Lista de Poemas
fragmentos
há um pedaço de céu
numa palavra tua
um mel que escorre
em sensação estranha
a minha alma recolhida
nua como a madrugada
veste véus de sonho e névoa
tem desmaios de lua nova
há uns ticos de tristeza
na lembrança do que dizes
algumas gotas úmidas
que não choro por querer
nilza azzi
187
Happening
Fazer amor contigo, às escondidas,
apenas pelo gosto ao proibido.
Com jeito simular umas mordidas,
na orelha, e murmurar ao teu ouvido
besteiras e vontades reprimidas,
no mais secreto espaço da libido.
Criar um rebuliço em nossas vidas,
em busca de um conforto desmedido,
sentir que nos tornamos por momentos
um só, já que um do outro tão sedentos,
buscamos nos unir de corpo inteiro.
Ser assim, de tal forma que teu cheiro,
ainda ao acordar, esteja em mim,
como se os sonhos não tivessem fim...
Nilza Azzi
198
Sublime amor
Sublime amor, perfeito amor, garanto,
desde que um dia tudo teve fim,
deixo a distância habitar em mim
– aumento assim a saga deste canto!
Se toda estrela brilha e nisso insiste
e perambula espaço afora, bela,
ao cintilar ante o semblante triste,
o pranto eterno deste vate, sela.
Como um planeta a perseguir o sol,
gira imantado, um mero seguidor,
desde os primeiros raios do arrebol,
bebo das luzes deste antigo amor.
Num mar de estrelas, célere, disperso
Migalha e areia, trastes do meu verso.
Nilza Azzi
180
Dissolução
Sinto saudade de um bem que nunca tive;
a nostalgia da ausência é sempre forte
e esse vazio, denso e calmo, é mais terrível,
porque não há solução na minha sorte.
Se nas esquinas do tempo, eterna, vive,
à minha espreita, essa sombra, a minha morte,
para flagrá-la, escorrego nesse aclive
e não mais quero a verdade que conforte.
Se na passagem que está no meu caminho,
tudo que existe são formas de incerteza
e, neste mundo, a matéria segue presa,
o bem perdido é um desejo comezinho
– a ceifadeira nos diz que tudo finda –
que esse vazio pode ser maior ainda.
Nilza Azzi
200
Embrulho
Coloco meu segredo numa caixa,
embrulho com papel lindo, floral.
Escondo num armário – ninguém acha –
e vou tomar um ar noutro local.
Ocorre que a velhice me despacha
o senso... esqueço tudo... esse é meu mal.
A minha lucidez está em baixa,
periga de alcançar mais alto grau.
Assim, ninguém, jamais, vai descobrir
o embrulho em que decerto estou metida,
segredo bem guardado e esquecido.
Estranho... nunca tive um apelido
e o nome, recebido nesta vida,
será pouco lembrado no porvir.
Nilza Azzi
177
Projeção
Se um dia fores só e eu for só,
logo nós que fomos sós a vida inteira,
uniremos tristezas em fileiras
e a saudade não será mais tão atroz.
Se um dia, deste mundo, o desencanto,
de tão velho, não roubar a nossa fé
e essa vida, tão antiga como é,
não trouxer o sofrer que abate tanto...
Nossos passos, seguindo a mesma estrada,
da poesia e das almas inquietas,
deixarão pelo pó as mesmas setas
rumo ao sonho, onde não nos falta nada.
Nosso olhar, procurando um bem futuro,
bem na linha em que o céu encontra o mar,
não terá outro bem para espalhar,
a não ser um poema extremo e puro.
Nilza Azzi
160
Senhora dos meus sonhos
Duas da tarde: – O céu tornou-se escuro,
manteve acima a cor do seu recado,
depois verteu o cinza concentrado
e derramou-se para além do muro.
Às três e meia, tudo já mudado,
brilhava o sol um brilho prematuro,
a esticar seus raios com apuro,
por entre o ar chovido, o seu traçado.
Às quatro horas, quase ao fim da tarde,
a brisa leve seca o mundo em volta.
O tempo pausa, em súbito sossêgo...
A cor azul, lembrança de um mar grego,
despega um tom e surge em viravolta:
– Senhora dos meus sonhos, tempestades.
Nilza Azzi
152
Singularidade
Oh, estrela do céu! Tão distante de mim,
esse brilho que tens reverbera sem fim.
És passado, porém, és de outro universo,
paralelo a este meu, singular e perverso.
Oh, meu raio de luz! Tão perfeito és assim
como eu vejo daqui, ideal serafim.
Da matéria que és, sou grãozinho disperso,
da poeira que sou, és completo, o inverso.
Num carbono da Terra, em diverso sentido,
vislumbrei a razão de um planeta perdido,
que não teme o calor das estrelas candentes.
Dele posso tocar o meu sol de mais perto,
sem notar um senão que me impeça. Deserto!
Desafio estas leis – luto contra as correntes.
Nilza Azzi
149
Depois do carnaval
Tirei uma tampinha do meu dedo,
ele sangrou e não parava mais...
O mundo entonteceu, ficou azedo,
mas recebi socorro de um rapaz.
Olhei pro sangue e senti tanto medo,
que aquelas gotas me fossem mortais
e, assim, da terra, fosse eu tão cedo.
– Alguém iria aos meus funerais?
Mas minha alma não fugiu em gotas,
o esvair-se não aconteceu
– esse meu medo estúpido, ancestral .
O esparadrapo, com as bordas rotas,
esconde o corte que o dedo sofreu:
só vou olhar depois do carnaval...
Nilza Azzi
201
Ultrarromântico
A Lua segue a noite... A luz depura
e aclara a solidão – fel dos meus dias.
Busquei-te em todo canto e, com candura,
clamava só por ti, mas não me ouvias.
Deixaste, sem aviso, a noite escura...
Amor, não entendeste o que eu queria?
Sufoco, tenho a febre que não curas,
e morro: – Vem juntar minhas mãos frias!
Distante, o meu amado segue a aurora
e deixo, aos borbotões, fluir meu pranto,
convulso, pela dor que me devora.
Tão só, na vastidão deste meu canto,
não sei o que será de mim agora,
porque te disse não, mas te amo tanto...
Nilza Azzi
158
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!