Tolices
Ah, se de fato não se consentisse
que nada se dissesse assim, à toa,
por vaidade, até mesmo por tolice,
ou só porque o silêncio descorçoa.
E se da voz, o som não mais se ouvissse,
levando essa canção que só destoa,
a mesma loa em forma de sandice,
a frase que compõe qualquer pessoa.
Reservaria um tanto dos meus sonhos,
poemas que jamais escreveria,
os ninhos de algodão, meus pensamentos.
E como os anjos, róseos e risonhos,
viveria nas nuvens, noite e dia,
bem longe deste mundo barulhento.
Nilza Azzi
Lógica
Ali, aos pés de Deus, estava uma criança
que olhava tão curiosa a sua barba branca.
Se com ingenuidade, ideias ela avança,
o Pai com seu poder, perguntas não lhe estanca.
E eis que vai lhe arguir, com toda confiança,
na prática infantil, que sabe ser bem franca,
por que é que a cor do céu é branca? E lhe afiança,
bondoso, o nosso Pai: – É a paz que nos descansa!
Com toda seriedade e brilhos pelo olhar,
pensa que o Criador as cores escondeu...
Relembra o seu estojo e os lápis de pintar
e escolhe que prefere o mundo abaixo, seus
espaços em que a cor enfeita terra e mar,
e não pode entender a lógica de Deus!
Nilza Azzi
Silêncio
Mariposas, calai o voo incerto,
cessai co’esse barulho na vidraça.
Meu amado chegou e está tão perto,
e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto,
tal a fome de beijos que não passa,
e um desejo sensual, enfim liberto,
que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação,
o caminho do sangue que incendeia.
Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias
e, quem sabe, encontrar a remissão
da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
Nós outros
Tu me acreditas e eu sou mentira;
tu me duvidas, sou verdadeira.
Vasto mergulho – a mente delira –
e vou adiante, queira ou não queira.
Tu vens a mim e dons eu concedo;
abro-te as portas de outras esferas,
porém não caias no engano ledo:
– não saberás mais quem antes eras...
Se em mim procuras a fantasia,
da realidade, negas a herança.
Bem mais perturba e nos suplicia,
a perfeição que nunca se alcança.
Espelho opaco frente ao porvir,
tua presença é meu refletir...
Nilza Azzi
Desastre
Escrevo este soneto tempestade,
pesado como chuva de verão.
Em gotas, caem fortes, pelo chão,
palavras proferidas com vontade
de escorrer como a água, quando invade
e leva tudo em forte aluvião.
Depois, do que sobrou, a liberdade
de escolha, entre os escombros, pois dirão
que a Lua sempre brilha após a chuva...
Assim, qualquer poema vale a pena,
ainda que não fale. − Que bobagem!
A rima segue à toa e sem vantagem,
desgosto que acompanha a cantilena,
embora já não pense no que devo.
Nilza Azzi
Torpor
Já não há para mim qualquer poesia;
não sei, nem mesmo, se ainda existe prosa
ou se a mente findou tola e vazia,
sem mais lembrar que fora habilidosa.
Não há palavra que me valha um dia,
nem há rimar, nem rima milagrosa,
que vá curar a dor mais arredia,
esta tristeza que ora me desposa.
Que vida é essa? Vida que afeiçoa
a imensa força sobre todos nós,
mas não nos diz o que fazer, após
ter sucumbido aos seus ardis e loas...
– Por que me prende a este mundo lasso
e assim me faz saber do meu fracasso?
Nilza Azzi
Saturnina
Quando o vento soprava quase rente
e as folhas mais rasteiras agitava,
em meu canto pensava complacente
nos deuses que mantêm a vida escrava.
Se a alma não permite, não consente
ser perturbada ao tempo de uma oitava,
decerto não lhe é indiferente
a força com que a algema se lhe crava.
Vagando pelo mundo, é eremita,
caminha apoiada em seu cajado,
carrega uma lanterna e exercita
viver sem ter alguém sempre a seu lado.
Da convivência humana, que ela evita,
renega o tal viver equivocado.
Nilza Azzi
Meus cuidados
Num mundo translúcido, eu vou caminhando,
na vaga procura de um elo perdido,
de um tempo distante do qual não me olvido;
a busca empreendida do como e do quando
perdi meu destino, esqueci do comando,
caminhos desfeitos do sonho de amar.
É clara a noção do que vale um bom par,
no imenso oceano, na estrada da vida;
o quanto é importante seguir destemida,
pisar nessa areia, a caminho do mar.
Ao longo da praia eu procuro o teu vulto,
mas nem mesmo a sombra eu encontro; vou só.
A areia resseca, é ardente, eu fiz nó
das minhas lembranças e não mais consulto
a alma que (pobre!) procura um indulto
e não se fatiga do seu caminhar.
Só escapa um lamento que ecoa no ar
e é dele que todos vivemos rodeados...
Mas quando te encontro, lá vão meus cuidados;
te alcanço em meu sonho... eis-me à beira do mar.
Nilza Azzi
Morro do José Menino
Procura-se um lugar
um pouco abaixo do céu
um pouco acima da terra
bastante perto do mar
com lembranças da infância
num entardecer perdido
e aquele navio ao largo
piscar de luzes distante.
Nilza Azzi
Linha quebrada
"Nenhum grande amor tem uma história reta."
(Fernando Pessoa)
Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.
Não sei se fiz a escolha mais correta
− o verdadeiro amor jamais algema!
Dizer-te sim, seria a minha meta,
porém, como solver o meu dilema?
Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.
Se no meu coração a flecha espeta,
repete-se a canção e o velho tema,
entende a alma triste do poeta,
perder-te pode ser a dor suprema.
Sonhei seguir a estrada em linha reta...
Nilza_Azzi_Rondel