Lista de Poemas

Quem sabe?

“Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento ?" 
(Carlos Gomes /Bittencourt Sampaio)
 
Há momentos em que sou a labareda,
mas há outros de queimar, ser a fogueira;
pensamentos delicados, gota queda,
e tormentos, em que corro em cachoeira.

Há uma instância em que, brisa, eu sopro leve
e uma outra, em que eu chio, em vendaval.
Coração vai na batida em que não deve;
vez em quando, toma um ritmo normal.

Se descanso, como um lago em placidez,
me enfureço com estrondo em mar revolto;
chuva mansa que essa terra satisfez,

tempestade em que o estrago corre solto.
Uma coisa só não muda em mim, é certo:
é a saudade, por não ter você por perto!

Nilza Azzi

 
199

Paralaxe hipotética


Adeus soneto! Vai comigo uma saudade.
Eu, de partida, já nem sei o que dizer,
enquanto espero o alvará de liberdade
desta prisão, onde me vi a florescer.

Como um amante que não dura eternamente,
porém nos dá grandes momentos de prazer,
provaste ser um companheiro bem ardente
− nos leva ao êxtase, a loucura de escrever.

As minhas rimas já se vão empobrecendo,
minguam reservas de figuras de sintaxe.
Vocabulário? Esgotei o cabedal!

Sobre medidas, as noções ando perdendo,
pouco me ajuda recorrer à paralaxe...
Guarda em teu eixo, o meu adeus sentimental.

Nilza Azzi
188

Última visão


Éramos dois, num dia tão distante;

um mundo em flor, as ruas do mercado!
Quem vai saber por que não fui adiante,
pois me perdi – caminho equivocado.

Éramos dois, na busca de um instante
em que um triunfo fosse declarado,
mas a vontade não é o que garante
chegarmos sempre ao mesmo resultado.

Longe daqui, montanhas do Marrocos
serão teu lar, cobrindo o horizonte,
um pôr-do-sol, a cena ali defronte?

Não sei prever se vou morrer na praia;
– órfã da luz e sem amor, sufoco ­–
o mar traz ondas brancas, num só bloco.

Nilza Azzi
151

Partenogênese


Se dividisse ao meio o dom que te alimenta,

multiplicado assim, por divisão aos pares,
serias sabedor das artes do gameta;
farias destes céus espaços populares.

Se grávida da voz, a estrela se arrebenta
e traz o mundo à luz, ferida em mil esgares,
a cria então vingou da sedução sedenta:
— E tu não sujarás o chão onde pisares ...

Derrete-se o metal no caldeirão de Hades
e, dele, o que se faz é obra de Vulcano,
o criador do raio, estrondo sobre-humano.

Na conta de tirar, alteram-se as vontades,
e o gozo mais cruel, no sonho ele se frustra:
— O filho da uma deusa, a revelar-se um lustra.

Nilza Azzi

 
148

Taças


A taça em que borbulha um claro vinho – e leve –

aquele em que bebeste as seivas de um afeto,
transpira em névoa branca, o excesso, mas não deve
perder de sua essência, o olor de que é repleto.

Passou aquele instante, a febre intensa e breve
e em luta contra tudo, estranho a tal projeto,
juntaste  amor e dor nas páginas que escreves,
fingindo indiferença, o escudo predileto.

A taça que versou o vinho sobre a blusa,
que umedeceu o colo e pôs a desmaiar,
a jovem que cruzou o teu olhar, confusa,

conserva por inteiro as curvas de teu sonho,
retém no seu cristal um brilho de luar,
reflete na memória um souvenir risonho.

Nilza Azzi
159

Charada


Inspirado vou eu ouvir som agoureiro,
se primeiro há em mim a intenção de fruir;
de sorrir pelo céu, esse azul de tinteiro
e me abeiro da paz, brancas nuvens, porvir.

Ao me abrir ao prazer, vejo ao longe um outeiro
e um aceiro contorna um farol a ruir...
Eis me a rir, gargalhar, pois me sinto fagueiro:
sou herdeiro do vento; ele é meu elixir...

A luzir, longe o mar, velas brancas, infladas
e as paradas da espuma a subir pela areia.
E se alteia uma onda, outra logo se quebra

e celebra a visão, alma assim nunca alquebra.
Se requebra esta voz, a balada que anseia,
desenleia este amor das antigas charadas.

Nilza Azzi
197

Salicastru


O mar está quieto, a praia curva

sobre si mesma o arco em que se fez.
A onda apenas rola e assim não turva
a limpidez da água... A uma só vez

pousam na espuma garças e gaivotas.
A tarde, que desenha a bruma escura,
carrega desventuras, mas não notas
a força do desejo, ó criatura!

Perseguem teus anseios céu e mata,
sinais dissimulados nas vertentes;
um simples sussurrar inconsequente.

Quem pisa na armadilha, o nó desata
e sofre, quanto mais ali esperneia,
e morre, sem sequer tocar a areia.

Nilza Azzi
188

Inglória


Essa dor que nos punge a alma, ingente,

e não é dor de amor nem de paixão,
é mais dor de viver, viver e, então,
descobrir dor maior, à nossa frente.
É saber que na busca não há pausa,
mesmo quando o cansaço nos abate
e, se a busca nos leva ao disparate,
é mais intensa a dor que ele nos causa.
Também é despertar com nossos medos,
adormecer nos braços de fantasmas,
em meio à realidade que se plasma
cruel e descobrir isso bem cedo.

É causa sem efeito que nos valha, 
diante do desfecho da batalha.

Nilza Azzi
182

Estrelas e nuvens


Há nuvens tão brancas no céu infinito,

um terno convite a contar carneirinhos.
Também há estrelas e, muitas, reflito,
mas sempre estarão a brilhar tão mansinho?

A noite agradável revela um conflito,
a brisa  suave parece um carinho
e cresce o luar, cada vez mais bonito,
aqui neste canto, um quintal comezinho.

Matéria de sonhos e versos perfeitos,
mistérios celestes instigam a mente...
Quisera viver bem mais leve e contente,

Ccntudo uma dor vem roer, de tal jeito,
pedaços do ser, que a saudade rejunta,
e seguem disjuntas, estrelas e nuvens.

Nilza Azzi
171

Formas


Nuvem que vaga pelo céu distante,
sonho de chuva de um grão diminuto,
meio dormente, à beira do levante:
– nova esperança traz como atributo.

Que escalde a terra, o fogo crepitante
e de algum modo, num saber arguto,
rompa-se  a casca, surja logo adiante...
Dos muitos brotos, logo venham frutos,

em messe farta, a revelar da vida,
a breve essência, a história resumida,
o desdobrar da eterna trajetória,

do ciclo efêmero do ser humano...
E sobre as graças, nesse chão profano,
vale lembrar que a forma é transitória.

Nilza Azzi

 
172

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!