Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Adeus soneto! Vai comigo uma saudade. Eu, de partida, já nem sei o que dizer, enquanto espero o alvará de liberdade desta prisão, onde me vi a florescer.
Como um amante que não dura eternamente, porém nos dá grandes momentos de prazer, provaste ser um companheiro bem ardente − nos leva ao êxtase, a loucura de escrever.
As minhas rimas já se vão empobrecendo, minguam reservas de figuras de sintaxe. Vocabulário? Esgotei o cabedal!
Sobre medidas, as noções ando perdendo, pouco me ajuda recorrer à paralaxe... Guarda em teu eixo, o meu adeus sentimental.
Nilza Azzi
197
Sal da terra
Ora! Deixem que brilhem as estrelas, a respingar o espaço de incertezas! Meus pobres olhos brilham só por vê-las, porque sou só, sem forças, indefesa. Se fosse a luz do olhar qualquer farol e houvesse um porto em mim onde atracasse um barco e, então, um só raio de sol pudesse iluminar a minha face, quem sabe fosse aquilo uma esperança de ser a solidão coisa banal, e a lágrima − essa gota que se lança a fim de revelar todo seu sal,
em brilhos de cristal a céu aberto − a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.
Nilza Azzi
156
Critério
A minha mente anda confusa e vaga, perdeu o siso, o pouco que ainda tinha... E assim deixou-me a murmurar sozinha, Linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha, do pensamento, um fato não se apaga; indiferente aos rumos desta saga, meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz, pois quer contar do seu estado aéreo, o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério. Se sofre mais que a mente, e sofre a sós, é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
200
Taças
A taça em que borbulha um claro vinho – e leve – aquele em que bebeste as seivas de um afeto, transpira em névoa branca, o excesso, mas não deve perder de sua essência, o olor de que é repleto.
Passou aquele instante, a febre intensa e breve e em luta contra tudo, estranho a tal projeto, juntaste amor e dor nas páginas que escreves, fingindo indiferença, o escudo predileto.
A taça que versou o vinho sobre a blusa, que umedeceu o colo e pôs a desmaiar, a jovem que cruzou o teu olhar, confusa,
conserva por inteiro as curvas de teu sonho, retém no seu cristal um brilho de luar, reflete na memória um souvenir risonho.
Nilza Azzi
165
Terror augusto
Eu vi a face de um país de horror, feito de dor e sofrimento atrozes e do lamento de infinitas vozes; mundo de fogo e fel – assustador.
Vi na aparência estranha dos algozes, nos olhos fundos do observador, todo o castigo duro e destrutor; restos e espectros trágicos, ferozes.
E foi o mal de ver, feito uma espada, cortando a minha carne, até que nada, em mim, não fosse chaga ou louco espanto;
como saber que a vida dói, mas tanto que o fato de morrer me fosse apenas um descansar do horror e dessas cenas.
Nilza Azzi
140
Salto
A centelha que ilumina a cada um de nós e impulsiona com firmeza a nossa evolução, encaminha a nossa mente além do eu e, então, nos ajuda a superar a dor de sermos sós.
É difícil de entender, pois de outra dimensão, veio a Mônada habitar o ser profano e após completar a experiência e desfazer os nós que vieram do passado – e aqui e agora estão –
poderá tirar proveito do que aconteceu, (as lições que necessita) até que o apogeu desta lida lhe permita alçar-se a grau mais alto.
E da luz que ela concentra, aumenta e perpetua, faz surgir o entendimento e abraça como sua a missão de mergulhar no vácuo desse salto.
Nilza Azzi
158
Tormenta
A chuva cai batida, enquanto o céu desaba, retalho e mais retalho, em sua cor cinzenta, porém cada pedaço ainda traz de sobra, um cinza mais escuro, além do que se aguenta.
Por sobre a terra escorre a chuva que soçobra, em forma de enxurrada, escura e bem barrenta. O que mandou ao céu, de volta, a terra cobra e atrai aos seus lençóis os restos da tormenta.
Depois, tudo sossega e o céu pede uma trégua; cansados do trabalho, o raio e seu clarão, relâmpago e trovão descansam da folia,
tudo parece calmo, além, por muitas léguas. Há uma pausa, um suspense e – de repente, então – a chuva recomeça a chover, como havia...
Nilza Azzi
194
Transição
Um anjo, uma mulher, bateu à minha porta, com flores nos cabelos e uma forma alada. Quisera que ficasse (o tempo não importa) e uma tarde qualquer, me desse a mão e nada
pudesse coibir que a trilha, embora torta, surgisse à frente firme, em luz clara e dourada. Na sua companhia, o amor sempre conforta e a tepidez do abraço anula a madrugada.
Mas nunca coube a mim, ditar-lhe: “- Agora escolha!” Apenas quis fruir do canto, um certo gozo, enquanto perdurou, a ligação fatal.
Não posso reclamar, pois nunca me fez mal, porém partiu, deixou-me em círculo vicioso, em volta da Poesia: − a pétala e uma folha.
Nilza Azzi
190
Quem sabe?
“Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento ?"
(Carlos Gomes /Bittencourt Sampaio)
Há momentos em que sou a labareda, mas há outros de queimar, ser a fogueira; pensamentos delicados, gota queda, e tormentos, em que corro em cachoeira.
Há uma instância em que, brisa, eu sopro leve e uma outra, em que eu chio, em vendaval. Coração vai na batida em que não deve; vez em quando, toma um ritmo normal.
Se descanso, como um lago em placidez, me enfureço com estrondo em mar revolto; chuva mansa que essa terra satisfez,
tempestade em que o estrago corre solto. Uma coisa só não muda em mim, é certo: é a saudade, por não ter você por perto!
Nilza Azzi
205
Salicastru
O mar está quieto, a praia curva sobre si mesma o arco em que se fez. A onda apenas rola e assim não turva a limpidez da água... A uma só vez
pousam na espuma garças e gaivotas. A tarde, que desenha a bruma escura, carrega desventuras, mas não notas a força do desejo, ó criatura!
Perseguem teus anseios céu e mata, sinais dissimulados nas vertentes; um simples sussurrar inconsequente.
Quem pisa na armadilha, o nó desata e sofre, quanto mais ali esperneia, e morre, sem sequer tocar a areia.