Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quando, da Lua, as cores se arrepiam, como se fossem luzes da ribalta, e quando o som do violão faz falta para embalar as vozes da poesia,
quando as palavras não colam na pauta, tal como a noite não cola no dia, quando o tambor percute à revelia para marcar a dança e a ressalta,
além dos montes, nos longes da terra, vozes secretas urdem velhos planos, sobre uma guerra resistente e antiga,
e o velho alfa, que comanda a liga, jamais emite um uivo leviano e pelas matas, pelos campos, erra...
Nilza Azzi
197
Poema in comum
Tu és o meu poema de ontem, de antes, de sempre. Navio que chega e parte sem aviso, destronas meu juízo e roubas minha cena.
Tu és esse desejo alheio aos meus sentidos, no desalinho das palavras mal brotadas, nas desbotadas cores das figuras, nessa mistura estranha dos meus nervos.
Tu és o estranhamento em verbos novos, a súbita mudança, a quebra de linha, a rinha onde lanço esta disputa meu texto livrado à voz dos povos.
Nilza Azzi
156
Ausências
Era uma vez um trem, já de partida, e a jovem que corria pra embarcar, adeus flutuando pelo ar — a lágrima escorrendo uma dor líquida.
E sempre uma estação para lembrar, um rosto, uma figura esmaecida. A força para a glória de uma vida ficara entre as paredes de outro lar.
Era uma crise fatal, sem solução — impossibilidade natural de ter o que quisera ter então...
Restava um gesto antigo contra o mal, manter sob controle o coração, que os trens chegam e partem, sempre igual.
Nilza Azzi
236
Carência
Jamais tu saberás que sinto amor. Talvez eu saiba disfarçar a minha insensatez.
Escondo o meu rubor e falo de outro assunto, ou olho para o céu, enquanto as mãos ajunto. Anseio por saber, mas calo e não pergunto o que sentes por mim, desde a primeira vez.
O sonho que vivi, embora foi contigo. Porém se fui feliz, hoje nem sei se ligo... Vazio me restou o coração, amigo, e vivo sem querer, num mundo sem porquês.
Nilza Azzi
190
amar é doce
na vez do encontro meu coração dispara e nesse ponto descubro o quanto é cara a tua voz e sei o quanto é doce estarmos sós
nilza azzi
179
Vazio
Hoje acordei com saudade de ti do tempo que nunca tivemos juntos esse intervalo vago e inexplicável
Investiguei minhas entranhas e no vazio abri mais chagas as dores amargas recrudesceram e te busquei como se foras pedaço meu
Hoje senti falta dos beijos que não dei do passado que nunca foi presente de não saber se me amas ou me amaste
Encontrei-me abandonada em meu desterro como se o amado habitasse minha alma e validasse para sempre o meu sentir sem razão e sem consentimento
Nilza Azzi
159
Chuvisco
Tome-se o cinza claro e faça-se dele um céu bem alto escondendo atrás das nuvens a alegria do azul. Depois sopre-se um vento medianamente fraco para soltar algumas gotas que passem rapidamente
Nilza Azzi
214
Contrassenso
E te contar que eu já te amei embora o amor tão silencioso antecedesse em seu começo ao que o destino a mim dispôs
tornasse fato o meu tormento visto que amor é contrassenso
... e te contar que um arrepio ainda vive sobre os poros da alma inteira em seu vazio
como se fosse indiferente ao coração o que ele sente.
Nilza Azzi
160
Ponto de fuga
No infinito a convergência a inocência de um olhar um mar de céu e de luz uma única aquarela
Como é bela a emoção dos matizes sobre a tela e nos traços dos pincéis velhos réis por mim reinaram
(contudo, no grão de areia, o Aleph se desdobra)
Nilza Azzi
197
love
leva-me a outro universo limites aos quais nunca fui longe... longe... longe...
Enlevada por teu chamado lúbrico e atemporal levito em sustos lua... de... mel...