Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
E te contar que eu já te amei embora o amor tão silencioso antecedesse em seu começo ao que o destino a mim dispôs
tornasse fato o meu tormento visto que amor é contrassenso
... e te contar que um arrepio ainda vive sobre os poros da alma inteira em seu vazio
como se fosse indiferente ao coração o que ele sente.
Nilza Azzi
164
Ponto de fuga
No infinito a convergência a inocência de um olhar um mar de céu e de luz uma única aquarela
Como é bela a emoção dos matizes sobre a tela e nos traços dos pincéis velhos réis por mim reinaram
(contudo, no grão de areia, o Aleph se desdobra)
Nilza Azzi
199
Vazio
Hoje acordei com saudade de ti do tempo que nunca tivemos juntos esse intervalo vago e inexplicável
Investiguei minhas entranhas e no vazio abri mais chagas as dores amargas recrudesceram e te busquei como se foras pedaço meu
Hoje senti falta dos beijos que não dei do passado que nunca foi presente de não saber se me amas ou me amaste
Encontrei-me abandonada em meu desterro como se o amado habitasse minha alma e validasse para sempre o meu sentir sem razão e sem consentimento
Nilza Azzi
163
Quase
Eras de quase certezas espantos e sabores e falta de intenção
Eras ombro e colo festa e arrebatamento antes do vazio
Heras pelos muros a repetir auroras como se quase fossem
Nilza Azzi
182
Maria
Voltando à casa vazia, nos ombros a alma torta, fatigava-se Maria, triste e só, sem esperança...
Fosse noite ou fosse dia, palmilhava a mesma estrada. Pobre moça, saberia que o mundo é velho e sem fim?
Nilza Azzi
177
O pingo
O pingo estava perdido. não sabia por onde andava aquela letra anoréxica...
Ela era a única junto da qual a própria existência esférica fazia sentido.
Nilza Azzi
228
Reencontro
Um dia, nesta terra em que vivemos a sina destas vidas separadas, ao crermos ser possível sofrer menos, seguimos, percorrendo outras estradas.
E assim, vaguei por todos os extremos, perdida e sem ter gosto para nada, mas tu, entre os prazeres mais supremos, vivias, de uma forma equivocada.
Porém, num sentimento que traduzo, por ser ao teu redor tudo confuso, no mar entraste, para não voltar...
E ali, onde flutuam minhas cinzas, nas horas em que as ondas são ranzinzas, beijo teus ossos junto ao quebra-mar.
Nilza Azzi
183
Carência
Jamais tu saberás que sinto amor. Talvez eu saiba disfarçar a minha insensatez.
Escondo o meu rubor e falo de outro assunto, ou olho para o céu, enquanto as mãos ajunto. Anseio por saber, mas calo e não pergunto o que sentes por mim, desde a primeira vez.
O sonho que vivi, embora foi contigo. Porém se fui feliz, hoje nem sei se ligo... Vazio me restou o coração, amigo, e vivo sem querer, num mundo sem porquês.
Nilza Azzi
191
Leque
Na madeira, marcava-se a toada – era um lírio, seu rosto descoberto – sobre o palco, passinhos, delicada, movimentos de areia no deserto...
O quimono da gueixa, iluminada, sob um feixe de luzes, entreaberto, é bordado em brocado e, na beirada do decote, uma pérola, decerto
dá realce a uma pele sem sinais. E na dança folclórica descerra várias vezes a arte do pintor:
Sobre o leque fineza de dispor sutilezas – a síntese da terra – as nuances das crenças ancestrais.
Nilza Azzi
200
Marina
Senti como se o céu de azul intenso conversasse comigo e, confidente, soubesse dos detalhes do que penso, do turbilhão que habita minha mente.
À mão, em tal lugar, sequer um lenço, para salvar os olhos de uma enchente. Na busca de aplacar o gesto tenso, simulo o olhar vazio, num ponto ausente.
Nenhuma nuvem mancha o céu e a vida emerge da paisagem colorida, que some no horizonte, junto ao mar.
Contudo exista calma no ambiente, a dor não me abandona e, sutilmente, em ondas vai doendo devagar...