Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Deixei escorrerem as águas passadas e os velhos moinhos, em torpe abandono, sustentam as pás, essas mãos desoladas, na desesperança do gesto que aciono.
Inúteis os grãos, as searas deitadas caíram ao chão, antes mesmo do Outono... E os velhos moinhos, beirando as estradas, são outras moradas, mas nada questiono:
– O tom da paisagem, estranha, irreal; o ar quixotesco e as pedras caídas, na base do muro, pintado de cal.
Em tempos de outrora, sem outras saídas, o meu pensamento sofreu, afinal, o choque mortal de emoções preteridas.
Nilza Azzi
173
Repique
Quando amanhece pelas bandas de Campinas, quando o céu limpo da cidade é azul intenso, quando o perfume do jardim recende a incenso, é que me esqueço das tristezas vespertinas...
Como se a noite desfizesse o mundo denso, como tirasse da lembrança as dores finas, como se o dia solevasse as minhas sinas, é que me vejo a carecer de um outro senso.
E, nessas contas de um balanço equivocado, jamais encontro a solução do meu agrado, pois tenho um saldo negativo que não cubro.
Ao confrontar-me com tristezas e alegrias, vejo-me sempre com as mãos demais vazias. – E outro poente engole o dia, exato e rubro.
Nilza Azzi
153
O louco
O louco é a primeira carta do tarô;
também a última e a mais instigante...
Ia pela rua, um pobre homem só, levava numa vara o saco do destino, amarrado em trouxa, um saco pequenino, enfrentando o mundo, louco de dar dó.
Junto ao precipício, com seu violino, enviava ao vento o mi, o fá e o dó... Tinha no chapéu, a pena carijó e mirava o alto, todo o céu divino.
Não sabia o medo, nessa vã loucura, entregava ao caos, o peso do seu fardo e se despejava num vazio imenso.
Tinha na lembrança, à guisa de consenso, vagas impressões do doce mais amargo, que jamais provara, em sua desventura...
Nilza Azzi
213
Súplica
Deixei pra trás qualquer desejo súbito, de caminhar na estrada reta e única. Me desviei, formei um novo hábito, buscando compreender as leis da física.
Entendo as coisas, examino o ângulo, deixando longe o meu pensar tão ázimo. Procuro o equilíbrio desse pêndulo, onde possa alcançar o ponto máximo.
O teu olhar ao longe é uma bússola, e ao ver teu vulto eu penso em nova tática... O teu sorriso brilha como a pérola,
o som da tua voz parece música. Do teu falar, eu não tiro uma vírgula e peço o teu amor, em uma súplica.
Nilza Azzi
191
Os olhos de Ester
Se nos olhos de Ester há uma falsa consciência e se o bardo não pensa as verdades que expressa, nessa praça mais ampla, as fragrâncias intensas, já floresce o jasmim, perfumando a travessa.
Se no seio de Ester não se encontra a licença para seu puro afeto e se a jovem não cessa de dizer que não quer nada que lhe pertença... Oh! Que pobre ele é! Oh! Que triste promessa!
Se não cabe a José a esperança, sequer, de encontrar nesse amor um lampejo que seja de cumprir seu destino e levá-la á igreja...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que ingrata mulher! Pois os olhos de Ester não refletem, José, esse enlevo total. É melhor 'dar no pé'...
Nilza Azzi
161
Salicastru
O mar está quieto, a praia curva sobre si mesma o arco em que se fez. A onda apenas rola e assim não turva a limpidez da água... A uma só vez
pousam na espuma garças e gaivotas. A tarde, que desenha a bruma escura, carrega desventuras, mas não notas a força do desejo, ó criatura!
Perseguem teus anseios céu e mata, sinais dissimulados nas vertentes; um simples sussurrar inconsequente.
Quem pisa na armadilha, o nó desata e sofre, quanto mais ali esperneia, e morre, sem sequer tocar a areia.
Nilza Azzi
195
Quem sabe?
“Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento ?"
(Carlos Gomes /Bittencourt Sampaio)
Há momentos em que sou a labareda, mas há outros de queimar, ser a fogueira; pensamentos delicados, gota queda, e tormentos, em que corro em cachoeira.
Há uma instância em que, brisa, eu sopro leve e uma outra, em que eu chio, em vendaval. Coração vai na batida em que não deve; vez em quando, toma um ritmo normal.
Se descanso, como um lago em placidez, me enfureço com estrondo em mar revolto; chuva mansa que essa terra satisfez,
tempestade em que o estrago corre solto. Uma coisa só não muda em mim, é certo: é a saudade, por não ter você por perto!
Nilza Azzi
207
Olhares
Não há olhar sem luz, por ela sempre externo a forma da visão e de encarar o mundo. O belo nos seduz, contudo o mais fecundo contato é emoção; contempla o mais fraterno.
A imagem que reluz, se esvai, dura um segundo; as mais opacas são lembranças de um inverno. Se um feixe nos conduz, do raio que governo pesquiso de antemão e cores não confundo.
Fitar eu sempre quis, com olhos bem brilhantes, o amor sem nem cuidar que fosse sobranceiro; apenas ser feliz, sem freios de um roteiro.
Guardei no meu olhar a luz da liberdade; mortal jamais prediz o que virá adiante. inútil foi sondar; te foste num instante.
Nilza Azzi
209
Sal da terra
Ora! Deixem que brilhem as estrelas, a respingar o espaço de incertezas! Meus pobres olhos brilham só por vê-las, porque sou só, sem forças, indefesa. Se fosse a luz do olhar qualquer farol e houvesse um porto em mim onde atracasse um barco e, então, um só raio de sol pudesse iluminar a minha face, quem sabe fosse aquilo uma esperança de ser a solidão coisa banal, e a lágrima − essa gota que se lança a fim de revelar todo seu sal,
em brilhos de cristal a céu aberto − a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.
Nilza Azzi
159
Salto
A centelha que ilumina a cada um de nós e impulsiona com firmeza a nossa evolução, encaminha a nossa mente além do eu e, então, nos ajuda a superar a dor de sermos sós.
É difícil de entender, pois de outra dimensão, veio a Mônada habitar o ser profano e após completar a experiência e desfazer os nós que vieram do passado – e aqui e agora estão –
poderá tirar proveito do que aconteceu, (as lições que necessita) até que o apogeu desta lida lhe permita alçar-se a grau mais alto.
E da luz que ela concentra, aumenta e perpetua, faz surgir o entendimento e abraça como sua a missão de mergulhar no vácuo desse salto.