Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
O céu, sempre uma esfera silenciosa; o azul, uma ilusão que nos encanta; a voz é uma vontade na garganta; rainha no jardim, somente e rosa...
As nuvens, brancas nuvens, são a manta que torna essa impressão mais caprichosa; a mente acha repouso enquanto goza de um certo desalento e não se espanta.
Silêncio, pois é sob o céu parado que a vaga sensação de um bem perdido procura acomodar-se á vida em terra;
silêncio que faz bem, mas nada encerra e nos ouvidos sopra esse zumbido que é som, mas representa um outro estado.
Nilza Azzi
196
Estrelas e nuvens
Há nuvens tão brancas no céu infinito, um terno convite a contar carneirinhos. Também há estrelas e, muitas, reflito, mas sempre estarão a brilhar tão mansinho?
A noite agradável revela um conflito, a brisa suave parece um carinho e cresce o luar, cada vez mais bonito, aqui neste canto, um quintal comezinho.
Matéria de sonhos e versos perfeitos, mistérios celestes instigam a mente... Quisera viver bem mais leve e contente,
Ccntudo uma dor vem roer, de tal jeito, pedaços do ser, que a saudade rejunta, e seguem disjuntas, estrelas e nuvens.
Nilza Azzi
185
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta, que não posso deter no meu palato, fala por mim, porém nunca me escuta; essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta, a enorme força nela, eu desacato. Que venha a mim na arena, absoluta, para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes, hei de deixá-la nua, hei de expô-la, para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes e quando enfim tornar a encontrá-la, que ela me seja clara em qualquer fala.
Nilza Azzi
193
Campo limpo
Levanta — meu senhor! — O dia brilha intenso, nas terras logo além, germinam as sementes, assume o teu papel, não sejas indolente; se tudo é sempre igual, a língua perde senso. Nem todos são os grãos que vingam, entrementes, ganhar a luz do dia envolve uma disputa! — O verso não quer mais uma palavra enxuta, procura pela voz versátil das vertentes. Senhora dos vergéis, estranha ao vil concreto, de nível superior, os modos imponentes, (o som escapa forte, é sopro contra os dentes) desmonta de uma vez o berço analfabeto.
No fundo do crisol, mistura delirante espalha pelo ar as luzes do levante.
Nilza Azzi
222
Dissolução
Sinto saudade de um bem que nunca tive; a nostalgia da ausência é sempre forte e esse vazio, denso e calmo, é mais terrível, porque não há solução na minha sorte.
Se nas esquinas do tempo, eterna, vive, à minha espreita, essa sombra, a minha morte, para flagrá-la, escorrego nesse aclive e não mais quero a verdade que conforte.
Se na passagem que está no meu caminho, tudo que existe são formas de incerteza e, neste mundo, a matéria segue presa,
o bem perdido é um desejo comezinho – a ceifadeira nos diz que tudo finda – que esse vazio pode ser maior ainda.
Nilza Azzi
215
Clímax
Como se, em mim, já não coubesse mais, de bem querer, pedaço mais nenhum e o coração guardasse desiguais um eu e um outro, em formas incomuns,
ressinto assim que, às vezes, é demais o tanto amar... E busco algum jejum, para encontrar do amor alguma paz, sem anular meu ser, de jeito algum...
Mas é na calma que me explode a falta e já não sei além de mim, além do meu sentir, o espaço que detém
nessa minh’alma, a estima tão em alta, sem que me importe a justa sobra em mim e que me acabe justo nesse fim...
Nilza Azzi
172
Finais
Tarde cinzenta de um domingo triste, é bem outono e o mundo, descompasso entre o querer e o que de fato existe, entre o que sonho... e o que de fato, faço.
Tarde cinzenta guarda meu cansaço, por enfrentar, desse inimigo, o chiste e padecer o gosto do fracasso: – Ponto final a que me conduziste.
O céu pesado esconde a velha cor, traz ao meu mundo o peso da opressão e o coração sufoca por ser só...
Saber... Querer... Poder... Eis o meu nó! Fruir... Sentir... Parir... Sempre se dão! – Quisera ter mais sonho e mais amor!
Nilza Azzi
176
Doçuras
Final de outono, neste quase inverno! O tempo triste finge ser eterno, como se eterno o tempo sempre fosse, quando a visão da luz se faz mais doce.
Na tarde, quando chega a hora escura, descobrem-se as estrelas lá na altura e a voz do coração, mais cautelosa, desfolha-se em mil pétalas de rosas.
Na noite, a tal quietude nos liberta... Se a solidão é tida como certa, saudemos o perfume dos lilases.
De mim, serei então, o que assim fazes, – já pronto pra colheita, assim tomara! – Um campo de cultivo, uma seara.
Nilza Azzi
182
Sem medidas
Ah, se eu tivesse, em vez dessa certeza um desquerer qualquer que me valesse, razão que não me fosse igual, nem esse, um vasto amor, com fúria que se apresa.
Mar revoltado, em ondas revertesse, em luz que se dá brilho, antes de acesa, em chama que nos arde a natureza e a força que nos mora fosse haver-se...
E o mar engole e cospe − é ou não é o mundo de nós mesmos feito avesso, de um outro que nos vive, por tão forte.
Se é, se pode alguém manter a fé, por mim já está tão certo, ou estremeço, só de pensar que amor desvale o norte.
Nilza Azzi
222
Depois do carnaval
Tirei uma tampinha do meu dedo, ele sangrou e não parava mais... O mundo entonteceu, ficou azedo, mas recebi socorro de um rapaz.
Olhei pro sangue e senti tanto medo, que aquelas gotas me fossem mortais e, assim, da terra, fosse eu tão cedo. – Alguém iria aos meus funerais?
Mas minha alma não fugiu em gotas, o esvair-se não aconteceu – esse meu medo estúpido, ancestral .
O esparadrapo, com as bordas rotas, esconde o corte que o dedo sofreu: só vou olhar depois do carnaval...