Lista de Poemas
Desfaçatez
Já não escolho a mão que a mim acena
e, dos sorrisos, guardo os meus mais ternos;
vou embalar promessas nos invernos
e preferir o que me faz serena.
Não mais importam votos sempre eternos,
desejo apenas a penumbra amena,
a voz sincera, a cor que envolve a cena,
enquanto envio os riscos aos infernos.
A minha escolha não se crê mais certa,
apenas segue a luz da descoberta
de que não há saída boa, honrosa,
e só pretendo entrar nesse jardim
na vastidão das flores, sendo enfim,
apenas uma a mais, pequena rosa.
Nilza Azzi
198
Peregrino quântico
Então, grávido da Lua, vou surgindo;
vejo flores tateando tudo e nada.
Sob o pálio celestial a ela eu brindo
e lhe peço pra ser minha namorada.
Diga, ó Lua, nosso filho não é lindo?
Tem a pele qual a clara madrugada.
Se nos olhos tem a cor do céu infindo,
nos cabelos traz a luz do Sol, dourada.
Se gerado foi na esfera celestial,
teve todas as estrelas por madrinhas
e o futuro lhe promete a vida em Marte.
O Universo lhe pertence e, em toda parte,
as viagens dos elétrons traçam linhas,
em louvor desse rebento sem igual.
Nilza Azzi
136
Circunvolução
Enquanto não houver a luz da perfeição,
o sonho não virá, serei poeta em vão.
Se na palavra pus efêmera esperança,
escapa o Ideal, o bem que não se alcança.
Nas brumas da manhã, espelho do Universo,
em busca de alvorar o conteúdo terso,
estranho à minha voz, esquiva-se o sentido.
Silêncio e estupor me abatem e, perdido,
percebo que a raiz, sem força se destaca
do solo onde nasceu, mantendo a forma opaca.
Como se fosse o pó indo ao sabor do vento,
recolho da emoção o nada que apresento:
Recebe um alvará, no verso que extravaso,
a dor mais forte em mim, contida por acaso.
(se você teve a gentileza de ler até o fim, leia agora de baixo para cima...)
Nilza Azzi
198
Evocações
Na ladeira da memória,
há uma casa nacarada:
lá é que moram os risos.
Junto ao mar ecoam risos
evocados na memória
pela concha nacarada.
Radiante e nacarada
era a luz daquele risos,
no amanhecer da memória
Nilza Azzi
139
Choro de outono
hoje à tarde o céu chorou
sem aviso, sem alarde
escorria quase a medo
eram pingos do chuveiro
sobre a água acumulada
a chuva de hoje à tarde
durou pouco, quase nada
nilza azzi
149
Dia ensolarado
Dia ensolarado ao redor dos mares...
perfumando as ondas, cheias de olor;
quando as espumas deságuam nos ares,
gotinhas deslumbrantes regam a flor.
Nilza Azzi
129
Sobre o amor
O amor é uma certeza pelo avesso,
pois rouba ao coração senso e cautela.
Recobre a lucidez com véu espesso
e o ser humano, frágil, nos desvela.
O amor é um infindável recomeço,
renasce de si mesmo, em aquarelas,
e até zomba de nós, meio travesso,
exato, mas por vias paralelas.
Ao largo de nós mesmos, coisa estranha,
a nossa descautela, ele acompanha
e alcança as nossas falhas, torna claro
o quanto o nosso orgulho nos faz tolos.
Valor grande demais pra ser consolo,
o amor é sempre belo, incerto e raro.
Nilza Azzi
147
Ponderações
Para Dr. Renato V. de Castro
A vida humana é obra da surpresa!
Se todos nós vivemos maus momentos
e de sofrer fugimos mui atentos
a preservar da dor a alma indefesa,
de nada, em nós, existe uma certeza.
Na imensidão dos fatos violentos
que se divulga sempre aos quatro ventos,
qual criatura permanece ilesa?
Se no saber procuro ir mais fundo
e levo a vida atrás de um ideal,
entre as notícias que correm o mundo,
ganha destaque o que é sensacional
e pouco importa se eu em dor me afundo
− a dor da gente não sai no jornal.
Nilza Azzi
163
Pausas
Na fonte das certezas e dos medos
escorrem meus silêncios, minhas pausas,
enquanto uma esperança morre cedo
e a minha solidão tem sombras rasas.
Esgotam-se as nascentes, calam vozes,
permutam-se as vontades por promessas...
As horas cada vez vão mais velozes
e apontam as loucuras inconfessas.
Na rua um carro breca, em sobressalto,
entendo que o perigo é sempre esperto.
O som de uma buzina é qual arauto
e o sonho me adverte de algo incerto.
O dia ─ mais um dia ─ vai ao meio
e deixa em minha alma outro receio...
Nilza Azzi
153
Voltas
Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo,
desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo, nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e, por menos, larguei sobre a pauta.
A medida dos passos que avanço,
se esta rua dirige-se ao caos,
não permite chegar ao seu fim.
Sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, entre os vaus,
há tristezas que vivem em mim...
Nilza Azzi
185
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!