Lista de Poemas
O pingo
O pingo estava perdido.
não sabia por onde andava
aquela letra anoréxica...
Ela era a única junto da qual
a própria existência esférica
fazia sentido.
Nilza Azzi
216
Maria
Voltando à casa vazia,
nos ombros a alma torta,
fatigava-se Maria,
triste e só, sem esperança...
Fosse noite ou fosse dia,
palmilhava a mesma estrada.
Pobre moça, saberia
que o mundo é velho e sem fim?
Nilza Azzi
168
Reencontro
Um dia, nesta terra em que vivemos
a sina destas vidas separadas,
ao crermos ser possível sofrer menos,
seguimos, percorrendo outras estradas.
E assim, vaguei por todos os extremos,
perdida e sem ter gosto para nada,
mas tu, entre os prazeres mais supremos,
vivias, de uma forma equivocada.
Porém, num sentimento que traduzo,
por ser ao teu redor tudo confuso,
no mar entraste, para não voltar...
E ali, onde flutuam minhas cinzas,
nas horas em que as ondas são ranzinzas,
beijo teus ossos junto ao quebra-mar.
Nilza Azzi
169
Contrassenso
E te contar que eu já te amei
embora o amor tão silencioso
antecedesse em seu começo
ao que o destino a mim dispôs
tornasse fato o meu tormento
visto que amor é contrassenso
... e te contar que um arrepio
ainda vive sobre os poros
da alma inteira em seu vazio
como se fosse indiferente
ao coração o que ele sente.
Nilza Azzi
151
Ponto de fuga
No infinito a convergência
a inocência de um olhar
um mar de céu e de luz
uma única aquarela
Como é bela a emoção
dos matizes sobre a tela
e nos traços dos pincéis
velhos réis por mim reinaram
(contudo, no grão de areia, o Aleph se desdobra)
Nilza Azzi
187
Ribalta
Pobre alma que vagueia sem roteiro,
sem parceiro para ser seu ombro amigo,
traz consigo a solidão mais descabida
e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes;
não há vozes que lhe sejam familiares
e os pesares, que carrega sobre os ombros,
são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída,
nem tolhida, seja a escolha que professo,
pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo,
no trajeto por cumprir que ainda me falta
e a ribalta acolhe o público mais nobre.
Nilza Azzi
198
Tempestade
O mar bramia em fúria; em todo lado,
o vento levantava a areia fina...
Um ar, perdido em bruma, esbranquiçado,
como se a hora fosse vespertina,
o céu pesado em cinza (que pecado!)
a chuva a fustigar uma ruína.
E veio a tempestade, força viva,
varreu a praia inteira e, foi embora.
Depois o sol ressurge e o dia aviva
as luzes do nascente e faz-se aurora!
Nilza Azzi
501
A penas
Era uma pluma leve como a pena;
era uma pena dura de roer.
Era uma agressão forte que depena,
feita a bico de pena, por prazer.
Era uma linha a dirigir a pena,
era uma pena inútil, sem saber.
Era uma pauta rica, ainda em cena,
a leve pluma, além do mesmo ser.
Era uma pena de ave, morta ao lado,
era o pio do filhote abandonado,
no apelo por alguma intervenção.
Era bem como as coisas todas são:
efêmeras, penosas, passageiras.
– As penas voam leves, sem fronteiras.
Nilza Azzi
407
love
leva-me a outro universo
limites aos quais nunca fui
longe... longe... longe...
Enlevada por teu chamado
lúbrico e atemporal
levito em sustos
lua... de... mel...
nilza azzi
220
Morreres
Se eu tiver que morrer ao meio-dia,
que o sol se esconda e a chuva seja fria
e que eu vá jazer longe daqui,
no mar azul, que há muito eu escolhi.
E assim meu pó não saiba mais quem é,
se areia, sal, se espuma ou mesmo até
alguma conta, em que participei
da formação da esfera, branca ou grei.
Se eu tiver que morrer à meia-noite,
que o vento encrespe e forte seja o açoite
das ondas, sobre as rochas das falésias...
E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as,
o mar revolto, a um céu indiferente,
na cor banal de um último poente...
Nilza Azzi
173
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!