Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
há um pedaço de céu numa palavra tua um mel que escorre em sensação estranha
a minha alma recolhida nua como a madrugada veste véus de sonho e névoa tem desmaios de lua nova
há uns ticos de tristeza na lembrança do que dizes algumas gotas úmidas que não choro por querer
nilza azzi
197
Flores da época
O manacá-da-serra enlouqueceu, liquida tudo, vai trocar o estoque; libera a floração num jubileu e deixa a serra linda, sem retoque.
E tantas outras surgem a reboque; no verde deste outono, a cor venceu e a luz que reverbera tem teu toque, nas cores da ilusão, ó meu Romeu.
O custo é uma pechincha, é quase nada o entorno da paisagem adornada atrai a atenção. A tarde desce...
Ponteia a quaresmeira o verde escuro, a serra do Japi é quase um muro e escrevo num papel a minha prece.
Nilza Azzi
195
Honey
Carrega o odor das pétalas das rosas, raro perfume que este vento trouxe. É tão suave e doce, doce, doce, quanto o desejo das horas ditosas.
Se um pedaço do céu, decerto fosse e fosse a cor da íris mais formosa, ainda assim, daria vez à glosa, posto que essa doçura pressupôs-se.
Na calma, às vezes, que um amor tempera, no mais profundo encanto da querença, tudo acontece em doce plenitude.
Quanto à certeza, tê-la nunca pude, mas se há doçura tal que me pertença, tenho-a na luz dourada das quimeras.
Nilza Azzi
163
Formas
Nuvem que vaga pelo céu distante, sonho de chuva de um grão diminuto, meio dormente, à beira do levante: – nova esperança traz como atributo.
Que escalde a terra, o fogo crepitante e de algum modo, num saber arguto, rompa-se a casca, surja logo adiante... Dos muitos brotos, logo venham frutos,
em messe farta, a revelar da vida, a breve essência, a história resumida, o desdobrar da eterna trajetória,
do ciclo efêmero do ser humano... E sobre as graças, nesse chão profano, vale lembrar que a forma é transitória.
Nilza Azzi
184
Partenogênese
Se dividisse ao meio o dom que te alimenta, multiplicado assim, por divisão aos pares, serias sabedor das artes do gameta; farias destes céus espaços populares.
Se grávida da voz, a estrela se arrebenta e traz o mundo à luz, ferida em mil esgares, a cria então vingou da sedução sedenta: — E tu não sujarás o chão onde pisares ...
Derrete-se o metal no caldeirão de Hades e, dele, o que se faz é obra de Vulcano, o criador do raio, estrondo sobre-humano.
Na conta de tirar, alteram-se as vontades, e o gozo mais cruel, no sonho ele se frustra: — O filho da uma deusa, a revelar-se um lustra.
Nilza Azzi
161
Inglória
Essa dor que nos punge a alma, ingente, e não é dor de amor nem de paixão, é mais dor de viver, viver e, então, descobrir dor maior, à nossa frente. É saber que na busca não há pausa, mesmo quando o cansaço nos abate e, se a busca nos leva ao disparate, é mais intensa a dor que ele nos causa. Também é despertar com nossos medos, adormecer nos braços de fantasmas, em meio à realidade que se plasma cruel e descobrir isso bem cedo.
É causa sem efeito que nos valha, diante do desfecho da batalha.
Nilza Azzi
193
Olhares
Não há olhar sem luz, por ela sempre externo a forma da visão e de encarar o mundo. O belo nos seduz, contudo o mais fecundo contato é emoção; contempla o mais fraterno.
A imagem que reluz, se esvai, dura um segundo; as mais opacas são lembranças de um inverno. Se um feixe nos conduz, do raio que governo pesquiso de antemão e cores não confundo.
Fitar eu sempre quis, com olhos bem brilhantes, o amor sem nem cuidar que fosse sobranceiro; apenas ser feliz, sem freios de um roteiro.
Guardei no meu olhar a luz da liberdade; mortal jamais prediz o que virá adiante. inútil foi sondar; te foste num instante.
Nilza Azzi
210
Enciclia
Nas tardes que se perdem, vãs as horas, enquanto a noite ainda é limite, o ar carrega as vozes mais sonoras e o som jamais revela o que admite.
Pessoas são abelhas, um convite, trazer pra si regalos, o que adoras. Viver maior prazer, o amor permite sonhar ainda bem longe tais auroras.
Porém a tarde acaba, a noite avança, escorre pelas mãos outra esperança, sabendo que a manhã, a luz estraga,
mostrando a realidade a mesma praga. No ciclo, uma outra tarde escoa lenta e crua, a solidão prossegue, aumenta.
Nilza Azzi
200
Paralaxe hipotética
Adeus soneto! Vai comigo uma saudade. Eu, de partida, já nem sei o que dizer, enquanto espero o alvará de liberdade desta prisão, onde me vi a florescer.
Como um amante que não dura eternamente, porém nos dá grandes momentos de prazer, provaste ser um companheiro bem ardente − nos leva ao êxtase, a loucura de escrever.
As minhas rimas já se vão empobrecendo, minguam reservas de figuras de sintaxe. Vocabulário? Esgotei o cabedal!
Sobre medidas, as noções ando perdendo, pouco me ajuda recorrer à paralaxe... Guarda em teu eixo, o meu adeus sentimental.
Nilza Azzi
200
Dragão
De novo esta vontade de sumiço o verso é meu esconderijo antigo o céu que nos protege não é fixo camadas de mistérios e perigo.
A velha persistência sabe disso e fadas inventaram esse abrigo tornaram a palavra compromisso as letras são os rastros do que digo.
O coração do espaço desfibrila a reta se desfaz ao fim da fila de pontos nos buracos do infinito.
O mar nada mais diz enquanto fito a plácida ilusão do espaço azul no ninho do dragão achei um ovo...