Esforço inútil
Essa minh’alma fraca, tola e revoltada,
e o coração que desconhece o seu lugar,
jamais terão a paz, porque nenhuma estrada
chega ao destino, se o destino é só vagar...
Um dia, eu sei que a solidão fará morada;
descobrirei que não existe nenhum lar
e na poeira de algum vento, serei nada,
apenas grão que às vezes muda, sem cansar,
porque entendeu o imponderável da quimera.
E nesse vácuo explodirá, já sem espanto,
aquela lágrima nos olhos, bem no canto,
logo enxugada pelo ar, tão ressequido;
esforço inútil, sem função, pois que duvido
que fosse mesmo um sentimento... Ai, quem me dera!
Nilza Azzi
Falsete
As aves em bando, as asinhas brancas...
Partida da tarde e nuvens cinzentas.
As manchas nos campos, já não são tantas;
os homens procuram sua querença.
Viver solitários nos é difícil,
nos vastos rincões, nos ermos perdidos,
coubessem na tarde, os sons; quanto ouvissem
poetas e musas, sábios, peritos.
E lá do outro lado, o mundo desperta,
em oposição ao tanto dormente;
de um lado se dorme, de outro se acorda.
A minha tristeza, a dor, é aquela,
que chega num susto, qual um falsete;
é apenas um erro e a vida é remota.
Nilza Azzi
A Lua...
A Lua andou escondida
em paragens bem distantes,
mas no céu minha vida
brilha como nunca antes.
Nilza Azzi
Simulação
Falar de amor, sem estar apaixonada;
de dor atroz, quando a vida me sorri...
Buscar certezas nos verbos de outra estrada;
ter sonhos maus, acordar feito um zumbi!
Viver os dias, saber que a alvorada
conduz à noite, ao crepúsculo rubi
e ao esvair-se, a visão atordoada,
reconhecer ter falhado... Não previ
que o meu fingir era falso. Ter assim,
a dor maior, esse espanto permanente,
sem compreender a razão de ser poeta...
E a uma só vez, nessa força que me afeta
tornar vazios os momentos do presente,
fazer chorar pelo amor longe de mim.
Nilza Azzi
Atraso
Não morro de amores por fogo em floresta,
por ave em gaiola, por tudo que agrida
e, menos ainda, por tudo que empesta
o mundo animal destruindo-lhe a vida.
Não morro de amores por fato homicida,
por ignorância, por tudo que gesta
ausência de paz e esperança na vida;
por tudo que é guerra, essa coisa funesta.
Porém o que dói, em minh’alma, bem fundo,
decerto é tortura, em qualquer situação,
fazendo morrer o sorriso em meus lábios.
Provoca revolta, esse horror oriundo
de seres brutais que atrasados estão
bem longe da luz elevada dos sábios.
Nilza Azzi
Urano
Ó meu amado, o quanto espero ver teu rosto,
bem junto ao meu com terna sombra protetora;
ir por caminhos aos quais dantes nunca fora,
teu coração junto do meu e, justaposto,
de forma tal, que eu não me sinta pecadora,
pelo compasso irregular e tão oposto,
à tua calma compressão, ao antegosto
de passear-te pelos prados, tal pastora.
És para sempre a plenitude em minha vida,
longe de ti o mundo não ganha sentido;
a tua ausência faz de mim um ser disperso.
O beijo doce que conheço e não se olvida,
não encontrei em outra boca; é o preferido
e o meu prazer é do tamanho do Universo.
Nilza Azzi
Intensa
Eu sou assim, alguma coisa incerta:
a luz bruxuleante em alvoradas,
farol que em mar revolto a nau alerta
e tenho a intrepidez que desagrada.
Quisera ser mais sábia e mais esperta,
porém me sei um pouco desvairada;
nenhuma tentativa me conserta...
Sou floco de algodão, ou quase nada.
Sou peça que faz falta no teu mundo,
contudo, não me encaixo como queres.
Restaram-me as arestas barulhentas,
assim, minha presença, não aguentas!
Desejo nivelar-me a mais mulheres,
mas quanto mais eu subo, mais me afundo.
Nilza Azzi
Vácuo
Momentos em que alma vive estranha,
aqueles sem o som de um mar de rosas,
distante de outras horas venturosas;
momentos em que luta, perde, apanha.
Desastres naturais – porque curiosas
são sempre as situações em que se acanha,
enquanto o vergonhoso da façanha,
resvala da poesia para a prosa.
É vácuo, tão feroz em seu abalo,
a força deste embate, enquanto calo
o espanto de viver sem esperança.
É, sim, um vento frio. Ele resseca
os olhos que se voltam para Meca.
A alma, mesmo morta, não descansa.
Nilza Azzi
Iniciação
És tu mulher, a guardiã desse portal invisível,
aquele que há tanto tempo procuro nos cantos,
nas ruelas, nas travessas e alamedas, sem mesmo
refletir sobre o cansaço dos meus verbos,
a deusa metamórfica do sentido latente.
Sem ter a permissão, invado o átrio e peco
contra a tua intimidade, a vasculhar além
dos teus segredos, nas dobras paralelas.
A ousadia é armadilha, veja o espelho de Hércules
que aponta para a Medusa vencida. A conclusão das formas,
o poema a exasperar a instável perfeição,
segues correta, enquanto o ávido, inábil ser que sou,
escapa pelas linhas pontuadas de todos os sentidos do teu ser.
Nilza Azzi
Ave migratória
Deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor,
pequenas aves voam contra o vento forte;
vão para o sul, onde farão ninhos de amor.
Chegado o inverno há que partir, buscar a sorte,
e assim precisam viajar com destemor,
deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor.
A avezinha solitária, quase à morte,
encontra forças pra voar como um condor!
Talvez a busca de um destino nem lhe importe,
mas bate as asas com vontade e com vigor,
deixando os ares congelados lá do norte...
Nilza Azzi