finas
esparrama pelo vão das entrelinhas.
A saudade já não cresce mais sozinha;
pelo tempo, uma esperança descortina,
num futuro que procura, que adivinha.
Ao dormir e ao despertar qualquer menina
tem um sonho e um coração que não combina
com o cinza do borralho da cozinha.
Quando a rama já vai longe e bem viçosa,
batatinhas são colhidas com cuidado
e se enxutas vão render um bom purê...
Adormece o coração e ninguém vê
que o poema tem avesso, um outro lado:
— certo humor que a desventura enfrenta e glosa.
Nilza Azzi
795
Borboletas
E se não mais houvesse as borboletas
azuis, riscando o ar no céu de agosto?
Seguidas de monarcas, por suposto,
em pretas e amarelas piruetas...
Vacila o pensamento, predisposto
a crer nesses ardis, fazer gazeta,
deixar que a forma inerte se derreta,
cair na realidade, a contragosto.
Se mesmo aquelas simples e amarelas
fugissem dos recantos do jardim,
teria o meu olhar, quais alegrias?
— Apenas as crisálidas vazias,
a imaginar que a vida é mesmo assim,
um campo de passagem, sem sequelas.
Nilza Azzi
747
Estava Antônio
Estava Antônio a olhar a Lua, ausente,
perdido em sonhos vagos sobre a amada,
a auréola do crescente nacarada,
enquanto divagava, a sua mente.
Queria tê-la junto a si, mais nada,
a doce Filomena, simplesmente,
porque com todo amor que Antônio sente,
não pode nem sonhar vê-la apartada.
Enfim, quer ver a jovem, toda sua,
perder-se no calor do seu regaço
e exclama: ― Já nem sei mais o que faço!
Então toma uma corda e a prende à Lua,
segura numa ponta e dá um salto
e alcança Filomena, Antônio, incauto.
Nilza Azzi
871
Adeus tristeza
É nas horas tristíssimas da tarde,
quando o dia demora em se acabar
e a luz do sol desperta outro lugar,
que essa dor faz o seu maior alarde...
Era assim, fosse dentro do meu lar
ou na rua, onde a luz, embora tarde,
reverbera, incendeia, abrasa e arde,
em fantasmagoria singular...
Mas um dia aprendi de alguém querido,
que esse fim pode ter outro sentido,
em que a dor sói doer mais passageira:
— Que lição é viver de outra maneira! —
Atrás do fim, caminha um novo início
interminavelmente vitalício.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!