Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

tronco



teu tronco
faz-se em retas curvilíneas
onde cravo minhas gavinhas
em avanço na escalada
até que possa
alimentar-me, a tua seiva

nilza azzi
199

Pensamentos de Deus


A inspiração da Mente universal
recolhe e agrega todo ser vivente
e no sono de Brahma, bem e mal
desaparecem,  dentro da semente.

Adormecida, a vida segue igual,
até que o deus, diante da serpente
que engole a cauda, ação fundamental,
reage e expira tudo novamente.

E quando o Verbo determina aos Devas,
que da matéria, a essência mais primeva
deve compor mais uma Ronda, então

o Criador conforma em pensamento
a todos nós, assim nos dando alento,
e nos transporta além da escuridão.

Nilza Azzi
197

Chuvisco


Tome-se o cinza claro
e faça-se dele um céu bem alto
escondendo atrás das nuvens
a alegria do azul.
Depois sopre-se um vento
medianamente fraco
para soltar algumas gotas
que passem rapidamente

Nilza Azzi
219

Paz aos homens


Ah, se fosse Natal naquela estrela,
a estrela fria, azul, a mais brilhante,
onde a paz fulgisse sempre adiante,
sem precisar de heróis a defendê-la.

Se a cada novo ano, a cada instante,
já não houvesse  formas de detê-la
e explodisse em inúmeras centelhas,
a luz daquele Amor reconfortante...

Dela eu queria apenas um reflexo,
para espalhar em volta o mais perplexo
dos meus olhares sempre atordoados,

qual fosse um raio em vara de condão
a derramar nos tempos que virão,
a paz aos homens, todos, de bom grado.

Nilza Azzi
139

love


leva-me a outro universo
limites aos quais nunca fui
longe... longe... longe...

Enlevada por teu chamado
lúbrico e atemporal
levito em sustos
lua... de... mel...

nilza azzi
233

Desvios


Espanto a dor
essa poeira de letras
pesadas, sibilantes
dobradas no percurso
da linha, da pauta
que perpasso a custo

Estouram as oclusões
fermentam interseções
e o luto é profundo
e violento o sofrer

Dizem que a tristeza
é passageira
mas e se não for?

Nilza Azzi
177

Quereres


Querer-me-ia sozinha
tão eu mesma e tão alheia
ensimesmada em meus sonhos
num mundo sem pesadelos
sem o medo do abandono.

Querer-me-ia distante
tão dona de mim, tão minha
presa ao meu mundo tranquilo
num tempo sem novidades
sem saudade do futuro.

Num susto, vi-me tão perto,
tão longe dos meus quereres.

Nilza Azzi
162

amar é doce


na vez do encontro  
meu coração dispara  
e nesse ponto  
descubro o quanto é cara
a tua voz  
e sei o quanto é doce  
estarmos sós  

nilza azzi
183

Morreres


Se eu tiver que morrer ao meio-dia,
que o sol se esconda e a chuva seja fria
e que eu vá jazer longe daqui,
no mar azul, que há muito eu escolhi.

E assim meu pó não saiba mais quem é,
se areia, sal, se espuma ou mesmo até
alguma conta, em que participei
da formação da esfera, branca ou grei.

Se eu tiver que morrer à meia-noite,
que o vento encrespe e forte seja o açoite
das ondas, sobre as rochas das falésias...

E as minhas poucas cinzas, ele asperge-as,
o mar revolto, a um céu indiferente,
na cor banal de um último poente...

Nilza Azzi

 
183

A penas


Era uma pluma leve como a pena;
era uma pena dura de roer.
Era uma agressão forte que depena,
feita a bico de pena, por prazer.

Era uma linha a dirigir a pena,
era uma pena inútil, sem saber.
Era uma pauta rica, ainda em cena,
a leve pluma, além do mesmo ser.

Era uma pena de ave, morta ao lado,
era o pio do filhote abandonado,
no apelo por alguma intervenção.

Era bem como as coisas todas são:
efêmeras, penosas, passageiras.
– As penas voam leves, sem fronteiras.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!