Lista de Poemas
Ausência
De ti não me restou palavra alguma,
história, ou mesmo ação benevolente;
não guardo tua imagem no presente.
Nenhuma frase expressa coaduna
a forma sem contexto, irreverente,
da fala a desfazer-se, qual espuma
− quem vive de mentiras se acostuma,
ao ponto, em que até a verdade mente.
E vivo num deserto ardente, seco,
com noites em que cai além de zero
o grau da solidão, justo no beco;
o ponto do discurso mais austero,
o falso adjetivo, o verbo peco,
o som que já não ouço e ainda quero.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
180
Soneto do verde imoderado
"Então pintei de azul os meus sapatos"
Carlos Pena Filho
Então pintei de verde os meus cabelos,
sem saber se acertava em tal emprego;
se na guerra e no amor não há sossego,
que morra verde o fruto e sem desvelos...
E o verde mar profundo a que me achego,
levanta, em verdes ondas, pesadelos
que o verde das palmeiras rasga em zelos
e tudo se transforma em desapego...
E na verdura insana da floresta,
vasculho sem saber se ali inda resta
uma esperança, ao menos, a brilhar.
Um vaga-lume o vago verde pisca
e, esverdeada, deixa uma faísca
e se a loucura é verde eu já não sei.
Nilza Azzi
181
Bucólica
E fosse Thalia a Graça mais formosa,
entre as formosas flores do jardim,
teria a forma pura junto a mim:
― espinho sem valor de alguma rosa!
E, da desgraça, o meu sofrer sem fim,
que escorre pela roda preguiçosa,
comprime em filamentos qualquer prosa,
até verter do sangue a cor carmim.
E fosse eu porventura um ser alado,
por Zéfiro soprado até seu lado,
para agitar-lhe as ondas dos cabelos,
Amor, jamais queria a dor de havê-los,
os olhos teus, além dos meus, distantes,
e achar-me desterrado, como dantes.
Nilza Azzi
226
Vespertinas
És a minha alegria, meu pesar,
toda loucura dos meus dias tontos,
um tesouro perdido a procurar
– a soma inútil de todos os pontos .
És a cor mais escura a fazer par
com o contraste desses brilhos prontos...
As luzes da cidade a cintilar,
meros sinais de certos desencontros.
E não sei se te quero ou te rejeito,
estranho amor, que permanece além
daquilo que se entende por um bem.
Um mal comum, mas que me causa efeito
– um salto que se aborta pelo medo –
e a noite colhe um dia meio azedo.
Nilza Azzi
164
Canto d'aldeia
Mais uma tarde chega e minha aldeia,
nessas horas tristíssimas do dia,
envolve em luz as nuvens e arrepia
a franja do horizonte... A lua cheia
sobe no céu, enquanto a aragem fria,
enevoando os prados, volta e meia
junta o capim e no seu canto enleia
grilos e sapos; rompe a calmaria.
Se, no escuro da noite, é tão pequeno,
esse pedaço de terra e, mais sereno,
dos lares, o recôndito sagrado,
sempre há luzes acesas (e outro fado),
a se estender, por este mundo vasto,
porém nesse meu canto, a mim, me basto.
Nilza Azzi
195
Camuflagem
Ramos, guirlandas, flores em cascata
alcatifaram toda a rodovia.
Por ela caminhei, cheguei à mata,
àquela onde cantava a cotovia.
Toquei, ao alaúde, a serenata,
contei segredos, mas não entendia
porque meu coração jamais acata
a voz que o adverte todo dia.
Há nítidos sinais por toda parte,
mas não posso entender essa mensagem
– a Lua lá no céu me desconcerta !
Quisera ter nascido mais esperta,
agir como os heróis dos filmes agem
e ir viver nalgum jardim de Marte.
Nilza Azzi
193
Tempo improvável
Quando contempla a sucessão dos dias,
esse rosário de infinitas contas,
que lhe escorregam pelas mãos vazias,
por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias,
das ilusões e das certezas prontas...
Se redescobre o amor e as fantasias,
como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado,
de extrema rebelião, pelo pecado
de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz,
tempo suspenso que lhe cala a voz,
pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
195
A flor e a terra
Então pediu a flor, à terra por mais viço.
Riscou com a raiz, caminhos rumo à seiva,
depois curvou-se ao sol – perfeita rosa – ei-la
brilhante em seu jardim, porém sem saber disso.
(Fechada em seu botão, à beira de uma leiva
esconde no interior perfumes e feitiços;
contempla o céu azul e o seu corpo roliço,
a chuva, quando cai, de leve, apenas beija.)
Até que desdobrou – tão rosa e delicada
a roupa que ela veste ao tempo da florada! –
aos poucos seu matiz, em pétalas iguais.
Nutriu nesse jardim, até não poder mais,
em busca de seu mel, abelhas, borboletas,
até que desfolhou tingindo a terra preta!
Nilza Azzi
325
Baliza
Hoje eu chorei a dor da minha vida,
que dói tão fundo e nunca se amortiza;
lavei a alma e a pendurei, torcida,
onde não bate sol, nem sopra a brisa.
E quando escorre informe e diluída,
na solidão dos ermos, nem me avisa
que vai fazer sangrar esta ferida
e me deixar num canto, sem baliza.
Mas entre a alma e a dor existe um pacto
de não sofrer além de um tempo exacto,
porque doer a vida sempre dói...
Depois do choro, sempre estou mais leve
e, já que a vida é curta, é muito breve,
não vou fazer do pranto o meu herói.
Nilza Azzi
329
Asas
Cansei de amar a quem já não me quer!
Vou sair pelo mundo e ganhar asas,
abusar da poesia que extravasa
e obrigar a palavra ao seu mister.
Cansei de ser um zero à esquerda, rasa,
conforme à situação de ser mulher;
de ajustar-me ao teu gosto e de qualquer
conversa tua que me ponha em brasa.
Depois, quando eu voltar, feliz e alada,
talvez me dês valor e olhes pra mim
como a luz que clareia a tua estrada;
talvez entendas que meu verso enfim
encontra em ti a melhor pista e nada
vai me livrar de amar-te tanto assim.
Nilza Azzi
226
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!