Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A rua azul do sonho era perfeita e pura na paisagem, estirada, ao sul do meu olhar, pela direita, findava por perder-se em outra estrada. No azul do teu olhar, minh’alma deita desejos de findar a caminhada – livrar-se de seu medo e da suspeita – morrer-se por um susto, um quase nada. No alto desse céu, onde voava apenas um pedaço de intenção, abriu-se um precipício – cores fingem... Faíscas, pigmentos, luz escrava, em rápidos lampejos passam, dão, um jeito de esvair-se na vertigem.
Nilza Azzi
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Amarelos
Um tiquinho da cor, um retalho singelo, a ilusão vem do Sol, dos segredos velados. Aspirado da luz, nos diversos estados, com filetes de mel, desenhar um castelo. É nas copas do ipê, essa joia dos prados, e nos lírios que estão, no mais puro amarelo, as belezas em flor, explodindo... Tão belos, os detalhes sutis, esses tons aureolados. Num pedaço de céu, faz-se um elo perfeito, amarelo e azul — um suave, outro forte— junto aos mares do sul, os narcisos do norte. Mas nos campos de anis, se fizeres teu leito, e souberes de amar, quais os elos se fazem, deixarás, no lugar, ambas, seda e aniagem.
Nilza Azzi
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Autorretrato
A juventude passou, foi embora; maturidade chegou. Mas que bom! Toda experiência nos cobra penhora, saber viver, — agradeço esse dom.
Nunca serei uma velha senhora, o tal chapéu preto, o xale marrom... Imposições não me valem agora: — São minhas vestes! — Escolho seu tom.
Mas não serei uma falsa sereia, a esconder de mim mesma a verdade. De veleidade esta vida está cheia!
Uma certeza, apenas, me invade: A poesia me corre nas veias, — hoje melhor do que em tenra idade.
Nilza Azzi
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Astúcia
A força de um felino na mulher escapa pelo olhar que chora arguto. Controle e persuasão, a voz requer, pois nela a intensidade do minuto reboa no silêncio que é mister... O negro da pupila é apenas luto; espanto pelas grades, sem qualquer sentido menos claro –, resoluto! É mágico, o futuro que ela quer... A fera, confinada numa cela jamais, de seu saber, algo revela e a luz só faz brilhar negra pelagem. De fato, o coração palpita rubro e se consegue a paz, não sei. Descubro que os olhos de pantera não reagem.
Nilza Azzi
N
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Às margens do Paraíba do Sul
Nas tardes sem tempero, descansava, enquanto um livro lhe tomava as mãos. Na sombra, a negra debulhava as favas, dormia ao lado, um gato comilão. A samambaia, os ramos despencava. Era de metro, a alcançar o chão. A um canto do terraço, havia a clava, jogada lá, inútil era, então. Há muito a plantação já se esgotara e os tempos do café, pelas encostas, não eram mais do que lembranças vagas. Sem meios de fugir à sua saga, seguia presa à terra descomposta, Senhora do sertão e piraquara.
Nilza Azzi
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Fuga
Já não ponho meus pés nesta rua Numa aguda tristeza resvalo O meu leito de painas é ralo Na cortina uma estrela flutua No meu pé, atormenta este calo E no mar minha lágrima estua O cavalo que arrasta a charrua Abre o sulco e só resta fechá-lo Não bifurca uma encruzilhada Mas amplia essa estrada tão vasta Deixa em cruz uma escolha difícil Subo ao céu na rabeira de um míssil A fumaça é um sinal que se arrasta Vejo ao longe outra lágrima alada.
Nilza Azzi
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Sede
Que tentação esse teu corpo varonil, delineado por firmezas musculares. O torso nu e a atração do teu quadril, o cheiro certo que me deixas pelos ares; cheiro de vida, que a mãe Terra conferiu e que me atiça, sem cessar, sem que repares... A natureza feminina, mais sutil, nota detalhes, mesmo os mais irregulares, não deixa claro o interesse pelo macho. Mas o princípio não difere muito (eu acho!) assaz idêntico, o caminho do desejo. Limita, a pele, superfície e precipício e tudo arde, quando o fogo é mais propício, na secreção que se prepara para o beijo. Nilza Azzi
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Veleidade
Nada me importa na aparência de um mancebo, quer seja belo, seja calvo ou tenha encantos; que seus trabalhos sejam doze ou outros tantos... Não me cativa o vate pelo que recebo, se enxerga luz numa palavra meio torta; faz ressoar seus ecos sem nenhum arrego e deixa flores sem bilhete à minha porta; destila essências de uma fonte que não bebo! Porém não sei se tal razão é meu direito... Se falta verve à maioria — o tempo é cedo — se não se arrisca, segue as linhas meio a medo, pois meu soneto não difere, contrafeito:
— Tem versos fortes; guarda um ar de bom menino, mas não fascina, pois não é um alexandrino...