Lista de Poemas
Da tristeza
Tenho uma dor, antiga como a vida,
se tem um nome, deve ser Tristeza.
Já vim ao mundo, dela acometida,
antes que a minha alma fosse acesa.
Para deixar de estar assim perdida,
na solidão, em meio às incertezas,
fiz contra a deusa súbita investida:
– Tornei-me alegre (estúpida proeza!).
E nesta vida, onde há pouco e tanto,
de uma alegria que persiste breve,
de uma tristeza que nunca prescreve,
a alegria envolve-me à vontade,
mas é tristeza o que da alma evade
e vem amalgamar-se ao meu espanto.
Nilza Azzi
178
A dança do amor
“As long as I'm with you, our hearts
will make the music our souls will dance to… “
(E. H.)
Na esfera azul além dos cantos da galáxia,
estamos todos nós, em pontos diferentes,
ora ao norte, ora ao sul, pequenos, meros entes,
em busca de aprender a usar a nossa audácia.
Assim, desde o começo, os vários dons presentes
que incitam a enfrentar a dúvida opiácea,
a desvendar a lei com garra e pertinácia,
também nos fazem crer que amor é um acidente.
Mas pode ser que seja, o amor, algo além disso,
que nutre e faz crescer a alma e lhe dá viço;
a força colossal, que existe além de nós...
A nítida expressão e a verdadeira voz,
o sonho e a melodia, a sugerir a dança
que ao fim irá juntar o bem que lhe afiança.
Nilza Azzi
308
Leque
Na madeira, marcava-se a toada
– era um lírio, seu rosto descoberto –
sobre o palco, passinhos, delicada,
movimentos de areia no deserto...
O quimono da gueixa, iluminada,
sob um feixe de luzes, entreaberto,
é bordado em brocado e, na beirada
do decote, uma pérola, decerto
dá realce a uma pele sem sinais.
E na dança folclórica descerra
várias vezes a arte do pintor:
Sobre o leque fineza de dispor
sutilezas – a síntese da terra –
as nuances das crenças ancestrais.
Nilza Azzi
187
A fita
Puseste bela fita no cabelo,
rosada, contra o negro dos teus cachos...
Depois, tu desdenhaste o meu desvelo:
– Menina, de mim fazes o diacho!
Então foi tudo fita e atropelo,
viraste, de cabeça para baixo,
as pontas dessas fitas. Que novelo!
No meio dessas fitas não relaxo...
E desse olhar maroto que me fita,
entendo que me amarras com teu jeito.
E fazes o que fazes tão direito,
que já não sei se a tira delicada
atrai o meu olhar, ou se é cilada
a fita que te torna mais bonita.
Nilza Azzi
268
A espera
“Esperando parada, pregada, na pedra do porto...”
(Chico Buarque)
Não era pedra, nem porto, e sim um portão,
onde eu a via, ao fim da tarde, às quatro e meia!
Se o coração de quem espera muito anseia,
dizem que ao dela coube amar a solidão.
Mas se o desejo traz no bojo um sonho vão,
ali parada tinha um ar que já permeia
quem alegria só conhece em face alheia
e tem no mundo a mais tristonha condição.
A luz dançante ao longe esquálida esmaece:
– Se em desespero eterno envia aos céus a prece,
é seu segredo e, assim, jamais eu saberia.
Guardo, porém, comigo a imagem vespertina:
– Será que a noite encobre as dores desse dia,
enquanto as moiras vão votar-lhe a mesma sina?
Nilza Azzi
316
Infinito
Esse engenho que roda enquanto gira
e, ao girar, faz rodar tudo ao redor,
e carrega no centro o rei maior,
queima sempre e sem fim, a imensa pira.
Esse fogo sustém um pormenor,
é uma força infinita e nunca expira,
entrelaça nas alças de safira,
a existência do grande e do menor.
Entre os sóis que constelam seu trajeto
e as esferas, de suma quididade,
em si mesmo, ei-lo único e completo...
Infinito, do qual nada se evade,
guarda tudo o que há de mais secreto,
vai e vem, detentor que é da Vontade!
Nilza Azzi
180
Catarse
Por que me dói o coração, em dor tão forte,
e por que bate em descompasso, à tua voz,
cada vez mais, sem encontrar o que o conforte,
e dói, e dói, dói sem cessar, e dói após
saber que tudo que lhe resta é dor ainda?
Por que me dói o coração, sofre esse corte,
e dói bem mais, sendo essa ausência dor infinda,
e mesmo assim, esse doer pouco lhe importe?
Ora, ele dói por esse amor, tão renitente,
ora, também, por esse amor, pleno e completo.
Dói-me, porque bendiz a festa do presente
e ainda dói por ser rebelde e inquieto...
E nessa dor, sofre de um modo diferente,
em regozijo por amar-te, ó meu dileto.
Nilza Azzi
204
Apagam-se as luzes
Medrava, entre as pedras, a gramínea,
rasteira, mas constante em seu crescer;
bem forte, não importa, curvilínea,
seguisse sua trilha a se estender.
Sabia que no a, havia a alínea;
fugia com horror da alínea b...
Conquanto se notasse consanguínea,
queria a complacência de quem lê!
Por falta de tesoura, extrapolou,
criou belo tapete, o tal gramado,
e tudo se tornou, sem mais, informe.
Ao pé da letra, não se fez um gol,
nem mesmo um escanteio foi marcado.
Alguém trocou a placa e o campo dorme...
Nilza Azzi
169
Altercação
À beira de uma estrada havia um galo.
Chovia e fazia muito frio...
Palavra provocante, ah, se eu te falo,
jamais terei perdão, pois desconfio
que ao vê-lo em tal perigo, o meu abalo
deveu-se a perceber que ele fugiu.
Palavra fugitiva, ah, se eu te calo,
vazia fica a linha, sem um pio.
O que fazia o galo, ali, curioso?
Fugira, ele, de um velho galinheiro,
cansado de viver, lá, prisioneiro?
Palavra que me atenta só por gozo,
esconde-se num velho dicionário
e torna o meu pensar fragmentário.
Nilza Azzi
234
Carnaval
Há duas direções no meu caminho
– em pleno carnaval tudo é excesso –
porém , diante do mundo, não confesso
o quanto este folguedo me é daninho.
Em meio à multidão, em seu recesso,
cansado, o coração bate sozinho
e nada, nesse intenso burburinho,
afasta a confusão na qual tropeço.
Por que é tão dorido ver-me assim,
perdida nesse brilho tão escasso?
Talvez porque o salão olha pra mim,
mas quando olho no espelho, me desfaço,
se deste lado enxergo um arlequim,
do outro – a gargalhar – vejo o palhaço.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!