Lista de Poemas
Lógica
Ali, aos pés de Deus, estava uma criança
que olhava tão curiosa a sua barba branca.
Se com ingenuidade, ideias ela avança,
o Pai com seu poder, perguntas não lhe estanca.
E eis que vai lhe arguir, com toda confiança,
na prática infantil, que sabe ser bem franca,
por que é que a cor do céu é branca? E lhe afiança,
bondoso, o nosso Pai: – É a paz que nos descansa!
Com toda seriedade e brilhos pelo olhar,
pensa que o Criador as cores escondeu...
Relembra o seu estojo e os lápis de pintar
e escolhe que prefere o mundo abaixo, seus
espaços em que a cor enfeita terra e mar,
e não pode entender a lógica de Deus!
Nilza Azzi
69
Bucólica
A sombra da mangueira compensava
o peso do calor. Era agradável
notar que além do voo de uma ave
o céu era imutável como estava.
A luz do sol cegava de tão forte.
O lago cintilava. Ao longe o gado
bebia a água com algum enfado,
o vento não soprava mais do Norte.
Os olhos descansavam sonolentos,
nas garças brancas por ali perdidas,
as formas adelgadas e compridas,
o mundo a espiar por um momento.
O ronco de um trovão feriu a cena
− A paz não perdurou, foi tão pequena.
Nilza Azzi
26
Silêncio
Mariposas, calai o voo incerto,
cessai co’esse barulho na vidraça.
Meu amado chegou e está tão perto,
e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto,
tal a fome de beijos que não passa,
e um desejo sensual, enfim liberto,
que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação,
o caminho do sangue que incendeia.
Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias
e, quem sabe, encontrar a remissão
da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
cessai co’esse barulho na vidraça.
Meu amado chegou e está tão perto,
e como é bom o jeito que me abraça!
Na boca tenho a sede de um deserto,
tal a fome de beijos que não passa,
e um desejo sensual, enfim liberto,
que segue sem licença qual devassa.
Silêncio para ouvir a pulsação,
o caminho do sangue que incendeia.
Silêncio, pois só nele as almas vão
viver em plenitude as horas cheias
e, quem sabe, encontrar a remissão
da esperança que o sonho ali semeia.
Nilza Azzi
186
Saturnina
Quando o vento soprava quase rente
e as folhas mais rasteiras agitava,
em meu canto pensava complacente
nos deuses que mantêm a vida escrava.
Se a alma não permite, não consente
ser perturbada ao tempo de uma oitava,
decerto não lhe é indiferente
a força com que a algema se lhe crava.
Vagando pelo mundo, é eremita,
caminha apoiada em seu cajado,
carrega uma lanterna e exercita
viver sem ter alguém sempre a seu lado.
Da convivência humana, que ela evita,
renega o tal viver equivocado.
Nilza Azzi
39
Desastre
Escrevo este soneto tempestade,
pesado como chuva de verão.
Em gotas, caem fortes, pelo chão,
palavras proferidas com vontade
de escorrer como a água, quando invade
e leva tudo em forte aluvião.
Depois, do que sobrou, a liberdade
de escolha, entre os escombros, pois dirão
que a Lua sempre brilha após a chuva...
Assim, qualquer poema vale a pena,
ainda que não fale. − Que bobagem!
A rima segue à toa e sem vantagem,
desgosto que acompanha a cantilena,
embora já não pense no que devo.
Nilza Azzi
40
Meus cuidados
Num mundo translúcido, eu vou caminhando,
na vaga procura de um elo perdido,
de um tempo distante do qual não me olvido;
a busca empreendida do como e do quando
perdi meu destino, esqueci do comando,
caminhos desfeitos do sonho de amar.
É clara a noção do que vale um bom par,
no imenso oceano, na estrada da vida;
o quanto é importante seguir destemida,
pisar nessa areia, a caminho do mar.
Ao longo da praia eu procuro o teu vulto,
mas nem mesmo a sombra eu encontro; vou só.
A areia resseca, é ardente, eu fiz nó
das minhas lembranças e não mais consulto
a alma que (pobre!) procura um indulto
e não se fatiga do seu caminhar.
Só escapa um lamento que ecoa no ar
e é dele que todos vivemos rodeados...
Mas quando te encontro, lá vão meus cuidados;
te alcanço em meu sonho... eis-me à beira do mar.
Nilza Azzi
36
Torpor
Já não há para mim qualquer poesia;
não sei, nem mesmo, se ainda existe prosa
ou se a mente findou tola e vazia,
sem mais lembrar que fora habilidosa.
Não há palavra que me valha um dia,
nem há rimar, nem rima milagrosa,
que vá curar a dor mais arredia,
esta tristeza que ora me desposa.
Que vida é essa? Vida que afeiçoa
a imensa força sobre todos nós,
mas não nos diz o que fazer, após
ter sucumbido aos seus ardis e loas...
– Por que me prende a este mundo lasso
e assim me faz saber do meu fracasso?
Nilza Azzi
42
Nós outros
Tu me acreditas e eu sou mentira;
tu me duvidas, sou verdadeira.
Vasto mergulho – a mente delira –
e vou adiante, queira ou não queira.
Tu vens a mim e dons eu concedo;
abro-te as portas de outras esferas,
porém não caias no engano ledo:
– não saberás mais quem antes eras...
Se em mim procuras a fantasia,
da realidade, negas a herança.
Bem mais perturba e nos suplicia,
a perfeição que nunca se alcança.
Espelho opaco frente ao porvir,
tua presença é meu refletir...
Nilza Azzi
33
Linha quebrada
"Nenhum grande amor tem uma história reta."
(Fernando Pessoa)
Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.
Não sei se fiz a escolha mais correta
− o verdadeiro amor jamais algema!
Dizer-te sim, seria a minha meta,
porém, como solver o meu dilema?
Sonhei seguir a estrada em linha reta,
mas tu dobraste a curva do poema.
Se no meu coração a flecha espeta,
repete-se a canção e o velho tema,
entende a alma triste do poeta,
perder-te pode ser a dor suprema.
Sonhei seguir a estrada em linha reta...
Nilza_Azzi_Rondel
37
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!