Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Inspirado vou eu ouvir som agoureiro, se primeiro há em mim a intenção de fruir; de sorrir pelo céu, esse azul de tinteiro e me abeiro da paz, brancas nuvens, porvir.
Ao me abrir ao prazer, vejo ao longe um outeiro e um aceiro contorna um farol a ruir... Eis me a rir, gargalhar, pois me sinto fagueiro: sou herdeiro do vento; ele é meu elixir...
A luzir, longe o mar, velas brancas, infladas e as paradas da espuma a subir pela areia. E se alteia uma onda, outra logo se quebra
e celebra a visão, alma assim nunca alquebra. Se requebra esta voz, a balada que anseia, desenleia este amor das antigas charadas.
Nilza Azzi
208
Dragão
De novo esta vontade de sumiço o verso é meu esconderijo antigo o céu que nos protege não é fixo camadas de mistérios e perigo.
A velha persistência sabe disso e fadas inventaram esse abrigo tornaram a palavra compromisso as letras são os rastros do que digo.
O coração do espaço desfibrila a reta se desfaz ao fim da fila de pontos nos buracos do infinito.
O mar nada mais diz enquanto fito a plácida ilusão do espaço azul no ninho do dragão achei um ovo...
Nilza Azzi
211
Estados da alma
O céu, sempre uma esfera silenciosa; o azul, uma ilusão que nos encanta; a voz é uma vontade na garganta; rainha no jardim, somente e rosa...
As nuvens, brancas nuvens, são a manta que torna essa impressão mais caprichosa; a mente acha repouso enquanto goza de um certo desalento e não se espanta.
Silêncio, pois é sob o céu parado que a vaga sensação de um bem perdido procura acomodar-se á vida em terra;
silêncio que faz bem, mas nada encerra e nos ouvidos sopra esse zumbido que é som, mas representa um outro estado.
Nilza Azzi
195
Doçuras
Final de outono, neste quase inverno! O tempo triste finge ser eterno, como se eterno o tempo sempre fosse, quando a visão da luz se faz mais doce.
Na tarde, quando chega a hora escura, descobrem-se as estrelas lá na altura e a voz do coração, mais cautelosa, desfolha-se em mil pétalas de rosas.
Na noite, a tal quietude nos liberta... Se a solidão é tida como certa, saudemos o perfume dos lilases.
De mim, serei então, o que assim fazes, – já pronto pra colheita, assim tomara! – Um campo de cultivo, uma seara.
Nilza Azzi
181
Honey
Carrega o odor das pétalas das rosas, raro perfume que este vento trouxe. É tão suave e doce, doce, doce, quanto o desejo das horas ditosas.
Se um pedaço do céu, decerto fosse e fosse a cor da íris mais formosa, ainda assim, daria vez à glosa, posto que essa doçura pressupôs-se.
Na calma, às vezes, que um amor tempera, no mais profundo encanto da querença, tudo acontece em doce plenitude.
Quanto à certeza, tê-la nunca pude, mas se há doçura tal que me pertença, tenho-a na luz dourada das quimeras.
Nilza Azzi
162
Flor-de-são-joão
A flor-de-são-joão, brilho laranja, floresce neste inverno em plenitude; a cor inflama o campo e ainda esbanja perfume que suaviza o entorno rude.
Espalha-se o cipó como uma franja, nas copas, colorindo as altitudes, ou é pelas encostas que se arranja, surgindo na paisagem, amiúde.
Atrai muitos insetos – as abelhas adentram as corolas mais vermelhas zunindo a sinfonia, tantas asas...
As flores reunidas lembram brasas: – aquelas que rebrilham na fogueira e o vento faz corar a noite inteira.
Nilza Azzi
192
fragmentos
há um pedaço de céu numa palavra tua um mel que escorre em sensação estranha
a minha alma recolhida nua como a madrugada veste véus de sonho e névoa tem desmaios de lua nova
há uns ticos de tristeza na lembrança do que dizes algumas gotas úmidas que não choro por querer
nilza azzi
196
Em águas rasas
No remanso de um lago, em pleno gozo, criaturas que nadam sem receio. Desconhecem a terra, mundo alheio à existência banal, num mundo aquoso.
Um pescador, bem jovem, chega. Veio com iscas. Concentrado e habilidoso, ao encontrar o sonho em que repouso, estende a rede e apanha meu enleio.
Despenco a cachoeira (o sonho é alto!). Resisto numa água transparente. A luz do sol cintila bem à frente...
Porém o pescador prossegue incauto, alheio ao sentimento que extravasa, e é ele o peixe pego em águas rasas.
Nilza Azzi
214
Enciclia
Nas tardes que se perdem, vãs as horas, enquanto a noite ainda é limite, o ar carrega as vozes mais sonoras e o som jamais revela o que admite.
Pessoas são abelhas, um convite, trazer pra si regalos, o que adoras. Viver maior prazer, o amor permite sonhar ainda bem longe tais auroras.
Porém a tarde acaba, a noite avança, escorre pelas mãos outra esperança, sabendo que a manhã, a luz estraga,
mostrando a realidade a mesma praga. No ciclo, uma outra tarde escoa lenta e crua, a solidão prossegue, aumenta.
Nilza Azzi
199
Galáctica
Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes... Dispõe tapetes só de flores onde estamos, onde sorvemos luz e amor, a cada instante. Sua presença traz ao mundo a cor dourada, faz coração vibrar num sentimento puro. Se junto dele vou além, sou mais amada, ele é presente, ele é passado, ele é futuro. Meu namorado põe a luz no meu olhar e o mundo faz girar veloz à minha volta. Com devoção conduz minh’alma a apreciar a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma, desfruta o sonho e mil venturas, uma a uma.