Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
teu tronco faz-se em retas curvilíneas onde cravo minhas gavinhas em avanço na escalada até que possa alimentar-me, a tua seiva
nilza azzi
199
Pensamentos de Deus
A inspiração da Mente universal recolhe e agrega todo ser vivente e no sono de Brahma, bem e mal desaparecem, dentro da semente.
Adormecida, a vida segue igual, até que o deus, diante da serpente que engole a cauda, ação fundamental, reage e expira tudo novamente.
E quando o Verbo determina aos Devas, que da matéria, a essência mais primeva deve compor mais uma Ronda, então
o Criador conforma em pensamento a todos nós, assim nos dando alento, e nos transporta além da escuridão.
Nilza Azzi
197
Chuvisco
Tome-se o cinza claro e faça-se dele um céu bem alto escondendo atrás das nuvens a alegria do azul. Depois sopre-se um vento medianamente fraco para soltar algumas gotas que passem rapidamente
Nilza Azzi
219
Paz aos homens
Ah, se fosse Natal naquela estrela, a estrela fria, azul, a mais brilhante, onde a paz fulgisse sempre adiante, sem precisar de heróis a defendê-la.
Se a cada novo ano, a cada instante, já não houvesse formas de detê-la e explodisse em inúmeras centelhas, a luz daquele Amor reconfortante...
Dela eu queria apenas um reflexo, para espalhar em volta o mais perplexo dos meus olhares sempre atordoados,
qual fosse um raio em vara de condão a derramar nos tempos que virão, a paz aos homens, todos, de bom grado.
Nilza Azzi
139
love
leva-me a outro universo limites aos quais nunca fui longe... longe... longe...
Enlevada por teu chamado lúbrico e atemporal levito em sustos lua... de... mel...
nilza azzi
233
Desvios
Espanto a dor essa poeira de letras pesadas, sibilantes dobradas no percurso da linha, da pauta que perpasso a custo
Estouram as oclusões fermentam interseções e o luto é profundo e violento o sofrer
Dizem que a tristeza é passageira mas e se não for?
Nilza Azzi
177
Quereres
Querer-me-ia sozinha tão eu mesma e tão alheia ensimesmada em meus sonhos num mundo sem pesadelos sem o medo do abandono.
Querer-me-ia distante tão dona de mim, tão minha presa ao meu mundo tranquilo num tempo sem novidades sem saudade do futuro.
Num susto, vi-me tão perto, tão longe dos meus quereres.
Nilza Azzi
162
amar é doce
na vez do encontro meu coração dispara e nesse ponto descubro o quanto é cara a tua voz e sei o quanto é doce estarmos sós
nilza azzi
183
Morreres
Se eu tiver que morrer ao meio-dia, que o sol se esconda e a chuva seja fria e que eu vá jazer longe daqui, no mar azul, que há muito eu escolhi.
E assim meu pó não saiba mais quem é, se areia, sal, se espuma ou mesmo até alguma conta, em que participei da formação da esfera, branca ou grei.
Se eu tiver que morrer à meia-noite, que o vento encrespe e forte seja o açoite das ondas, sobre as rochas das falésias...
E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as, o mar revolto, a um céu indiferente, na cor banal de um último poente...
Nilza Azzi
183
A penas
Era uma pluma leve como a pena; era uma pena dura de roer. Era uma agressão forte que depena, feita a bico de pena, por prazer.
Era uma linha a dirigir a pena, era uma pena inútil, sem saber. Era uma pauta rica, ainda em cena, a leve pluma, além do mesmo ser.
Era uma pena de ave, morta ao lado, era o pio do filhote abandonado, no apelo por alguma intervenção.
Era bem como as coisas todas são: efêmeras, penosas, passageiras. – As penas voam leves, sem fronteiras.