Lista de Poemas

Doçuras


Final de outono, neste quase inverno!

O tempo triste finge ser eterno,
como se eterno o tempo sempre fosse,
quando a visão da luz se faz mais doce.

Na tarde, quando chega a hora escura,
descobrem-se as estrelas lá na altura
e a voz do coração, mais cautelosa,
desfolha-se em mil pétalas de rosas.

Na noite, a tal quietude nos liberta...
Se a solidão é tida como certa,
saudemos o perfume dos lilases.

De mim, serei então, o que assim fazes,
– já pronto pra colheita, assim tomara! –
Um campo de cultivo, uma seara.

Nilza Azzi
173

Tempo-será


Tão breve o tempo de ilusões pueris
e forte o alento que é da juventude!
Somente um vento, porém nos ilude,
na forma vaga, um mero pingo em giz,

nos foge o tempo e morre num palude.
O que nos falta, o que é viver feliz,
parece um bem que escapa por um triz,
mas quem resolve essa questão tão rude?

Se estoura a bolha e nada mais espio,
é claro então que essa ilusão não rende
e um novo mundo emerge do vazio.

Solto no vácuo, como fora um rio,
vai meu passado, ao longe ele se estende,
e apenas sigo a ponta desse fio.

Nilza Azzi
155

Preamar


Como se fosse o mar, assim o amor,
vasto, inconstante e muito perigoso,
jamais conhece, do ir e vir, repouso,
e quando encrespa  – que avassalador!

Se brilha ao sol, reflete azul formoso,
ou bem confunde e mostra verde cor,
e sobre nós dispõe, só por dispor,
pois nos atrai ao seu deleite e gozo.

E o mar cuja canção nos delicia
– o marulhar das ondas sobre a areia,
num forte estrondo, o choque nas falésias –

revela sobre amar verdades régias,
senhor desse poder que nos alteia,
de amar­ – essa tristeza, essa alegria...

Nilza Azzi
239

Dragão


De novo esta vontade de sumiço
o verso é meu esconderijo antigo
o céu que nos protege não é fixo
camadas de mistérios e perigo.

A velha persistência sabe disso
e  fadas inventaram esse abrigo
tornaram  a palavra compromisso
as letras são os rastros do que digo.

O coração do espaço desfibrila
a reta se desfaz ao fim da fila
de pontos nos buracos do infinito.

O mar nada mais diz enquanto fito
a plácida ilusão do espaço azul
no ninho do dragão achei um ovo...

Nilza Azzi

 
201

Clímax


Como se, em mim,  já não coubesse mais,

de bem querer, pedaço mais nenhum
e o coração guardasse desiguais
um eu e um outro, em formas incomuns,

ressinto assim que, às vezes, é demais
o tanto amar...  E busco algum jejum,
para encontrar do amor alguma paz,
sem anular meu ser, de jeito algum...

Mas é na calma que me explode a falta
e já não sei além de mim, além
do meu sentir, o espaço que detém

nessa minh’alma, a estima tão em alta,
sem que me importe a justa sobra em mim
e que me acabe justo nesse fim...

Nilza Azzi
161

Sem medidas


Ah, se eu tivesse, em vez dessa certeza

um desquerer qualquer que me valesse,
razão que não me fosse igual, nem esse,
um vasto amor, com fúria que se apresa.

Mar revoltado, em ondas revertesse,
em luz que se dá brilho, antes de acesa,
em chama que nos arde a natureza
e a força que nos mora fosse haver-se...

E o mar engole e cospe − é ou não é
o mundo de nós mesmos feito avesso,
de um outro que nos vive, por tão forte.

Se é, se pode alguém manter a fé,
por mim já está tão certo, ou estremeço,
só de pensar que amor desvale o norte.

Nilza Azzi
212

Ciúme


Quando afastou também a última certeza

e descobriu do amor, que não sabia nada,
sem calço na ilusão da mente atordoada,
cedeu ao coração, sem forças, indefesa.

Porém  para sentir, quem sabe, aliviada,
a alma que buscava os rastros da beleza,
deixou atrás de si, as gélidas pegadas
e atravessou a ponte, uma esperança acesa.

Mas quando descobriu, num mundo quase escuro,
a dor que vem causar a nossa estupidez,
para entender um pouco acerca desse evento,

reconheceu que pode, o amor ser  ciumento,
pois faz crescer em nós, e toda de uma vez,
a sede de sabê-lo em todo seu apuro.

Nilza Azzi
162

Ultrassensual


Numa casa de pedra, entre azuis trepadeiras,
ao abrigo do olhar indiscreto e  alheio,
nós fruímos, do amor, sem cansaço ou receio,
o prazer sensual e as delícias inteiras.

O teu beijo começa a aquecer-me. Tonteio...
Some o mundo ao redor e um espasmo se abeira:
– só desejo elevar-te ao meu nível de anseio
e deixar-me viver as paixões verdadeiras.

E no instante em que a morte me toma, um reflexo,
só percebo que a alma, indistinta do sexo,
mal percebe, do corpo, os limites externos.

Assim quando, no amar, o momento é eterno,
e um olhar cede ao outro um delírio complexo,
reconheço que a vida é real, tem um nexo.

Nilza Azzi

 
150

Em águas rasas


No remanso de um lago, em pleno gozo,

criaturas que nadam sem receio.
Desconhecem a terra, mundo alheio
à existência banal, num mundo aquoso.

Um pescador, bem jovem, chega. Veio
com iscas.  Concentrado e habilidoso,
ao encontrar o sonho em que repouso,
estende a rede e apanha meu enleio.

Despenco a cachoeira (o sonho é alto!).
Resisto numa água transparente.
A luz do sol cintila bem à frente...

Porém o pescador prossegue incauto,
alheio ao sentimento que extravasa,
e é ele o peixe pego em águas rasas.

Nilza Azzi
205

Estados da alma


O céu, sempre uma esfera silenciosa;

o azul, uma ilusão que nos encanta;
a voz é uma vontade na garganta;
rainha no jardim, somente e rosa...

As nuvens, brancas nuvens, são a manta
que torna essa impressão mais caprichosa;
a mente acha repouso enquanto goza
de um certo desalento e não se espanta.

Silêncio, pois é sob o céu parado
que a vaga sensação de um bem perdido
procura acomodar-se á vida em terra;

silêncio que faz bem, mas nada encerra
e nos ouvidos sopra esse zumbido
que é som, mas representa um outro estado.

Nilza Azzi
184

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!