Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
"It kills me that when you pull up FB that it asks you what's on your mind." (E. H.)
Ela habitava os sonhos de um poeta envolta em seda, o branco do vestido emoldurava o corpo bem brunido e vinha a ele andando em linha reta.
Juntos buscaram, longe do alarido, na rua calma, a forma predileta de conseguir, do amor, cumprir a meta e levitar, num mundo evanescido.
E fosse o sonho escolha de quem dorme, e não o mundo onírico, disforme, ele a teria nua eternamente,
nos braços seus, no amor que, embora ardente, fosse assim branco, a nuvem solta e leve, não a ilusão que a vida nos prescreve.
Nilza Azzi
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Tristeza III
Ela passou por mim na rua estreita; tinha um chapéu caído sobre o rosto. O céu turbou-se em nuvens indisposto... Acreditei fosse ela a minha eleita!
Distraída, afastou-se e um tal desgosto tomou conta de mim, fez-me desfeita, e sem dar trégua, sempre à minha espreita, largou-me a alma assim, como um sol posto.
O tempo, que a mantém longe de mim, é o mesmo a me fazer sentir meu fim, porque sem ela sou qualquer ninguém...
A tristeza que eu tive, e não me tem, escorreu-me das mãos qual fosse areia e fez da rua estreita, a estrada alheia.
Nilza Azzi
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Ia a Lua
Ia a lua, num passeio com seus raios, ria solta e leve além da noite azul; altaneira pelo céu, nos seus ensaios, enviava doce luz... No extremo sul,
já dormia o velho sol, além de outeiros... Se na veste branca usava uma estrelinha, ao reinar, a soberana dos celeiros, era o sonho do poeta, que detinha.
Se as estrelas lhe serviam de transporte, do cetim azul das vestes, belas fadas escolhiam, entre as luzes, quais dispor.
E, no céu, a coalizão tornava forte, na unidade das matérias coaguladas, a existência deste mundo multicor...
Nilza Azzi
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Campos e florestas
É tanto verde, e tão junto, num espaço até pequeno, que ficamos sem assunto, na verdura do terreno.
Nilza Azzi
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Busca
A palavra que procuro e vive a fugir de mim é feita do som mais puro; tem perfumes de jardim.
Cintila, às vezes, no escuro das noites longas, sem fim, mas se apaga quando juro que não és nada pra mim.
Nilza Azzi
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Veleidade
Nada me importa na aparência de um mancebo, quer seja belo, seja calvo ou tenha encantos; que seus trabalhos sejam doze ou outros tantos... Não me cativa o vate pelo que recebo, se enxerga luz numa palavra meio torta; faz ressoar seus ecos sem nenhum arrego e deixa flores sem bilhete à minha porta; destila essências de uma fonte que não bebo! Porém não sei se tal razão é meu direito... Se falta verve à maioria — o tempo é cedo — se não se arrisca, segue as linhas meio a medo, pois meu soneto não difere, contrafeito:
— Tem versos fortes; guarda um ar de bom menino, mas não fascina, pois não é um alexandrino...
Nilza Azzi
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Sede
Que tentação esse teu corpo varonil, delineado por firmezas musculares. O torso nu e a atração do teu quadril, o cheiro certo que me deixas pelos ares; cheiro de vida, que a mãe Terra conferiu e que me atiça, sem cessar, sem que repares... A natureza feminina, mais sutil, nota detalhes, mesmo os mais irregulares, não deixa claro o interesse pelo macho. Mas o princípio não difere muito (eu acho!) assaz idêntico, o caminho do desejo. Limita, a pele, superfície e precipício e tudo arde, quando o fogo é mais propício, na secreção que se prepara para o beijo. Nilza Azzi
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Astúcia
A força de um felino na mulher escapa pelo olhar que chora arguto. Controle e persuasão, a voz requer, pois nela a intensidade do minuto reboa no silêncio que é mister... O negro da pupila é apenas luto; espanto pelas grades, sem qualquer sentido menos claro –, resoluto! É mágico, o futuro que ela quer... A fera, confinada numa cela jamais, de seu saber, algo revela e a luz só faz brilhar negra pelagem. De fato, o coração palpita rubro e se consegue a paz, não sei. Descubro que os olhos de pantera não reagem.
Nilza Azzi
N
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Amarelos
Um tiquinho da cor, um retalho singelo, a ilusão vem do Sol, dos segredos velados. Aspirado da luz, nos diversos estados, com filetes de mel, desenhar um castelo. É nas copas do ipê, essa joia dos prados, e nos lírios que estão, no mais puro amarelo, as belezas em flor, explodindo... Tão belos, os detalhes sutis, esses tons aureolados. Num pedaço de céu, faz-se um elo perfeito, amarelo e azul — um suave, outro forte— junto aos mares do sul, os narcisos do norte. Mas nos campos de anis, se fizeres teu leito, e souberes de amar, quais os elos se fazem, deixarás, no lugar, ambas, seda e aniagem.
Nilza Azzi
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Às margens do Paraíba do Sul
Nas tardes sem tempero, descansava, enquanto um livro lhe tomava as mãos. Na sombra, a negra debulhava as favas, dormia ao lado, um gato comilão. A samambaia, os ramos despencava. Era de metro, a alcançar o chão. A um canto do terraço, havia a clava, jogada lá, inútil era, então. Há muito a plantação já se esgotara e os tempos do café, pelas encostas, não eram mais do que lembranças vagas. Sem meios de fugir à sua saga, seguia presa à terra descomposta, Senhora do sertão e piraquara.