Lista de Poemas
Campo limpo
Levanta — meu senhor! — O dia brilha intenso,
nas terras logo além, germinam as sementes,
assume o teu papel, não sejas indolente;
se tudo é sempre igual, a língua perde senso.
Nem todos são os grãos que vingam, entrementes,
ganhar a luz do dia envolve uma disputa!
— O verso não quer mais uma palavra enxuta,
procura pela voz versátil das vertentes.
Senhora dos vergéis, estranha ao vil concreto,
de nível superior, os modos imponentes,
(o som escapa forte, é sopro contra os dentes)
desmonta de uma vez o berço analfabeto.
No fundo do crisol, mistura delirante
espalha pelo ar as luzes do levante.
Nilza Azzi
213
Perguntas
– Vovô, se toda noite o céu se acende
e as luzes já começam a brilhar,
existe algum anjinho ou um duende,
que junta cada estrela com seu par?
– Quando era tão pequeno como eu sou,
vovô, você sabia de onde vinha
o brilho desse céu que Deus criou
e lá, sabia achar sua estrelinha?
– Depois que tudo já foi apagado,
onde é que o anjo guarda aquelas luzes?
O armário é bem grandão e bem escuro?
– E quando a Terra vira pro outro lado,
as estrelinhas, já com seus capuzes,
estão dormindo num lugar seguro?
Nilza Azzi
209
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta,
que não posso deter no meu palato,
fala por mim, porém nunca me escuta;
essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta,
a enorme força nela, eu desacato.
Que venha a mim na arena, absoluta,
para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes,
hei de deixá-la nua, hei de expô-la,
para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes
e quando enfim tornar a encontrá-la,
que ela me seja clara em qualquer fala.
Nilza Azzi
181
A poesia borralheira
Não tenho quem aqueça as minhas mãos geladas;
nem mesmo quem me abrace e seque os olhos meus.
Não mora em meu borralho, a dádiva das fadas;
sapatos de cristal só servem pra museus...
Nilza Azzi
284
Visões
A borboleta que vemos entre as flores,
a pousar, aqui e ali, com ar gentil,
ela sói provar também de outros humores,
de outro tipo menos nobre, bem mais vil.
Quando os cadáveres, meros condutores,
deixam escapar o sumo que os nutriu
essas rainhas, das mais diversas cores,
pousam sobre a morte, bebem desse fio.
A vida lembra esse rio indiferente,
cujo desejo, seguir até o mar,
força um caminho, sem nunca se deter.
O rio, das águas, esquece de saber;
bem como a vida, de nós, de se lembrar:
ela só quer perdurar, seguir em frente.
Nilza Azzi
156
Até
Quando eu falar de amor, não acredita em mim
e as juras que eu fizer, jamais confia nelas,
mas posso prometer, não restarão sequelas,
se um dia esta ilusão chegar a ter um fim.
As minhas emoções tranquilas e singelas
não são nada demais, são flores num jardim,
bem simples e banais, as hastes de um jasmim,
tecendo a sua rama, em torno da janela.
Quando eu beijar teu corpo, apenas por desejo,
não crê em mim também, supondo ser afeto
e então vou me curvar, serás meu predileto.
Porém se conseguir, tão claro como almejo,
mostrar-te, meu amor, que não mereço fé,
mais forte eu te amarei e por mais tempo, até.
Nilza Azzi
e as juras que eu fizer, jamais confia nelas,
mas posso prometer, não restarão sequelas,
se um dia esta ilusão chegar a ter um fim.
As minhas emoções tranquilas e singelas
não são nada demais, são flores num jardim,
bem simples e banais, as hastes de um jasmim,
tecendo a sua rama, em torno da janela.
Quando eu beijar teu corpo, apenas por desejo,
não crê em mim também, supondo ser afeto
e então vou me curvar, serás meu predileto.
Porém se conseguir, tão claro como almejo,
mostrar-te, meu amor, que não mereço fé,
mais forte eu te amarei e por mais tempo, até.
Nilza Azzi
179
Alfa
Quando, da Lua, as cores se arrepiam,
como se fossem luzes da ribalta,
e quando o som do violão faz falta
para embalar as vozes da poesia,
quando as palavras não colam na pauta,
tal como a noite não cola no dia,
quando o tambor percute à revelia
para marcar a dança e a ressalta,
além dos montes, nos longes da terra,
vozes secretas urdem velhos planos,
sobre uma guerra resistente e antiga,
e o velho alfa, que comanda a liga,
jamais emite um uivo leviano
e pelas matas, pelos campos, erra...
Nilza Azzi
185
Ausências
Era uma vez um trem, já de partida,
e a jovem que corria pra embarcar,
adeus flutuando pelo ar
— a lágrima escorrendo uma dor líquida.
E sempre uma estação para lembrar,
um rosto, uma figura esmaecida.
A força para a glória de uma vida
ficara entre as paredes de outro lar.
Era uma crise fatal, sem solução
— impossibilidade natural
de ter o que quisera ter então...
Restava um gesto antigo contra o mal,
manter sob controle o coração,
que os trens chegam e partem, sempre igual.
Nilza Azzi
230
Floreta
Esse dragão que habita na saída
do mundo escuro, antro de outras feras,
se cospe fogo e a muitos intimida,
revela antigo o seu saber, pudera!
Guarda os confins da terra mais temida,
onde ninguém jamais soube quem era,
– muitos quiseram ascender à vida,
ao tempo curto de uma primavera.
O velho monstro, sempre avesso à luz,
produz as cinzas de seu próprio leito
e, nele, a sombra mais cruel reduz
à sensação de um luto insatisfeito.
No campo ao lado, ao pé de velha cruz,
a flor singela de um amor-perfeito.
Nilza Azzi
187
Grande amor
Amor-paixão senti pelo Diogo.
Que sentimento forte, abrasador!
Que me queimou inteira, como o fogo
queima o papel de uma carta de amor.
Que erro mais tolo, ele era demagogo
e me envolveu em erros... Sem pudor!
Levou-me à farsa. Libertei-me a rogo
e nunca mais, assim, quero dispor
dos meus afetos. Quero a alforria
e que o Diogo tenha o que merece.
Minha revolta já não se disfarça
e o meu desejo? Outro não seria
− e até por isso faço a minha prece −
Vê-lo penar de amor, só por pirraça.
Nilza Azzi
192
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!