Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 706 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

611

A espera

“Esperando parada, pregada, na pedra do porto...”
(Chico Buarque)

Não era pedra, nem porto, e sim um portão,
onde eu a via, ao fim da tarde, às quatro e meia!
Se o coração de quem espera muito anseia,
dizem que ao dela coube amar a solidão.

Mas se o desejo traz no bojo um sonho vão,
ali parada tinha um ar que já permeia
quem alegria só conhece em face alheia
e tem no mundo a mais tristonha condição.

A luz dançante ao longe esquálida esmaece:
– Se em desespero eterno envia aos céus a prece,
é seu segredo e, assim, jamais eu saberia.

Guardo, porém, comigo a imagem vespertina:
–  Será que a noite encobre as dores desse dia,
enquanto as moiras vão votar-lhe a mesma sina?


Nilza Azzi  
326

Canto d'aldeia


Mais uma tarde chega e minha aldeia,
nessas horas tristíssimas do dia,
envolve em luz as nuvens e arrepia
a franja do horizonte... A lua cheia

sobe no céu, enquanto a aragem fria,
enevoando os prados, volta e meia
junta o capim e no seu canto enleia
grilos e sapos; rompe a calmaria.

Se, no escuro da noite, é tão pequeno,
esse pedaço de terra e, mais sereno,
dos lares, o recôndito sagrado,

sempre há luzes acesas (e outro fado),
a se estender, por este mundo vasto,
porém nesse meu canto, a mim, me basto.

Nilza Azzi
206

Analogias


Luz do pensamento, asas da alegria,
águas no deserto, em manhãs tão brancas,
flor de buriti, a enfeitar barrancas,
um bom cobertor, numa tarde fria.

A bebida quente, lá pelas tantas,
pôr do sol perfeito, cor que irradia;
de uma torta doce, a melhor fatia,
a pergunta esperta e as respostas francas.

Louco espaço-tempo da minha mente,
tudo que acontece de mais frequente
são analogias que ninguém vê;

tudo que desperta em mim um sorriso,
tudo que há de raro e de que preciso,
confesso que só pode ser você…

Nilza Azzi
209

Vespertinas


És a minha alegria, meu pesar,
toda loucura dos meus dias tontos,
um tesouro perdido a procurar
– a soma inútil de todos os pontos .

És a cor mais escura a fazer par
com o contraste desses brilhos prontos...
As luzes da cidade a cintilar,
meros sinais de certos desencontros.

E não sei se te quero ou te rejeito,
estranho amor, que permanece além
daquilo que se entende por um bem.

Um mal comum, mas que me causa efeito
– um salto que se aborta pelo medo –
e a noite colhe um dia meio azedo.

Nilza Azzi
175

Camuflagem


Ramos,  guirlandas, flores em cascata
alcatifaram toda a rodovia.
Por ela caminhei, cheguei à mata,
àquela onde cantava a cotovia.

Toquei, ao alaúde, a serenata,
contei segredos, mas não entendia
porque meu coração jamais acata
a voz que o adverte todo dia.

Há nítidos sinais por toda parte,
mas não posso entender essa mensagem
– a Lua lá no céu me desconcerta !

Quisera ter nascido mais esperta,
agir como os heróis dos filmes agem
e ir viver nalgum jardim de Marte.

Nilza Azzi
206

Soneto do verde imoderado

"Então pintei de azul os meus sapatos" 
Carlos Pena Filho

Então pintei de verde os meus cabelos,
sem saber se acertava em tal emprego;
se na guerra e no amor não há sossego,
que morra verde o fruto e sem desvelos...

E o verde mar profundo a que me achego,
levanta, em verdes ondas, pesadelos
que o verde das palmeiras rasga em zelos
e tudo se transforma em desapego...

E na verdura insana da floresta,
vasculho sem saber se ali inda resta
uma esperança, ao menos, a brilhar.

Um vaga-lume o vago verde pisca
e, esverdeada, deixa uma faísca
e se a loucura é verde eu já não sei.

Nilza Azzi
192

Asas


Cansei de amar a quem já não me quer!
Vou sair pelo mundo e ganhar asas,
abusar da poesia que extravasa
e obrigar a palavra ao seu mister.

Cansei de ser um zero à esquerda, rasa,
conforme à situação de ser mulher;
de ajustar-me ao teu gosto e de qualquer
conversa tua que me ponha em brasa.

Depois, quando eu voltar, feliz e alada,
talvez me dês valor e olhes pra mim
como a luz que clareia a tua estrada;

talvez entendas que meu verso enfim
encontra em ti a melhor pista e nada
vai me livrar de amar-te tanto assim.

Nilza Azzi
236

Bucólica


E fosse Thalia a Graça mais formosa,  
entre as formosas flores do jardim,  
teria a forma pura junto a mim:    
― espinho sem valor de alguma rosa!  

E, da desgraça, o meu sofrer sem fim,  
que escorre pela roda preguiçosa,  
comprime em filamentos qualquer prosa,  
até verter do sangue a cor carmim.  

E fosse eu porventura um ser alado,  
por Zéfiro soprado até seu lado,  
para agitar-lhe as ondas dos cabelos,  

Amor, jamais queria a dor de havê-los,  
os olhos teus, além dos meus, distantes,  
e achar-me desterrado, como dantes.  

Nilza Azzi
238

Baliza


Hoje eu chorei a dor da minha vida,
que dói tão fundo e nunca se amortiza;
lavei a alma e a pendurei, torcida,
onde não bate sol, nem sopra a brisa.

E quando escorre informe e diluída,
na solidão dos ermos, nem me avisa
que vai fazer sangrar esta ferida
e me deixar num canto, sem baliza.

Mas entre a alma e a dor existe um pacto
de não sofrer além de um tempo exacto,
porque doer a vida sempre dói...

Depois do choro, sempre estou mais leve
e, já que a vida é curta, é muito breve,
não vou fazer do pranto o meu herói.

Nilza Azzi
340

A flor e a terra


Então pediu a flor, à terra por mais viço.
Riscou com a raiz, caminhos rumo à seiva,
depois curvou-se ao sol – perfeita rosa – ei-la
brilhante em seu jardim, porém sem saber disso.

(Fechada em seu botão, à beira de uma leiva
esconde no interior perfumes e feitiços;
contempla o céu azul e o seu corpo roliço,
a chuva, quando cai, de leve, apenas beija.)

Até que desdobrou – tão rosa e delicada
a roupa que ela veste ao tempo da florada! –
aos poucos seu matiz, em pétalas iguais.

Nutriu nesse jardim, até não poder mais,
em busca de seu mel, abelhas, borboletas,
até que desfolhou tingindo a terra preta!

Nilza Azzi
338

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!