Lista de Poemas

Vazio


Hoje acordei com saudade de ti
do tempo que nunca tivemos juntos
esse intervalo vago e inexplicável

Investiguei minhas entranhas
e no vazio abri mais chagas
as dores amargas recrudesceram
e te busquei como se foras pedaço meu

Hoje senti falta dos beijos que não dei
do passado que nunca foi presente
de não saber se me amas ou me amaste

Encontrei-me abandonada em meu desterro
como se o amado habitasse minha alma
e validasse para sempre o meu sentir
sem razão e sem consentimento

Nilza Azzi    
151

Divagar


Da matéria inconsistente e vaga
de que são feitos os sonhos
guardei num vidro, uma ínfima parte.
Quando alguém a quem se ama parte
a alma triste e solitária vaga
desiludida, sem mais crer em sonhos.
Mas, quem outrora navegou nos sonhos,
pode recuperar a esperança... (em parte)
abrindo o coração, vencendo a vaga.

Nilza Azzi
213

Ai, que saudade!


Ai, que saudade  
da vida que vai tão longe  
de um sonho que o tempo esconde  
nas horas tristes do dia...  

Ai que vontade  
de ser um lugar tão perto  
a vida depois da curva  
e o céu a descortinar  
não fosse essa mancha turva  
nem tampouco a solidão...  

Nilza Azzi
206

amar é doce


na vez do encontro  
meu coração dispara  
e nesse ponto  
descubro o quanto é cara
a tua voz  
e sei o quanto é doce  
estarmos sós  

nilza azzi
172

Lagos calmos


Até meu coração às vezes sonha
com lagos calmos e suaves ondas...

Enquanto as tardes descansam
olhando o voo das aves
procuro tuas pegadas
ó ninfa das águas claras

Nilza Azzi
154

Quereres


Querer-me-ia sozinha
tão eu mesma e tão alheia
ensimesmada em meus sonhos
num mundo sem pesadelos
sem o medo do abandono.

Querer-me-ia distante
tão dona de mim, tão minha
presa ao meu mundo tranquilo
num tempo sem novidades
sem saudade do futuro.

Num susto, vi-me tão perto,
tão longe dos meus quereres.

Nilza Azzi
153

Rede de segurança


Rede de segurança

Em uma das mãos a argola
noutra a pilha de palavras
ando na corda bamba

Existe o horizonte, longe, além
e o precipício abaixo

É sempre o óbvio que transparece
apesar do peso a palavra levita
enquanto avanço o passo

A plateia apenas observa
alguns torcem por mim
outros querem meu fim

Por covardia não olho para baixo
enquanto o vento balança o fio
e o vazio envolve os sentidos

nilza azzi

 
170

Horas absurdas


Oras absorta ao céu

teu absurdo manto azul
a face oculta.
Horas de silêncio
deslizam vãos e véus.
Sonhos e refluxo
eras e horas
oras entre heras...
Teu absurdo manto verde
pompa e festa.
O grito adormecido, tua boca
era ora a espera, ora o abandono.
Visões e reflexo do Universo
em absurdos olhos azuis silentes.
Horas absurdas da manhã
teu café com leite
jornal do dia
e pão com manteiga.

Nilza Azzi
175

Viciosa utopia


Acordar-te no poema da manhã

com a barba ainda por fazer
a despertar-me um susto.
Inventar-te no poema da tarde
usando uma camisa azul
arrebatando o olhar.
Tatear-te no poema da noite
o corpo recendente e nu
fonte das instâncias últimas.

nilza azzi

 
179

À uma hora


Os passarinhos cantavam
A minha Lília morreu.
(folclore português)


quando o Amor vacila
a dor estende tentáculos
ajeita as suas ventosas
agarra-se ao coração
até que lhe falte alento

ó alma, que vieste à Terra

como amar e não sofrer?

nilza azzi









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Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!