Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Estragos de mim esses olhos em seus caminhos indiscretos penetram as sombras sem medo descobrem alternativas
Começos de mim essa boca faminta por beijos errantes
Numa tela de Djanira a vida plana como um rio escoa a luz do momento reflete os desejos sinuosos
Entre as negras sobrancelhas surge um vinco involuntário
Nilza Azzi
244
Achado brilhante
Achei uma estrelinha, à noite, em meu quintal; piscava ainda aturdida, atrás do limoeiro. Caíra sem querer do céu universal; ninguém havia ali, fui eu que a vi primeiro.
Seria um meteorito, ou algo mais normal? Não há como fazer um astro prisioneiro... Contatos imediatos de terceiro grau; estava bem ali, tão perto e por inteiro.
E então, em um segundo, a peça cintilou – as cores que explodiu! – foi uma coisa louca... Faíscas a dançar encheram meu espaço.
Achei-me pequenina e, em meu tamanho escasso, não conseguia achar a voz em minha boca e, antes que eu falasse, a luz se evaporou.
Nilza Azzi
285
Máscara
Sem metro, sem rima, sem pausa, sem cor, perdidos no espaço, sumiram de vista; são mil fragmentos... por mais que eu insista, eu não reconheço um pedaço, um valor
daquilo que outrora chamou-se razão. São tantos pedaços que ao mundo entreguei... O mais puro afeto, ao capricho da Lei escapa de mim, e eu não tenho noção
daquilo que espera por mim de ora em diante. Então eu não quero ser mais comportada, eu rompo com tudo e caminho adiante,
cantando revolta e tristeza guardada. A vida é cruel, é uma dor delirante: a poesia mascara essa dor tão danada.
Nilza Azzi
228
Inferno
Esse inferno, lugar de solidão, é por vezes o céu em que eu habito, onde as luzes eternas brilharão, só quando for calado o último grito.
E a solidão, procura do infinito, a forma mais real deste meu chão, faz flutuar, alheio e esquisito, o anseio que as manhãs jamais verão.
E o parco dos recursos, que aqui tenho, aguento, sem franzir sequer o cenho: – As brasas, sempre vivas, encobertas,
que queimam, descartadas as ofertas, de todas e quaisquer outras saídas, sem céu e sem razões desentendidas...
Nilza Azzi
198
Azul ausente
“Verificar o azul nem sempre é puro.”
(Do azul, num soneto_Alphonsus de Guimaraens Filho)
E não havia azul, mais, no meu mundo. Nenhum azul na noite sem estrelas e nem no mar, nos rios e nem pelas pequenas poças d’água... De azul fundo
não eram mais as flores e querê-las azuis não me traria o tom rotundo, o azul sempre tão caro, pois, segundo um deus qualquer, dá bom fado às camelas.
E sem o azul, perdeu-se a luz mais bela; tudo ganhou a cor da tempestade, os cinzas derrubando o horizonte.
E a cor mais triste vista bem defronte, tinge-me os olhos, quando o pranto invade, falto de azul... Que grande ausência, aquela!
Nilza Azzi
226
Águas de julho
Raio e trovão, a chuva cai bem forte; lá fora é frio e dentro é quase morte. É feito pausa extremamente longa que mora n’alma e nela se prolonga.
E a chuva sempre modifica o ar, ora mais leve de tanto chorar ora mais claro, pois que foi lavado, depois que a chuva foi para outro lado.
Porém sem chuva, sem a tempestade que, de repente, a nossa vida invade, não sobra graça, brilho à luz do sol,
fazendo o arco em cores no arrebol, nem a candura que se experimenta, quando afinal acaba-se a tormenta.
Nilza Azzi
245
Pena capital
Faz frio. É noite. Há fogo aceso. A chama em claridade brinda. Ao penetrar o corpo ileso o lume se desfaz e finda
em sombra. No espaço sem peso, a mente descansa. Bem-vinda, a certeza de ser coeso o ardor de vê-la assim tão linda,
em contraponto àquele céu anil. Sentir tão dentro tal espanto. Procurar seu mel,
aspirar à entrega total, apenas ser um simples réu: o amor a pena capital.
Nilza Azzi
134
Divagação
Para falar da dor, uma palavra: – Basta! mas ao falar de mim, confesso que não sei, se aquela que busquei foi pecadora ou casta, contida ou arrojada, em vidas que sonhei.
Ao se falar do amor, despreze-se à Jocasta que ao filho se entregou, desrespeitando a Lei e a sorte lamentou, na sina tão nefasta. Eu já não sofro a pena, a sorte revirei.
Em busca da Palavra, eu sigo vida afora e já não tenho filho ou homem que me atarde, não creio na ilusão, nem Édipo me castra.
Das vinhas colher mel, é o meu desejo agora e ao mestre tão atento, eu digo com alarde: – Na fala do Poeta, há um sonho que se alastra.
Nilza Azzi
188
Sem medidas
É quando a tarde cai, e o Sol se esconde, e a noite chega rápido, e me alcança, que não posso esquecer-me da criança perdida, não sei quando, não sei onde.
Não é tristeza, não, ou dor que vaza, também não é saudade o que me agarra. É mais a nostalgia... Aquela farra, na rua, ao fim do dia, em frente à casa.
O espectro da noite, e não me iludo, era uma ruptura, o adeus à vida, a forma de aprender que, descabida, um dia chega a morte e leva tudo.
Enfim, quando declina, em seu processo, o dia, e só nos sobra a escuridão, as mágoas, uma a uma, todas vão juntar-se desmedidas, pois não meço o tempo, pelos frutos da estação.
Nilza Azzi
167
Trilha
se nas reviravoltas me cansei das luas e se dos girassóis já se perdeu o encanto é que uma primavera foi embora um dia e nunca num verão eu soube o que era amar
pintei minha loucura em cor bem transparente deixei no céu o adeus sem mesmo refletir nos braços que partiram já não choro mais
se os restos de um poema são de cor brilhante e a trilha das palavras vem do pensamento além do imaginário tine a realidade certeira e mais cruel do que qualquer inferno
mas se numa recusa há sempre uma esperança repousam vinho e mel nos campos semeados