Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Oras absorta ao céu teu absurdo manto azul a face oculta. Horas de silêncio deslizam vãos e véus. Sonhos e refluxo eras e horas oras entre heras... Teu absurdo manto verde pompa e festa. O grito adormecido, tua boca era ora a espera, ora o abandono. Visões e reflexo do Universo em absurdos olhos azuis silentes. Horas absurdas da manhã teu café com leite jornal do dia e pão com manteiga.
Nilza Azzi
185
Alfa
Quando, da Lua, as cores se arrepiam, como se fossem luzes da ribalta, e quando o som do violão faz falta para embalar as vozes da poesia,
quando as palavras não colam na pauta, tal como a noite não cola no dia, quando o tambor percute à revelia para marcar a dança e a ressalta,
além dos montes, nos longes da terra, vozes secretas urdem velhos planos, sobre uma guerra resistente e antiga,
e o velho alfa, que comanda a liga, jamais emite um uivo leviano e pelas matas, pelos campos, erra...
Nilza Azzi
201
Ausências
Era uma vez um trem, já de partida, e a jovem que corria pra embarcar, adeus flutuando pelo ar — a lágrima escorrendo uma dor líquida.
E sempre uma estação para lembrar, um rosto, uma figura esmaecida. A força para a glória de uma vida ficara entre as paredes de outro lar.
Era uma crise fatal, sem solução — impossibilidade natural de ter o que quisera ter então...
Restava um gesto antigo contra o mal, manter sob controle o coração, que os trens chegam e partem, sempre igual.
Nilza Azzi
238
Rede de segurança
Rede de segurança Em uma das mãos a argola noutra a pilha de palavras ando na corda bamba
Existe o horizonte, longe, além e o precipício abaixo
É sempre o óbvio que transparece apesar do peso a palavra levita enquanto avanço o passo
A plateia apenas observa alguns torcem por mim outros querem meu fim
Por covardia não olho para baixo enquanto o vento balança o fio e o vazio envolve os sentidos
nilza azzi
180
Viciosa utopia
Acordar-te no poema da manhã com a barba ainda por fazer a despertar-me um susto. Inventar-te no poema da tarde usando uma camisa azul arrebatando o olhar. Tatear-te no poema da noite o corpo recendente e nu fonte das instâncias últimas.
nilza azzi
188
À uma hora
Os passarinhos cantavam
A minha Lília morreu. (folclore português)
quando o Amor vacila a dor estende tentáculos ajeita as suas ventosas agarra-se ao coração até que lhe falte alento
ó alma, que vieste à Terra como amar e não sofrer?
nilza azzi
257
Poema in comum
Tu és o meu poema de ontem, de antes, de sempre. Navio que chega e parte sem aviso, destronas meu juízo e roubas minha cena.
Tu és esse desejo alheio aos meus sentidos, no desalinho das palavras mal brotadas, nas desbotadas cores das figuras, nessa mistura estranha dos meus nervos.
Tu és o estranhamento em verbos novos, a súbita mudança, a quebra de linha, a rinha onde lanço esta disputa meu texto livrado à voz dos povos.
Nilza Azzi
160
Lagos calmos
Até meu coração às vezes sonha com lagos calmos e suaves ondas...
Enquanto as tardes descansam olhando o voo das aves procuro tuas pegadas ó ninfa das águas claras
Nilza Azzi
164
Ribalta
Pobre alma que vagueia sem roteiro, sem parceiro para ser seu ombro amigo, traz consigo a solidão mais descabida e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes; não há vozes que lhe sejam familiares e os pesares, que carrega sobre os ombros, são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída, nem tolhida, seja a escolha que professo, pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo, no trajeto por cumprir que ainda me falta e a ribalta acolhe o público mais nobre.
Nilza Azzi
210
Ai, que saudade!
Ai, que saudade da vida que vai tão longe de um sonho que o tempo esconde nas horas tristes do dia...
Ai que vontade de ser um lugar tão perto a vida depois da curva e o céu a descortinar não fosse essa mancha turva nem tampouco a solidão...