Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Oh, estrela do céu! Tão distante de mim, esse brilho que tens reverbera sem fim. És passado, porém, és de outro universo, paralelo a este meu, singular e perverso.
Oh, meu raio de luz! Tão perfeito és assim como eu vejo daqui, ideal serafim. Da matéria que és, sou grãozinho disperso, da poeira que sou, és completo, o inverso.
Num carbono da Terra, em diverso sentido, vislumbrei a razão de um planeta perdido, que não teme o calor das estrelas candentes.
Dele posso tocar o meu sol de mais perto, sem notar um senão que me impeça. Deserto! Desafio estas leis – luto contra as correntes.
Nilza Azzi
159
Ciúme
Quando afastou também a última certeza e descobriu do amor, que não sabia nada, sem calço na ilusão da mente atordoada, cedeu ao coração, sem forças, indefesa.
Porém para sentir, quem sabe, aliviada, a alma que buscava os rastros da beleza, deixou atrás de si, as gélidas pegadas e atravessou a ponte, uma esperança acesa.
Mas quando descobriu, num mundo quase escuro, a dor que vem causar a nossa estupidez, para entender um pouco acerca desse evento,
reconheceu que pode, o amor ser ciumento, pois faz crescer em nós, e toda de uma vez, a sede de sabê-lo em todo seu apuro.
Nilza Azzi
175
Floreta
Esse dragão que habita na saída do mundo escuro, antro de outras feras, se cospe fogo e a muitos intimida, revela antigo o seu saber, pudera!
Guarda os confins da terra mais temida, onde ninguém jamais soube quem era, – muitos quiseram ascender à vida, ao tempo curto de uma primavera.
O velho monstro, sempre avesso à luz, produz as cinzas de seu próprio leito e, nele, a sombra mais cruel reduz
à sensação de um luto insatisfeito. No campo ao lado, ao pé de velha cruz, a flor singela de um amor-perfeito.
Nilza Azzi
198
Perguntas
– Vovô, se toda noite o céu se acende e as luzes já começam a brilhar, existe algum anjinho ou um duende, que junta cada estrela com seu par?
– Quando era tão pequeno como eu sou, vovô, você sabia de onde vinha o brilho desse céu que Deus criou e lá, sabia achar sua estrelinha?
– Depois que tudo já foi apagado, onde é que o anjo guarda aquelas luzes? O armário é bem grandão e bem escuro?
– E quando a Terra vira pro outro lado, as estrelinhas, já com seus capuzes, estão dormindo num lugar seguro?
Nilza Azzi
219
Ultrarromântico
A Lua segue a noite... A luz depura e aclara a solidão – fel dos meus dias. Busquei-te em todo canto e, com candura, clamava só por ti, mas não me ouvias.
Deixaste, sem aviso, a noite escura... Amor, não entendeste o que eu queria? Sufoco, tenho a febre que não curas, e morro: – Vem juntar minhas mãos frias!
Distante, o meu amado segue a aurora e deixo, aos borbotões, fluir meu pranto, convulso, pela dor que me devora.
Tão só, na vastidão deste meu canto, não sei o que será de mim agora, porque te disse não, mas te amo tanto...
Nilza Azzi
170
A poesia borralheira
Não tenho quem aqueça as minhas mãos geladas; nem mesmo quem me abrace e seque os olhos meus. Não mora em meu borralho, a dádiva das fadas; sapatos de cristal só servem pra museus...
Nilza Azzi
295
Em foco
Ela era descarada nada temia tudo enfrentava e ousadia era seu lema
Quando era sua vez subia ao palco e brilhava sempre audaz no mundo vogava
Ela era também tímida receosa e tão pequena emitindo um som tão fraco quase cinza de um poema
Nilza Azzi
182
Até
Quando eu falar de amor, não acredita em mim e as juras que eu fizer, jamais confia nelas, mas posso prometer, não restarão sequelas, se um dia esta ilusão chegar a ter um fim.
As minhas emoções tranquilas e singelas não são nada demais, são flores num jardim, bem simples e banais, as hastes de um jasmim, tecendo a sua rama, em torno da janela.
Quando eu beijar teu corpo, apenas por desejo, não crê em mim também, supondo ser afeto e então vou me curvar, serás meu predileto.
Porém se conseguir, tão claro como almejo, mostrar-te, meu amor, que não mereço fé, mais forte eu te amarei e por mais tempo, até.
Nilza Azzi
190
Grande amor
Amor-paixão senti pelo Diogo. Que sentimento forte, abrasador! Que me queimou inteira, como o fogo queima o papel de uma carta de amor.
Que erro mais tolo, ele era demagogo e me envolveu em erros... Sem pudor! Levou-me à farsa. Libertei-me a rogo e nunca mais, assim, quero dispor
dos meus afetos. Quero a alforria e que o Diogo tenha o que merece. Minha revolta já não se disfarça
e o meu desejo? Outro não seria − e até por isso faço a minha prece − Vê-lo penar de amor, só por pirraça.
Nilza Azzi
202
Divagar
Da matéria inconsistente e vaga de que são feitos os sonhos guardei num vidro, uma ínfima parte. Quando alguém a quem se ama parte a alma triste e solitária vaga desiludida, sem mais crer em sonhos. Mas, quem outrora navegou nos sonhos, pode recuperar a esperança... (em parte) abrindo o coração, vencendo a vaga.