Lista de Poemas

Um pouco de sal


A caminhar tão lentamente (era a lesma),

espécie antiga, fadada à extinção,
deixava um rastro, um filete de si mesma,
sem vislumbrar mais premência... Tudo é vão!

Na insipidez de seu mundo sempre escuro,
no silêncio do buraco onde vivia,
naquele corpo indefeso e mal seguro,
sempre apartada, a fugir da luz do dia,

foi se arrastando... Porém, sem que esperasse,
no seu caminho encontrou uma barreira.
Tal molusco por não ter nenhuma face,
não tem noção da tragédia que se abeira:

sem perceber a razão, em si deságua;
some no sal, vira simples poça d’água...

Nilza Azzi
170

Terror augusto


Eu vi a face de um país de horror,

feito de dor e sofrimento atrozes
e do lamento de infinitas vozes;
mundo de fogo e fel – assustador.

Vi na aparência estranha dos algozes,
nos olhos fundos do observador,
todo o castigo duro e destrutor;
restos e espectros trágicos, ferozes.

E foi o mal de ver, feito uma espada,
cortando a minha carne, até que nada,
em mim, não fosse chaga ou louco espanto;

como saber que a vida dói, mas tanto
que o fato de morrer me fosse apenas
um descansar do horror e dessas cenas.

Nilza Azzi

 

132

Salto


A centelha que ilumina a cada um de nós

e impulsiona com firmeza a nossa evolução,
encaminha a nossa mente além do eu e, então,
nos ajuda a superar a dor de sermos sós.

É difícil de entender, pois de outra dimensão,
veio a Mônada habitar o ser profano e após
completar a experiência  e desfazer os nós
que vieram do passado – e aqui e agora estão –

poderá tirar proveito do que aconteceu,
(as lições que necessita) até que o apogeu
desta  lida lhe permita alçar-se a grau mais alto.

E da luz que ela concentra, aumenta e perpetua,
faz surgir o entendimento e abraça como sua
a missão de mergulhar no vácuo desse salto.

Nilza Azzi
149

Sem outras saídas


Deixei escorrerem as águas passadas
e os velhos moinhos, em torpe abandono,
sustentam as pás, essas mãos desoladas,
na desesperança do gesto que aciono.

Inúteis os grãos, as searas deitadas
caíram ao chão, antes mesmo do Outono...
E os velhos moinhos, beirando as estradas,
são outras moradas, mas nada questiono:

– O tom da paisagem, estranha, irreal;
o ar quixotesco e as pedras caídas,
na base do muro, pintado de cal.

Em tempos de outrora, sem outras saídas,
o meu pensamento sofreu, afinal,
o choque mortal de emoções preteridas.

Nilza Azzi
161

Avença


Habita uma certeza, escancarada, intensa,
anzóis causam rubor –despenca a água – tingem
cascatas e explosão. No lago nada a virgem,
a flor, a pena, a encrenca, até que a mágoa vença

e o cálice repleto, a luz alada, a origem,
destruam de uma vez diques e frágua. Avença...
E o mar mais interior a gruta invada, extensa,
a praia sem calor onde deságua e cingem

em seixos, branca espuma ao derredor, na orla.
Presente ao longe a voz de uma sereia, imanta,
preenche o mar, o céu, de novo espanto. Crasso!

Informe, a ilusão se crê melhor no espaço,
infâmia que penetra e que permeia tanta
descrença de entender esse meu canto: – Borla!

Nilza Azzi
192

Critério


A minha mente anda confusa e vaga,

perdeu o siso, o pouco que ainda tinha...
E assim deixou-me a murmurar sozinha,
Linguagem muda  – parece uma praga.

Por ter causado esta tristeza minha,
do pensamento, um fato não se apaga;
indiferente aos rumos desta saga,
meu bem-estar despreza e espezinha.

Já o coração precisa de uma voz,
pois quer contar do seu estado aéreo,
o descompasso, o sobressalto atroz,

mas não consegue agir e ter critério.
Se sofre mais que a mente, e sofre a sós,
é porque sabe que és um caso sério.

Nilza Azzi
193

Sal da terra


Ora! Deixem que brilhem as estrelas,

a  respingar o espaço de incertezas!
Meus pobres olhos brilham só por vê-las,
porque sou só, sem forças, indefesa.
Se fosse a luz do olhar qualquer farol
e houvesse um porto em mim onde atracasse
um barco e, então, um só raio de sol
pudesse iluminar a minha face,
quem sabe fosse aquilo uma esperança
de ser a solidão coisa banal,
e a lágrima − essa gota que se lança 
a fim de revelar todo seu sal,

em brilhos de cristal a céu aberto −
a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.

Nilza Azzi
151

Turbulência


Já me encontrei perdida em meio à turba.

Mal me trouxe de volta até meu canto,
já me perdi em vã tristeza e, tanto,
sem superar a dor que me perturba,

e não me vi, senão com grande espanto,
sorver da paz.  Basta que o tempo urda,
na solidão de uma esperança surda,
um mal de amor: - Dizer, eu não sei quanto!

Não sei contar sobre a descida ao poço,
mas ao puxar a corda e ver a draga
faltou vontade de beber tal água.

A grande sede, bem contida, trago-a,
enquanto aguardo e a sorte não me afaga,
não mais me perco em meio a um alvoroço.

Nilza Azzi
203

Súplica


Deixei pra trás qualquer desejo súbito,
de caminhar na estrada reta e única.
Me desviei, formei um novo hábito,
buscando compreender as leis da física.

Entendo as coisas, examino o ângulo,
deixando longe o meu pensar tão ázimo.
Procuro o equilíbrio desse pêndulo, 
onde possa alcançar o ponto máximo.

O teu olhar ao longe é uma bússola,
e ao ver teu vulto eu penso em nova tática...
O teu sorriso brilha como a pérola,

o som da tua voz parece música.
Do teu falar, eu não tiro uma vírgula
e peço o teu amor, em uma súplica.

Nilza Azzi
179

Tormenta


A chuva cai batida, enquanto o céu desaba,

retalho e mais retalho, em sua cor cinzenta,
porém cada pedaço ainda traz de  sobra,
um cinza mais escuro, além do que se aguenta.

Por sobre a terra escorre a chuva que soçobra,
em forma de enxurrada, escura e bem barrenta.
O que mandou ao céu, de volta, a terra cobra
e atrai aos seus lençóis os restos da tormenta.

Depois, tudo sossega e o céu pede uma trégua;
cansados do trabalho, o raio e seu clarão,
relâmpago e trovão descansam da folia,

tudo parece calmo, além, por muitas léguas.
Há uma pausa, um suspense e – de repente, então –
a chuva recomeça a chover, como havia...

Nilza Azzi
187

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!