Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Há duas direções no meu caminho – em pleno carnaval tudo é excesso – porém , diante do mundo, não confesso o quanto este folguedo me é daninho.
Em meio à multidão, em seu recesso, cansado, o coração bate sozinho e nada, nesse intenso burburinho, afasta a confusão na qual tropeço.
Por que é tão dorido ver-me assim, perdida nesse brilho tão escasso? Talvez porque o salão olha pra mim,
mas quando olho no espelho, me desfaço, se deste lado enxergo um arlequim, do outro – a gargalhar – vejo o palhaço.
Nilza Azzi
181
Canto d'aldeia
Mais uma tarde chega e minha aldeia, nessas horas tristíssimas do dia, envolve em luz as nuvens e arrepia a franja do horizonte... A lua cheia
sobe no céu, enquanto a aragem fria, enevoando os prados, volta e meia junta o capim e no seu canto enleia grilos e sapos; rompe a calmaria.
Se, no escuro da noite, é tão pequeno, esse pedaço de terra e, mais sereno, dos lares, o recôndito sagrado,
sempre há luzes acesas (e outro fado), a se estender, por este mundo vasto, porém nesse meu canto, a mim, me basto.
Nilza Azzi
204
Baliza
Hoje eu chorei a dor da minha vida, que dói tão fundo e nunca se amortiza; lavei a alma e a pendurei, torcida, onde não bate sol, nem sopra a brisa.
E quando escorre informe e diluída, na solidão dos ermos, nem me avisa que vai fazer sangrar esta ferida e me deixar num canto, sem baliza.
Mas entre a alma e a dor existe um pacto de não sofrer além de um tempo exacto, porque doer a vida sempre dói...
Depois do choro, sempre estou mais leve e, já que a vida é curta, é muito breve, não vou fazer do pranto o meu herói.
Nilza Azzi
338
Asas
Cansei de amar a quem já não me quer! Vou sair pelo mundo e ganhar asas, abusar da poesia que extravasa e obrigar a palavra ao seu mister.
Cansei de ser um zero à esquerda, rasa, conforme à situação de ser mulher; de ajustar-me ao teu gosto e de qualquer conversa tua que me ponha em brasa.
Depois, quando eu voltar, feliz e alada, talvez me dês valor e olhes pra mim como a luz que clareia a tua estrada;
talvez entendas que meu verso enfim encontra em ti a melhor pista e nada vai me livrar de amar-te tanto assim.
Nilza Azzi
233
Analogias
Luz do pensamento, asas da alegria, águas no deserto, em manhãs tão brancas, flor de buriti, a enfeitar barrancas, um bom cobertor, numa tarde fria.
A bebida quente, lá pelas tantas, pôr do sol perfeito, cor que irradia; de uma torta doce, a melhor fatia, a pergunta esperta e as respostas francas.
Louco espaço-tempo da minha mente, tudo que acontece de mais frequente são analogias que ninguém vê;
tudo que desperta em mim um sorriso, tudo que há de raro e de que preciso, confesso que só pode ser você…
Nilza Azzi
205
Bucólica
E fosse Thalia a Graça mais formosa, entre as formosas flores do jardim, teria a forma pura junto a mim: ― espinho sem valor de alguma rosa!
E, da desgraça, o meu sofrer sem fim, que escorre pela roda preguiçosa, comprime em filamentos qualquer prosa, até verter do sangue a cor carmim.
E fosse eu porventura um ser alado, por Zéfiro soprado até seu lado, para agitar-lhe as ondas dos cabelos,
Amor, jamais queria a dor de havê-los, os olhos teus, além dos meus, distantes, e achar-me desterrado, como dantes.
Nilza Azzi
235
A flor e a terra
Então pediu a flor, à terra por mais viço. Riscou com a raiz, caminhos rumo à seiva, depois curvou-se ao sol – perfeita rosa – ei-la brilhante em seu jardim, porém sem saber disso.
(Fechada em seu botão, à beira de uma leiva esconde no interior perfumes e feitiços; contempla o céu azul e o seu corpo roliço, a chuva, quando cai, de leve, apenas beija.)
Até que desdobrou – tão rosa e delicada a roupa que ela veste ao tempo da florada! – aos poucos seu matiz, em pétalas iguais.
Nutriu nesse jardim, até não poder mais, em busca de seu mel, abelhas, borboletas, até que desfolhou tingindo a terra preta!
Nilza Azzi
336
Soneto do verde imoderado
"Então pintei de azul os meus sapatos"
Carlos Pena Filho
Então pintei de verde os meus cabelos, sem saber se acertava em tal emprego; se na guerra e no amor não há sossego, que morra verde o fruto e sem desvelos...
E o verde mar profundo a que me achego, levanta, em verdes ondas, pesadelos que o verde das palmeiras rasga em zelos e tudo se transforma em desapego...
E na verdura insana da floresta, vasculho sem saber se ali inda resta uma esperança, ao menos, a brilhar.
Um vaga-lume o vago verde pisca e, esverdeada, deixa uma faísca e se a loucura é verde eu já não sei.
Nilza Azzi
190
Tempo improvável
Quando contempla a sucessão dos dias, esse rosário de infinitas contas, que lhe escorregam pelas mãos vazias, por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias, das ilusões e das certezas prontas... Se redescobre o amor e as fantasias, como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado, de extrema rebelião, pelo pecado de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz, tempo suspenso que lhe cala a voz, pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
201
Vespertinas
És a minha alegria, meu pesar, toda loucura dos meus dias tontos, um tesouro perdido a procurar – a soma inútil de todos os pontos .
És a cor mais escura a fazer par com o contraste desses brilhos prontos... As luzes da cidade a cintilar, meros sinais de certos desencontros.
E não sei se te quero ou te rejeito, estranho amor, que permanece além daquilo que se entende por um bem.
Um mal comum, mas que me causa efeito – um salto que se aborta pelo medo – e a noite colhe um dia meio azedo.