Lista de Poemas
Flores da época
O manacá-da-serra enlouqueceu,
liquida tudo, vai trocar o estoque;
libera a floração num jubileu
e deixa a serra linda, sem retoque.
E tantas outras surgem a reboque;
no verde deste outono, a cor venceu
e a luz que reverbera tem teu toque,
nas cores da ilusão, ó meu Romeu.
O custo é uma pechincha, é quase nada
o entorno da paisagem adornada
atrai a atenção. A tarde desce...
Ponteia a quaresmeira o verde escuro,
a serra do Japi é quase um muro
e escrevo num papel a minha prece.
Nilza Azzi
179
Olhares
Não há olhar sem luz, por ela sempre externo
a forma da visão e de encarar o mundo.
O belo nos seduz, contudo o mais fecundo
contato é emoção; contempla o mais fraterno.
A imagem que reluz, se esvai, dura um segundo;
as mais opacas são lembranças de um inverno.
Se um feixe nos conduz, do raio que governo
pesquiso de antemão e cores não confundo.
Fitar eu sempre quis, com olhos bem brilhantes,
o amor sem nem cuidar que fosse sobranceiro;
apenas ser feliz, sem freios de um roteiro.
Guardei no meu olhar a luz da liberdade;
mortal jamais prediz o que virá adiante.
inútil foi sondar; te foste num instante.
Nilza Azzi
197
Galáctica
Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos
que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes...
Dispõe tapetes só de flores onde estamos,
onde sorvemos luz e amor, a cada instante.
Sua presença traz ao mundo a cor dourada,
faz coração vibrar num sentimento puro.
Se junto dele vou além, sou mais amada,
ele é presente, ele é passado, ele é futuro.
Meu namorado põe a luz no meu olhar
e o mundo faz girar veloz à minha volta.
Com devoção conduz minh’alma a apreciar
a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma,
desfruta o sonho e mil venturas, uma a uma.
Nilza Azzi
168
Flor-de-são-joão
A flor-de-são-joão, brilho laranja,
floresce neste inverno em plenitude;
a cor inflama o campo e ainda esbanja
perfume que suaviza o entorno rude.
Espalha-se o cipó como uma franja,
nas copas, colorindo as altitudes,
ou é pelas encostas que se arranja,
surgindo na paisagem, amiúde.
Atrai muitos insetos – as abelhas
adentram as corolas mais vermelhas
zunindo a sinfonia, tantas asas...
As flores reunidas lembram brasas:
– aquelas que rebrilham na fogueira
e o vento faz corar a noite inteira.
Nilza Azzi
180
O louco
O louco é a primeira carta do tarô;
também a última e a mais instigante...
Ia pela rua, um pobre homem só,
levava numa vara o saco do destino,
amarrado em trouxa, um saco pequenino,
enfrentando o mundo, louco de dar dó.
Junto ao precipício, com seu violino,
enviava ao vento o mi, o fá e o dó...
Tinha no chapéu, a pena carijó
e mirava o alto, todo o céu divino.
Não sabia o medo, nessa vã loucura,
entregava ao caos, o peso do seu fardo
e se despejava num vazio imenso.
Tinha na lembrança, à guisa de consenso,
vagas impressões do doce mais amargo,
que jamais provara, em sua desventura...
Nilza Azzi
198
Honey
Carrega o odor das pétalas das rosas,
raro perfume que este vento trouxe.
É tão suave e doce, doce, doce,
quanto o desejo das horas ditosas.
Se um pedaço do céu, decerto fosse
e fosse a cor da íris mais formosa,
ainda assim, daria vez à glosa,
posto que essa doçura pressupôs-se.
Na calma, às vezes, que um amor tempera,
no mais profundo encanto da querença,
tudo acontece em doce plenitude.
Quanto à certeza, tê-la nunca pude,
mas se há doçura tal que me pertença,
tenho-a na luz dourada das quimeras.
Nilza Azzi
150
Ouve-me a voz
És a cor do meu céu, és certeza de luz,
teu olhar me seduz, sobre mim verte a paz,
mas sou contradição, nesse olhar foi que pus
esperança e paixão; esse é o bem que ele traz.
Sobre mim cai um véu, uma esfera que aduz,
esse sonho compus de certezas capaz...
Quero o afeto, pois não, a que bem faço jus,
mas que, sem mais razão, se me escapa, aliás.
Entre o mal e o bem, eis que sofro por ti
e não posso querer que me entendas porque,
se uma dor tão atroz não me deixa, eu aqui
compreendo o poder dessa força cruel.
Então ouve-me a voz, leia o que não se lê,
pois escuro se faz, de ora em diante, o meu céu...
Nilza Azzi
157
Os olhos de Ester
Se nos olhos de Ester há uma falsa consciência
e se o bardo não pensa as verdades que expressa,
nessa praça mais ampla, as fragrâncias intensas,
já floresce o jasmim, perfumando a travessa.
Se no seio de Ester não se encontra a licença
para seu puro afeto e se a jovem não cessa
de dizer que não quer nada que lhe pertença...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que triste promessa!
Se não cabe a José a esperança, sequer,
de encontrar nesse amor um lampejo que seja
de cumprir seu destino e levá-la á igreja...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que ingrata mulher!
Pois os olhos de Ester não refletem, José,
esse enlevo total. É melhor 'dar no pé'...
Nilza Azzi
151
Finais
Tarde cinzenta de um domingo triste,
é bem outono e o mundo, descompasso
entre o querer e o que de fato existe,
entre o que sonho... e o que de fato, faço.
Tarde cinzenta guarda meu cansaço,
por enfrentar, desse inimigo, o chiste
e padecer o gosto do fracasso:
– Ponto final a que me conduziste.
O céu pesado esconde a velha cor,
traz ao meu mundo o peso da opressão
e o coração sufoca por ser só...
Saber... Querer... Poder... Eis o meu nó!
Fruir... Sentir... Parir... Sempre se dão!
– Quisera ter mais sonho e mais amor!
Nilza Azzi
162
Enciclia
Nas tardes que se perdem, vãs as horas,
enquanto a noite ainda é limite,
o ar carrega as vozes mais sonoras
e o som jamais revela o que admite.
Pessoas são abelhas, um convite,
trazer pra si regalos, o que adoras.
Viver maior prazer, o amor permite
sonhar ainda bem longe tais auroras.
Porém a tarde acaba, a noite avança,
escorre pelas mãos outra esperança,
sabendo que a manhã, a luz estraga,
mostrando a realidade a mesma praga.
No ciclo, uma outra tarde escoa lenta
e crua, a solidão prossegue, aumenta.
Nilza Azzi
189
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!