Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Não há como controlar... O amor não se prende, creia; o amor é escrito na areia.
Como a mentira no ar, como a água se evapora, como a chuva vai embora, como o rio encontra o mar, é verdade secular que todo amante receia: o amor é escrito na areia.
Meu amor, eu sei agora desse calor que me aquece. Quando a luz já se amortece e o dia, ao fim se descora, enquanto a alma padece e a lua a praia clareia, o amor é escrito na areia.
Nilza Azzi
571
Fim
Dobre por ruas tortas Passos sobre o gramado Exéquias ao meu cadáver
Nilza Azzi_ Poetrix
573
Mein schatz
Eu contemplei um pôr de sol à beira-mar e vi a chuva a escorrer pela vidraça; olhei a Lua e entendi o que é o luar, pisei na grama e senti tudo que ela passa.
Achei a fonte e compreendi o que é doar e de um filhote admirei encanto e graça; ler um bom livro me rendeu prazer sem par e um vinho seco eu degustei em linda taça.
Ouvi Beethoven, no meu canto, bem quieta e caminhei no fim da tarde pela areia; senti o perfume de uma rosa... quase aberta!
Deixei de lado tudo aquilo que me enleia e do que eu amo essa é a amostra mais seleta, só pra dizer do amor por ti, que me rodeia.
Nilza Azzi
638
O estranho
Não te conheço, nunca nos falamos, mas hoje entramos pela mesma porta... Atrás de nós florescem muitos ramos e a floração em cores nos conforta.
Se a natureza esteve um tempo morta, refloresceu, porque hoje nos amamos... Já o que passou é vago e não importa; cantam pra nós, gentis, os gaturamos.
Mas dize, estranho, como pude amar-te e te entregar meu corpo nesse ardor, fazer de ti, meu guia e baluarte?
Por ser o afeto um bem que se reparte, fingiste bem sentir um grande amor e desse amor soubeste engenho e arte.
Nilza Azzi
559
Bela
brota uma orquídea amarela iluminando o xaxim contrapondo-se ao marrom explode e confunde o verde como um pedaço de Sol solta faíscas de cor e um odor adocicado.
nilza azzi
572
Queda
era refratária ao espanto e à dor mas diante de si a parede neutra era algo maior a vida sem vontade a morte sem razão e o intervalo triste
nilza azzi
586
O exercício...
O exercício de amar é cansativo; incansável, o mar conduz-se em ondas... As verdades da vida são redondas, morrer é meu destino, mas eu vivo!
Nilza Azzi
520
Coisas minhas
Quando você foi embora, naquela tarde de abril, bem notei pela demora, o modo como sorriu,
que nem tudo o que foi dito, era a verdade completa. Ficou algo, eu acredito, sem dizer e que me afeta
até hoje; coisas minhas. Leituras dos gestos, seus, são sinais nas entrelinhas, nas pautas daquele adeus.
Nilza Azzi
515
Saber
Em pleno espaço, enquanto o tempo passa, as aves nada sabem sobre a hora e cantam, voam, vivem sempre agora, e comem sobre a terra, o que há de graça.
Nilza Azzi
586
Indiferença
Os mouros que à costa vêm, assustam como ninguém e nos ameaçam todos... Se a notícia soa falsa, tem poder e o temor alça bem mais alto do que aos godos. Mas se é só espalhafato, se não passa de boato, a chegada dessa gente só me deixa indiferente.