Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A Lua segue a noite... A luz depura e aclara a solidão – fel dos meus dias. Busquei-te em todo canto e, com candura, clamava só por ti, mas não me ouvias.
Deixaste, sem aviso, a noite escura... Amor, não entendeste o que eu queria? Sufoco, tenho a febre que não curas, e morro: – Vem juntar minhas mãos frias!
Distante, o meu amado segue a aurora e deixo, aos borbotões, fluir meu pranto, convulso, pela dor que me devora.
Tão só, na vastidão deste meu canto, não sei o que será de mim agora, porque te disse não, mas te amo tanto...
Nilza Azzi
168
Perguntas
– Vovô, se toda noite o céu se acende e as luzes já começam a brilhar, existe algum anjinho ou um duende, que junta cada estrela com seu par?
– Quando era tão pequeno como eu sou, vovô, você sabia de onde vinha o brilho desse céu que Deus criou e lá, sabia achar sua estrelinha?
– Depois que tudo já foi apagado, onde é que o anjo guarda aquelas luzes? O armário é bem grandão e bem escuro?
– E quando a Terra vira pro outro lado, as estrelinhas, já com seus capuzes, estão dormindo num lugar seguro?
Nilza Azzi
218
Campo limpo
Levanta — meu senhor! — O dia brilha intenso, nas terras logo além, germinam as sementes, assume o teu papel, não sejas indolente; se tudo é sempre igual, a língua perde senso. Nem todos são os grãos que vingam, entrementes, ganhar a luz do dia envolve uma disputa! — O verso não quer mais uma palavra enxuta, procura pela voz versátil das vertentes. Senhora dos vergéis, estranha ao vil concreto, de nível superior, os modos imponentes, (o som escapa forte, é sopro contra os dentes) desmonta de uma vez o berço analfabeto.
No fundo do crisol, mistura delirante espalha pelo ar as luzes do levante.
Nilza Azzi
221
Senhora dos meus sonhos
Duas da tarde: – O céu tornou-se escuro, manteve acima a cor do seu recado, depois verteu o cinza concentrado e derramou-se para além do muro.
Às três e meia, tudo já mudado, brilhava o sol um brilho prematuro, a esticar seus raios com apuro, por entre o ar chovido, o seu traçado.
Às quatro horas, quase ao fim da tarde, a brisa leve seca o mundo em volta. O tempo pausa, em súbito sossêgo...
A cor azul, lembrança de um mar grego, despega um tom e surge em viravolta: – Senhora dos meus sonhos, tempestades.
Nilza Azzi
162
Preamar
Como se fosse o mar, assim o amor, vasto, inconstante e muito perigoso, jamais conhece, do ir e vir, repouso, e quando encrespa – que avassalador!
Se brilha ao sol, reflete azul formoso, ou bem confunde e mostra verde cor, e sobre nós dispõe, só por dispor, pois nos atrai ao seu deleite e gozo.
E o mar cuja canção nos delicia – o marulhar das ondas sobre a areia, num forte estrondo, o choque nas falésias –
revela sobre amar verdades régias, senhor desse poder que nos alteia, de amar – essa tristeza, essa alegria...
Nilza Azzi
248
Projeção
Se um dia fores só e eu for só, logo nós que fomos sós a vida inteira, uniremos tristezas em fileiras e a saudade não será mais tão atroz.
Se um dia, deste mundo, o desencanto, de tão velho, não roubar a nossa fé e essa vida, tão antiga como é, não trouxer o sofrer que abate tanto...
Nossos passos, seguindo a mesma estrada, da poesia e das almas inquietas, deixarão pelo pó as mesmas setas rumo ao sonho, onde não nos falta nada.
Nosso olhar, procurando um bem futuro, bem na linha em que o céu encontra o mar, não terá outro bem para espalhar, a não ser um poema extremo e puro.
Nilza Azzi
167
Visões
A borboleta que vemos entre as flores, a pousar, aqui e ali, com ar gentil, ela sói provar também de outros humores, de outro tipo menos nobre, bem mais vil.
Quando os cadáveres, meros condutores, deixam escapar o sumo que os nutriu essas rainhas, das mais diversas cores, pousam sobre a morte, bebem desse fio.
A vida lembra esse rio indiferente, cujo desejo, seguir até o mar, força um caminho, sem nunca se deter.
O rio, das águas, esquece de saber; bem como a vida, de nós, de se lembrar: ela só quer perdurar, seguir em frente.
Nilza Azzi
163
Ultrassensual
Numa casa de pedra, entre azuis trepadeiras, ao abrigo do olhar indiscreto e alheio, nós fruímos, do amor, sem cansaço ou receio, o prazer sensual e as delícias inteiras.
O teu beijo começa a aquecer-me. Tonteio... Some o mundo ao redor e um espasmo se abeira: – só desejo elevar-te ao meu nível de anseio e deixar-me viver as paixões verdadeiras.
E no instante em que a morte me toma, um reflexo, só percebo que a alma, indistinta do sexo, mal percebe, do corpo, os limites externos.
Assim quando, no amar, o momento é eterno, e um olhar cede ao outro um delírio complexo, reconheço que a vida é real, tem um nexo.
Nilza Azzi
159
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta, que não posso deter no meu palato, fala por mim, porém nunca me escuta; essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta, a enorme força nela, eu desacato. Que venha a mim na arena, absoluta, para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes, hei de deixá-la nua, hei de expô-la, para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes e quando enfim tornar a encontrá-la, que ela me seja clara em qualquer fala.
Nilza Azzi
191
Embrulho
Coloco meu segredo numa caixa, embrulho com papel lindo, floral. Escondo num armário – ninguém acha – e vou tomar um ar noutro local.
Ocorre que a velhice me despacha o senso... esqueço tudo... esse é meu mal. A minha lucidez está em baixa, periga de alcançar mais alto grau.
Assim, ninguém, jamais, vai descobrir o embrulho em que decerto estou metida, segredo bem guardado e esquecido.
Estranho... nunca tive um apelido e o nome, recebido nesta vida, será pouco lembrado no porvir.