Revisão
Além da lembrança, nos tempos antigos,
a Terra e a Lua girando no espaço,
as águas ferventes, o ar inda escasso,
momentos repletos de tantos perigos...
Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos
gestavam as formas, ainda sem lar.
O ventre da Mãe concebia, sem par,
futuras belezas, nas formas mais várias,
enquanto no globo, grupavam-se os párias
marcavam galope na beira do mar.
Depois, o intervalo de calma aparente;
ajustes, encaixes surgiram, sem pressa,
e foi olvidada essa fúria pregressa.
Aos poucos a vida mudou o ambiente
e soube fazê-lo de forma eficiente;
criou condições pra poder respirar,
ganhou as lonjuras, sonhou viajar...
Assim espalhou as sementes dos povos
que foram seguidos por outros mais novos,
migrando, em galope, da beira do mar.
A curta memória criou a ilusão
de certo conforto e até mesmo, de paz;
chegou o progresso com tudo que traz.
Na forma sem freios, ausente a razão,
perdeu-se o controle. Problemas, então,
tomaram de vez a atenção secular;
a terra a tremer e, nas ondas do mar,
perigos, tsunamis, tragédias e dor.
No mundo presente, essa cena de horror:
– fugir, em galope, da beira do mar.
Ao homem, pequeno, perante o universo,
compete rever os caminhos que trilha,
deixar de criar sua própria armadilha,
pois toda medalha contém seu reverso.
Mister, é conter esse estrago disperso
que altera a paisagem e faz duvidar
do nosso futuro; é preciso buscar
mais formas viáveis ao meio ambiente,
dar chance a uma vida que, em festa, apresente,
feliz, um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
Lusco-fusco
Na luz da sala havia escuridão,
mas não por zelo. Era o comedimento
que novas gerações jamais verão;
a vida já foi longa, o tempo, lento.
Memória celular, já não acaso,
notícia de jornal, cheia de acento,
a voz, a vez e a volta ao poço raso;
as noites sem dormir um sono isento.
Nos ciclos e nas eras, queimo, abraso,
alheia ao mundo externo. A alma presa
transita entre o avanço e o atraso;
o homem se adianta à natureza.
Se é o calor mundano que seduz,
a vida é muito escuro e pouca luz.
Nilza Azzi
Viagens da Luíza
Conheço muita gente que gosta de frio,
conheço muito mais que prefere o calor;
é muito bom viver nas praias do Brasil,
mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.
Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu,
alguém que não estava ao inteiro dispor,
na hora da filmagem, que o público viu,
e assim tornou-se um ícone revelador...
Cada qual seleciona um lugar pra viver
todos podem saber, se dá pé, se não dá,
menos a Luíza que voltou para cá.
Acabou-se o passeio, o que se há de fazer?
Sabemos que o inverno anda brabo no norte,
menos a Luíza que não teve essa sorte...
Nilza Azzi
Percurso
Fui deixando pra trás os sonhos meus
e assim troquei os passos, fui adiante,
nas escolhas que fiz a cada instante,
nas várias formas de dizer adeus.
E quanto mais sonhei, mais relevante
– ó devaneios pálidos e ateus –
foi a vontade de saber de um deus
que desse a mão ao ser itinerante.
Mas nunca o meu caminho ele cruzou,
para sustar minhas andanças ou
para ajustar meu passo ao paraíso,
ao desapego simples e eficaz,
que o desencanto desta vida traz,
ao despertar mais rápido e preciso.
Nilza Azzi
Fecho de ouro
Fiz um colar usando muitas contas,
contas de pedra, unidas por um fio.
E desse fio juntei as duas pontas;
as pedras todas eram do Brasil.
As escolhi às cegas, meio às tontas,
tal quem navega sobre um mar bravio
e vem a onda e a teu barco remonta,
deixando o convés escorregadio...
Faltava entanto completar a obra,
deixá-la pronta e certa para o uso,
fugindo à forma, para meu desdouro.
Colar perfeito, sem nenhuma sobra,
bem acabado, ainda preso ao fuso:
como arremate, usei um fecho de ouro!
Nilza Azzi
Desconcerto
Ah, se magia eu fizesse,
condensaria o azul puro do céu
em um único par de safiras
Com fios de teia invisível
as conservaria suspensas
no horizonte do olhar
Do mar poderia extrair
a combinação mais perfeita
dos pigmentos, o verde cristalizado
duas esmeraldas esplêndidas
Com fios de teia invisível
as manteria plantadas
terra fértil são teus olhos
E em perfeita sanidade
eu suspensa no horizonte
a tela por mim tecida
escolhendo as duas luas
enlouqueço céu e mar
Nilza Azzi
Quitanda
São vinte e quatro salgados
congelados e assados
por apenas dez reais,
freguesia, e inda tem mais:
tem sorvete de palito,
pacote com quatro tipos,
pão de queijo congelado
e nhoque resfriado...
Essa turma salva o dia,
pois vende até poesia!
Nilza Azzi
Canto de arte
Quando às margens da poesia me detenho
e me espelho nessas águas cintilantes,
posso ver que, entre o carvão e o diamante,
sabe ao pó o meu pretenso desempenho.
Sei então que em meu delírio de aspirante,
canto em verso a vida, sem franzir o cenho...
Tal labor requer de mim o mais ferrenho
dos esforços, por querer ir sempre adiante.
E se à arte eu presto enorme desserviço,
quando insisto em escrever, sem que me farte,
por castigo, aceito em paz a minha parte:
– Que se cale à minha volta o tom mortiço
desta verve e seja o bardo rechaçado
e nem mesmo deixe à margem um recado.
Nilza Azzi
Atirei um cravo n'água
Ando com mania de escrever versos para crianças
mas aquela linguagem simples e inocente me faz falta
ainda que um dia eu tenha sido a menininha que declamava versos
nas datas cívicas e em outras ocasiões
ainda que tantas vezes tenha subido ao palco de vestido branco
falta um "tantinho assim..." para que eu consiga tocar a pureza...
nunca chego até ela e sei que me escapou
ou terei me afastado dela porque tive o sonho de crescer
de fazer parte do mundo adulto onde há grandes pensadores
engodo traiçoeiro que atrai almas ingênuas
depois de ter cruzado o limiar que acolhe gente grande
escorrego na ilusão da nobreza e do altruísmo
sem jamais poder tocar os poderosos
ainda que não resvale no chão cheio de limbo
ainda assim, não quero chegar a descrever
as dores do eu aviltado
cresci, mas não sou grande o suficiente para isso
e os meus versos, ah!, os meus versos são arremedos inúteis
que não ganham prêmios, não recebem aplausos
porque trago na voz o azedume de um adulto
e a falsa educação de não dizer mais o que penso
sem meias palavras
sustentada apenas por cabelos cacheados
e um brilho nos olhos que mal descortinaram o mundo
Não sou mais uma criança e também não sou adulto
a alma veio das alturas, mas anda presa numa carcaça velha
embalagem que a desclassifica para as prateleiras da frente
para a verdade necessária e contundente
de que esse mundo ainda não foi bem sacudido
por tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas
ainda não foi bastante ameaçado por asteroides
e cometas vindos do espaço exterior
pelas explosões solares
e pelos desmandos dos homens sobre a Terra
por guerras atômicas e crianças famintas
pela desordem que melhor exporia a nossa pequenez
Então vago perdida pelos sentidos das palavras
sem encontrar um nexo e uma exatidão simples
o sentido da esperança para mim está perdido
na forma extrema de dolorosa e inexorável descrença
Salve, mestre Fernando Pessoa
Nilza Azzi
Depressão
Meu soneto desbotou, perdeu a cor
e me conta que jamais falar de amor,
ele irá, pois não consegue ter mais força
e por mais que ele torça ou se retorça,
fica preso numa forma inconsequente,
na aspereza de uma rima repelente.
Como fosse um marginal posto de lado,
já não tem a mesma glória do passado.
Diz que vai fazer as malas e partir;
procurar por novos ares, vai fugir,
pois não quer saber de dor de sofrimento.
Eu lhe digo que isso é coisa do momento,
mas o pobre diz que não e, decidido,
parte mesmo e me deixa deprimido.
Nilza Azzi