Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Eu me apaixonei por ti, entreguei meu coração, porém tu disseste um não, à prova que eu te pedi. Tu não me amas de fato, como eu pensei que me amasse. Sei bem que tu és um gato, mas só vejo em tua face, um olhar vago, abstrato.
Nilza Azzi
178
Havia...
havia naquela rua uma criança perdida vivia a olhar pra lua sem nunca viver a vida
nilza azzi
199
Cada estação...
Cada estação é uma tela surpreendente e natural; cada qual por si é bela, faz brotar novo ideal.
Nilza Azzi
199
Rastros de espanto
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
193
Na solidão...
Na solidão dos seres e das almas, moram fantasmas tristes, sem desejos, meros zumbis assustam minha calma − vê-los bem longe é tudo que eu almejo...
Nilza Azzi
152
Rastros de espanto
Manhã fria e enevoada. O vento é um chicote a fustigar a pele... Hoje não houve canto de passarinhos ao despertar. Um silêncio vasto de feriado e inércia deixa no ar o vazio da tristeza e da saudade! A natureza silenciou o canto ritual... Meu olhar alcança um pequeno templo no horizonte, irregular contra os contornos da colina. Os primeiros raios do sol varam a névoa invasora, incidem sobre o metal de algum telhado e reverberam horizonte além...
Nilza Azzi
128
Como antes
Vagar pela orla, catando conchinhas, pensando somente nos sonhos que tenho; sentir que essa aragem suaviza o meu cenho, feliz, pois ao lado também tu caminhas. São sempre bem vindas, as brisas marinhas que envolvem meu corpo, perfumam o ar. Fragrância salina convida a sonhar! Os pássaros voam, cortando em rasantes a espuma das ondas e assim como antes, avisto um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
156
Insistência
de um vazio perpétuo aflora essa alegria sempre inevitável intersticial
estranhamente inútil relógio ineficiente
a indicar um tempo nunca passado nunca presente um espaço ausente
retalho de vida que me sobra um pedaço do céu
nilza azzi
169
Trevo
saídas que sugam em quatro direções momento da incógnita espaço da escolha é ilusão a direção certa no trânsito da vida
nilza azzi
192
Sobre o amor
O amor é uma certeza pelo avesso, pois rouba ao coração senso e cautela. Recobre a lucidez com véu espesso e o ser humano, frágil, nos desvela.
O amor é um infindável recomeço, renasce de si mesmo, em aquarelas, e até zomba de nós, meio travesso, exato, mas por vias paralelas.
Ao largo de nós mesmos, coisa estranha, a nossa descautela, ele acompanha e alcança as nossas falhas, torna claro
o quanto o nosso orgulho nos faz tolos. Valor grande demais pra ser consolo, o amor é sempre belo, incerto e raro.