Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Mariposas, calai o voo incerto, cessai co’esse barulho na vidraça. Meu amado chegou e está tão perto, e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto, tal a fome de beijos que não passa, e um desejo sensual, enfim liberto, que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação, o caminho do sangue que incendeia. Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias e, quem sabe, encontrar a remissão da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
204
Imprevisível
Imprevisível seu rolar na cama, o sono, o sobressalto, o hálito quente, o semblante maroto de quem ama e guarda em si o segredo da semente.
Quase um murmúrio o nome que ela chama, enquanto sonha alguma cena ardente, e a expressão sensual revela a flama e o cheiro de seu corpo, o que ela sente.
Dorme o tempo, esquecido nas cobertas, uma réstia de luz vai pelo quarto, faz dançar a poeira que desperta.
A vida é sucessão da dor dos partos – começa pelas bocas entreabertas – eclode no calor de amantes fartos.
Nilza Azzi
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No salgado desses verdes
Entre abismos de pureza, o mar esconde um tesouro, no resguardo das crateras, desde o tempo das palavras das quimeras, que, ai de mim, se aproximaram não sei donde...
Gentis heróis, bravos homens de outras eras: estendei além de mim as flores, ponde as coroas estreladas sobre a fronde e tomai parcas e moiras por sinceras!
No salgado desses verdes celebrai o que a vida ainda permite – um sonho efêmero! D’além-mar, onde esse engenho gera o sal,
entre as ondas de um liame, não banal, ó senhores, que comandam grau e gênero, recolhei, desse legado, os cabedais!
Nilza Azzi
1 022
Estava Antônio
Estava Antônio a olhar a Lua, ausente, perdido em sonhos vagos sobre a amada, a auréola do crescente nacarada, enquanto divagava, a sua mente.
Queria tê-la junto a si, mais nada, a doce Filomena, simplesmente, porque com todo amor que Antônio sente, não pode nem sonhar vê-la apartada.
Enfim, quer ver a jovem, toda sua, perder-se no calor do seu regaço e exclama: ― Já nem sei mais o que faço!
Então toma uma corda e a prende à Lua, segura numa ponta e dá um salto e alcança Filomena, Antônio, incauto.
Nilza Azzi
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Ângelus
Os velhos sinos, aos domingos, num breve instante, às seis da tarde, detém o tempo, um tempo ainda, calam os sons, antes do alarde,
vistos de longe, tão minúsculos, extasiados, ante o crepúsculo
que não, não quer se abreviar; desdobra-se em tons coloridos, − rubro, rosa, cinza e violáceo −
suspensos no azul luminoso, origem de angústias e gozo.