Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Puseste bela fita no cabelo, rosada, contra o negro dos teus cachos... Depois, tu desdenhaste o meu desvelo: – Menina, de mim fazes o diacho!
Então foi tudo fita e atropelo, viraste, de cabeça para baixo, as pontas dessas fitas. Que novelo! No meio dessas fitas não relaxo...
E desse olhar maroto que me fita, entendo que me amarras com teu jeito. E fazes o que fazes tão direito,
que já não sei se a tira delicada atrai o meu olhar, ou se é cilada a fita que te torna mais bonita.
Nilza Azzi
279
Altercação
À beira de uma estrada havia um galo. Chovia e fazia muito frio... Palavra provocante, ah, se eu te falo, jamais terei perdão, pois desconfio
que ao vê-lo em tal perigo, o meu abalo deveu-se a perceber que ele fugiu. Palavra fugitiva, ah, se eu te calo, vazia fica a linha, sem um pio.
O que fazia o galo, ali, curioso? Fugira, ele, de um velho galinheiro, cansado de viver, lá, prisioneiro?
Palavra que me atenta só por gozo, esconde-se num velho dicionário e torna o meu pensar fragmentário.
Nilza Azzi
243
Apagam-se as luzes
Medrava, entre as pedras, a gramínea, rasteira, mas constante em seu crescer; bem forte, não importa, curvilínea, seguisse sua trilha a se estender.
Sabia que no a, havia a alínea; fugia com horror da alínea b... Conquanto se notasse consanguínea, queria a complacência de quem lê!
Por falta de tesoura, extrapolou, criou belo tapete, o tal gramado, e tudo se tornou, sem mais, informe.
Ao pé da letra, não se fez um gol, nem mesmo um escanteio foi marcado. Alguém trocou a placa e o campo dorme...
Nilza Azzi
180
Da tristeza
Tenho uma dor, antiga como a vida, se tem um nome, deve ser Tristeza. Já vim ao mundo, dela acometida, antes que a minha alma fosse acesa.
Para deixar de estar assim perdida, na solidão, em meio às incertezas, fiz contra a deusa súbita investida: – Tornei-me alegre (estúpida proeza!).
E nesta vida, onde há pouco e tanto, de uma alegria que persiste breve, de uma tristeza que nunca prescreve,
a alegria envolve-me à vontade, mas é tristeza o que da alma evade e vem amalgamar-se ao meu espanto.
Nilza Azzi
187
Tempestade
O mar bramia em fúria; em todo lado, o vento levantava a areia fina... Um ar, perdido em bruma, esbranquiçado, como se a hora fosse vespertina, o céu pesado em cinza (que pecado!) a chuva a fustigar uma ruína. E veio a tempestade, força viva, varreu a praia inteira e, foi embora. Depois o sol ressurge e o dia aviva as luzes do nascente e faz-se aurora!
Nilza Azzi
509
Catarse
Por que me dói o coração, em dor tão forte, e por que bate em descompasso, à tua voz, cada vez mais, sem encontrar o que o conforte, e dói, e dói, dói sem cessar, e dói após
saber que tudo que lhe resta é dor ainda? Por que me dói o coração, sofre esse corte, e dói bem mais, sendo essa ausência dor infinda, e mesmo assim, esse doer pouco lhe importe?
Ora, ele dói por esse amor, tão renitente, ora, também, por esse amor, pleno e completo. Dói-me, porque bendiz a festa do presente
e ainda dói por ser rebelde e inquieto... E nessa dor, sofre de um modo diferente, em regozijo por amar-te, ó meu dileto.
Nilza Azzi
215
Infinito
Esse engenho que roda enquanto gira e, ao girar, faz rodar tudo ao redor, e carrega no centro o rei maior, queima sempre e sem fim, a imensa pira.
Esse fogo sustém um pormenor, é uma força infinita e nunca expira, entrelaça nas alças de safira, a existência do grande e do menor.
Entre os sóis que constelam seu trajeto e as esferas, de suma quididade, em si mesmo, ei-lo único e completo...
Infinito, do qual nada se evade, guarda tudo o que há de mais secreto, vai e vem, detentor que é da Vontade!
Nilza Azzi
192
Ausência
De ti não me restou palavra alguma, história, ou mesmo ação benevolente; não guardo tua imagem no presente. Nenhuma frase expressa coaduna
a forma sem contexto, irreverente, da fala a desfazer-se, qual espuma − quem vive de mentiras se acostuma, ao ponto, em que até a verdade mente.
E vivo num deserto ardente, seco, com noites em que cai além de zero o grau da solidão, justo no beco;
o ponto do discurso mais austero, o falso adjetivo, o verbo peco, o som que já não ouço e ainda quero.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
192
A dança do amor
“As long as I'm with you, our hearts
will make the music our souls will dance to… “
(E. H.)
Na esfera azul além dos cantos da galáxia, estamos todos nós, em pontos diferentes, ora ao norte, ora ao sul, pequenos, meros entes, em busca de aprender a usar a nossa audácia.
Assim, desde o começo, os vários dons presentes que incitam a enfrentar a dúvida opiácea, a desvendar a lei com garra e pertinácia, também nos fazem crer que amor é um acidente.
Mas pode ser que seja, o amor, algo além disso, que nutre e faz crescer a alma e lhe dá viço; a força colossal, que existe além de nós...
A nítida expressão e a verdadeira voz, o sonho e a melodia, a sugerir a dança que ao fim irá juntar o bem que lhe afiança.
Nilza Azzi
317
Carnaval
Há duas direções no meu caminho – em pleno carnaval tudo é excesso – porém , diante do mundo, não confesso o quanto este folguedo me é daninho.
Em meio à multidão, em seu recesso, cansado, o coração bate sozinho e nada, nesse intenso burburinho, afasta a confusão na qual tropeço.
Por que é tão dorido ver-me assim, perdida nesse brilho tão escasso? Talvez porque o salão olha pra mim,
mas quando olho no espelho, me desfaço, se deste lado enxergo um arlequim, do outro – a gargalhar – vejo o palhaço.