Lista de Poemas
Revisão
Além da lembrança, nos tempos antigos,
a Terra e a Lua girando no espaço,
as águas ferventes, o ar inda escasso,
momentos repletos de tantos perigos...
Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos
gestavam as formas, ainda sem lar.
O ventre da Mãe concebia, sem par,
futuras belezas, nas formas mais várias,
enquanto no globo, grupavam-se os párias
marcavam galope na beira do mar.
Depois, o intervalo de calma aparente;
ajustes, encaixes surgiram, sem pressa,
e foi olvidada essa fúria pregressa.
Aos poucos a vida mudou o ambiente
e soube fazê-lo de forma eficiente;
criou condições pra poder respirar,
ganhou as lonjuras, sonhou viajar...
Assim espalhou as sementes dos povos
que foram seguidos por outros mais novos,
migrando, em galope, da beira do mar.
A curta memória criou a ilusão
de certo conforto e até mesmo, de paz;
chegou o progresso com tudo que traz.
Na forma sem freios, ausente a razão,
perdeu-se o controle. Problemas, então,
tomaram de vez a atenção secular;
a terra a tremer e, nas ondas do mar,
perigos, tsunamis, tragédias e dor.
No mundo presente, essa cena de horror:
– fugir, em galope, da beira do mar.
Ao homem, pequeno, perante o universo,
compete rever os caminhos que trilha,
deixar de criar sua própria armadilha,
pois toda medalha contém seu reverso.
Mister, é conter esse estrago disperso
que altera a paisagem e faz duvidar
do nosso futuro; é preciso buscar
mais formas viáveis ao meio ambiente,
dar chance a uma vida que, em festa, apresente,
feliz, um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
61
Viagens da Luíza
Conheço muita gente que gosta de frio,
conheço muito mais que prefere o calor;
é muito bom viver nas praias do Brasil,
mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.
Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu,
alguém que não estava ao inteiro dispor,
na hora da filmagem, que o público viu,
e assim tornou-se um ícone revelador...
Cada qual seleciona um lugar pra viver
todos podem saber, se dá pé, se não dá,
menos a Luíza que voltou para cá.
Acabou-se o passeio, o que se há de fazer?
Sabemos que o inverno anda brabo no norte,
menos a Luíza que não teve essa sorte...
Nilza Azzi
66
Lusco-fusco
Na luz da sala havia escuridão,
mas não por zelo. Era o comedimento
que novas gerações jamais verão;
a vida já foi longa, o tempo, lento.
Memória celular, já não acaso,
notícia de jornal, cheia de acento,
a voz, a vez e a volta ao poço raso;
as noites sem dormir um sono isento.
Nos ciclos e nas eras, queimo, abraso,
alheia ao mundo externo. A alma presa
transita entre o avanço e o atraso;
o homem se adianta à natureza.
Se é o calor mundano que seduz,
a vida é muito escuro e pouca luz.
Nilza Azzi
42
Percurso
Fui deixando pra trás os sonhos meus
e assim troquei os passos, fui adiante,
nas escolhas que fiz a cada instante,
nas várias formas de dizer adeus.
E quanto mais sonhei, mais relevante
– ó devaneios pálidos e ateus –
foi a vontade de saber de um deus
que desse a mão ao ser itinerante.
Mas nunca o meu caminho ele cruzou,
para sustar minhas andanças ou
para ajustar meu passo ao paraíso,
ao desapego simples e eficaz,
que o desencanto desta vida traz,
ao despertar mais rápido e preciso.
Nilza Azzi
50
Canto de arte
Quando às margens da poesia me detenho
e me espelho nessas águas cintilantes,
posso ver que, entre o carvão e o diamante,
sabe ao pó o meu pretenso desempenho.
Sei então que em meu delírio de aspirante,
canto em verso a vida, sem franzir o cenho...
Tal labor requer de mim o mais ferrenho
dos esforços, por querer ir sempre adiante.
E se à arte eu presto enorme desserviço,
quando insisto em escrever, sem que me farte,
por castigo, aceito em paz a minha parte:
– Que se cale à minha volta o tom mortiço
desta verve e seja o bardo rechaçado
e nem mesmo deixe à margem um recado.
Nilza Azzi
35
Esforço inútil
Essa minh’alma fraca, tola e revoltada,
e o coração que desconhece o seu lugar,
jamais terão a paz, porque nenhuma estrada
chega ao destino, se o destino é só vagar...
Um dia, eu sei que a solidão fará morada;
descobrirei que não existe nenhum lar
e na poeira de algum vento, serei nada,
apenas grão que às vezes muda, sem cansar,
porque entendeu o imponderável da quimera.
E nesse vácuo explodirá, já sem espanto,
aquela lágrima nos olhos, bem no canto,
logo enxugada pelo ar, tão ressequido;
esforço inútil, sem função, pois que duvido
que fosse mesmo um sentimento... Ai, quem me dera!
Nilza Azzi
33
Quitanda
São vinte e quatro salgados
congelados e assados
por apenas dez reais,
freguesia, e inda tem mais:
tem sorvete de palito,
pacote com quatro tipos,
pão de queijo congelado
e nhoque resfriado...
Essa turma salva o dia,
pois vende até poesia!
Nilza Azzi
32
Desconcerto
Ah, se magia eu fizesse,
condensaria o azul puro do céu
em um único par de safiras
Com fios de teia invisível
as conservaria suspensas
no horizonte do olhar
Do mar poderia extrair
a combinação mais perfeita
dos pigmentos, o verde cristalizado
duas esmeraldas esplêndidas
Com fios de teia invisível
as manteria plantadas
terra fértil são teus olhos
E em perfeita sanidade
eu suspensa no horizonte
a tela por mim tecida
escolhendo as duas luas
enlouqueço céu e mar
Nilza Azzi
16
Fecho de ouro
Fiz um colar usando muitas contas,
contas de pedra, unidas por um fio.
E desse fio juntei as duas pontas;
as pedras todas eram do Brasil.
As escolhi às cegas, meio às tontas,
tal quem navega sobre um mar bravio
e vem a onda e a teu barco remonta,
deixando o convés escorregadio...
Faltava entanto completar a obra,
deixá-la pronta e certa para o uso,
fugindo à forma, para meu desdouro.
Colar perfeito, sem nenhuma sobra,
bem acabado, ainda preso ao fuso:
como arremate, usei um fecho de ouro!
Nilza Azzi
18
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!