Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
O quanto peque em versos, sem qualquer talento, tentei fugir de ti poesia malfadada, seguir outro caminho, andar por outra estrada. Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,
a nuvem de meu estro, a linha alinhavada, o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento, o meu querer pesado, o coração ciumento e a dor de bem saber a letra da toada...
Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo, pois tem muito em comum, a saga das paixões, e paguei um a um os meus pecados tolos.
Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo − e saberias tu, se os limites transpões − que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?
Nilza Azzi
189
Versos de um domingo
O rio desce tranquilo da montanha; com calma, escorre as águas cristalinas, mas quando chove muito ele se assanha e invade, além das margens, as campinas.
E a força da torrente é tal, tamanha a callha da enxurrada, que termina por revolver o saibro; a água ganha a cor barrenta e arrasta a areia fina.
À beira de um remanso, vendo a cena, o olhar perdido, a alma, então serena, transmite para o corpo um sobressalto.
Relembra de beber da água mais pura, do tempo em que o amor era ventura, de quando o coração fremia, incauto.
Nilza Azzi
148
Taças
A taça em que borbulha um claro vinho – e leve – aquele em que bebeste as seivas de um afeto, transpira em névoa branca, o excesso, mas não deve perder de sua essência, o olor de que é repleto.
Passou aquele instante, a febre intensa e breve e em luta contra tudo, estranho a tal projeto, juntaste amor e dor nas páginas que escreves, fingindo indiferença, o escudo predileto.
A taça que versou o vinho sobre a blusa, que umedeceu o colo e pôs a desmaiar, a jovem que cruzou o teu olhar, confusa,
conserva por inteiro as curvas de teu sonho, retém no seu cristal um brilho de luar, reflete na memória um souvenir risonho.
Nilza Azzi
168
Feitiço
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços, sem ti, o mundo, inerte, perde o viço e a vida se desfaz num tom mortiço; sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm e nem por isso serão os meus desejos mais escassos, nas horas que me escapam aos pedaços, sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios, mas sonho que divido a minha cama contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios e sem o teu calor não tenho nada: — A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
160
Terror augusto
Eu vi a face de um país de horror, feito de dor e sofrimento atrozes e do lamento de infinitas vozes; mundo de fogo e fel – assustador.
Vi na aparência estranha dos algozes, nos olhos fundos do observador, todo o castigo duro e destrutor; restos e espectros trágicos, ferozes.
E foi o mal de ver, feito uma espada, cortando a minha carne, até que nada, em mim, não fosse chaga ou louco espanto;
como saber que a vida dói, mas tanto que o fato de morrer me fosse apenas um descansar do horror e dessas cenas.
Nilza Azzi
143
Sem outras saídas
Deixei escorrerem as águas passadas e os velhos moinhos, em torpe abandono, sustentam as pás, essas mãos desoladas, na desesperança do gesto que aciono.
Inúteis os grãos, as searas deitadas caíram ao chão, antes mesmo do Outono... E os velhos moinhos, beirando as estradas, são outras moradas, mas nada questiono:
– O tom da paisagem, estranha, irreal; o ar quixotesco e as pedras caídas, na base do muro, pintado de cal.
Em tempos de outrora, sem outras saídas, o meu pensamento sofreu, afinal, o choque mortal de emoções preteridas.
Nilza Azzi
173
Salicastru
O mar está quieto, a praia curva sobre si mesma o arco em que se fez. A onda apenas rola e assim não turva a limpidez da água... A uma só vez
pousam na espuma garças e gaivotas. A tarde, que desenha a bruma escura, carrega desventuras, mas não notas a força do desejo, ó criatura!
Perseguem teus anseios céu e mata, sinais dissimulados nas vertentes; um simples sussurrar inconsequente.
Quem pisa na armadilha, o nó desata e sofre, quanto mais ali esperneia, e morre, sem sequer tocar a areia.
Nilza Azzi
195
Critério
A minha mente anda confusa e vaga, perdeu o siso, o pouco que ainda tinha... E assim deixou-me a murmurar sozinha, Linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha, do pensamento, um fato não se apaga; indiferente aos rumos desta saga, meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz, pois quer contar do seu estado aéreo, o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério. Se sofre mais que a mente, e sofre a sós, é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
204
Os olhos de Ester
Se nos olhos de Ester há uma falsa consciência e se o bardo não pensa as verdades que expressa, nessa praça mais ampla, as fragrâncias intensas, já floresce o jasmim, perfumando a travessa.
Se no seio de Ester não se encontra a licença para seu puro afeto e se a jovem não cessa de dizer que não quer nada que lhe pertença... Oh! Que pobre ele é! Oh! Que triste promessa!
Se não cabe a José a esperança, sequer, de encontrar nesse amor um lampejo que seja de cumprir seu destino e levá-la á igreja...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que ingrata mulher! Pois os olhos de Ester não refletem, José, esse enlevo total. É melhor 'dar no pé'...
Nilza Azzi
161
Sal da terra
Ora! Deixem que brilhem as estrelas, a respingar o espaço de incertezas! Meus pobres olhos brilham só por vê-las, porque sou só, sem forças, indefesa. Se fosse a luz do olhar qualquer farol e houvesse um porto em mim onde atracasse um barco e, então, um só raio de sol pudesse iluminar a minha face, quem sabe fosse aquilo uma esperança de ser a solidão coisa banal, e a lágrima − essa gota que se lança a fim de revelar todo seu sal,
em brilhos de cristal a céu aberto − a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.