Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Já não escolho a mão que a mim acena e, dos sorrisos, guardo os meus mais ternos; vou embalar promessas nos invernos e preferir o que me faz serena.
Não mais importam votos sempre eternos, desejo apenas a penumbra amena, a voz sincera, a cor que envolve a cena, enquanto envio os riscos aos infernos.
A minha escolha não se crê mais certa, apenas segue a luz da descoberta de que não há saída boa, honrosa,
e só pretendo entrar nesse jardim na vastidão das flores, sendo enfim, apenas uma a mais, pequena rosa.
Nilza Azzi
210
Dia ensolarado
Dia ensolarado ao redor dos mares... perfumando as ondas, cheias de olor; quando as espumas deságuam nos ares, gotinhas deslumbrantes regam a flor.
Nilza Azzi
144
Trevo
saídas que sugam em quatro direções momento da incógnita espaço da escolha é ilusão a direção certa no trânsito da vida
nilza azzi
192
Peregrino quântico
Então, grávido da Lua, vou surgindo; vejo flores tateando tudo e nada. Sob o pálio celestial a ela eu brindo e lhe peço pra ser minha namorada.
Diga, ó Lua, nosso filho não é lindo? Tem a pele qual a clara madrugada. Se nos olhos tem a cor do céu infindo, nos cabelos traz a luz do Sol, dourada.
Se gerado foi na esfera celestial, teve todas as estrelas por madrinhas e o futuro lhe promete a vida em Marte.
O Universo lhe pertence e, em toda parte, as viagens dos elétrons traçam linhas, em louvor desse rebento sem igual.
Nilza Azzi
149
Sobre o amor
O amor é uma certeza pelo avesso, pois rouba ao coração senso e cautela. Recobre a lucidez com véu espesso e o ser humano, frágil, nos desvela.
O amor é um infindável recomeço, renasce de si mesmo, em aquarelas, e até zomba de nós, meio travesso, exato, mas por vias paralelas.
Ao largo de nós mesmos, coisa estranha, a nossa descautela, ele acompanha e alcança as nossas falhas, torna claro
o quanto o nosso orgulho nos faz tolos. Valor grande demais pra ser consolo, o amor é sempre belo, incerto e raro.
Nilza Azzi
159
À beira-mar
são as conchas meus pedaços carregados pelas ondas mais rasteiras e a espuma na areia meu estupor diante do tamanho do mar
Tamara Trevi
257
Evocações
Na ladeira da memória, há uma casa nacarada: lá é que moram os risos.
Junto ao mar ecoam risos evocados na memória pela concha nacarada.
Radiante e nacarada era a luz daquele risos, no amanhecer da memória
Nilza Azzi
155
Ponderações
Para Dr. Renato V. de Castro
A vida humana é obra da surpresa! Se todos nós vivemos maus momentos e de sofrer fugimos mui atentos a preservar da dor a alma indefesa,
de nada, em nós, existe uma certeza. Na imensidão dos fatos violentos que se divulga sempre aos quatro ventos, qual criatura permanece ilesa?
Se no saber procuro ir mais fundo e levo a vida atrás de um ideal, entre as notícias que correm o mundo,
ganha destaque o que é sensacional e pouco importa se eu em dor me afundo − a dor da gente não sai no jornal.
Nilza Azzi
178
Pausas
Na fonte das certezas e dos medos escorrem meus silêncios, minhas pausas, enquanto uma esperança morre cedo e a minha solidão tem sombras rasas.
Esgotam-se as nascentes, calam vozes, permutam-se as vontades por promessas... As horas cada vez vão mais velozes e apontam as loucuras inconfessas.
Na rua um carro breca, em sobressalto, entendo que o perigo é sempre esperto. O som de uma buzina é qual arauto e o sonho me adverte de algo incerto.
O dia ─ mais um dia ─ vai ao meio e deixa em minha alma outro receio...
Nilza Azzi
166
Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse, doída, como um nada, a doer tanto, talvez doera só pelo interesse de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante e doerá, por certo, eternamente, que doa, de uma vez, lacrimejante, qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía, tal qual doeram todas, vezes mil, deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia a dia, embora já me doam, dor gentil, as dores que eu bem sei que doerão.