Falsete
As aves em bando, as asinhas brancas...
Partida da tarde e nuvens cinzentas.
As manchas nos campos, já não são tantas;
os homens procuram sua querença.
Viver solitários nos é difícil,
nos vastos rincões, nos ermos perdidos,
coubessem na tarde, os sons; quanto ouvissem
poetas e musas, sábios, peritos.
E lá do outro lado, o mundo desperta,
em oposição ao tanto dormente;
de um lado se dorme, de outro se acorda.
A minha tristeza, a dor, é aquela,
que chega num susto, qual um falsete;
é apenas um erro e a vida é remota.
Nilza Azzi
Alternâncias
A vida não é pausa, é movimento –
veja a dança de Shiva, a respiração de Bhraman...
E quando um ser se esquiva do compasso,
estaciona.
O sucesso dos que amam
é saber recomeçar.
A cada abraço, a cada beijo,
um novo ensejo; não um fim,
mas recomeço.
A vida não é pausa, é movimento –
seja de sóis, planetas, ventos, águas...
E quando um ser se esquiva, perde o laço,
desmorona.
O fracasso de um viver
é não saber que a vida é essa.
A cada passo, a cada tombo,
não um fim, um novo avesso
pra desvirar.
A vida se renova em sucessão –
veja a dança de Shiva,
de Bhraman, a respiração.
Nilza Azzi
Simulação
Falar de amor, sem estar apaixonada;
de dor atroz, quando a vida me sorri...
Buscar certezas nos verbos de outra estrada;
ter sonhos maus, acordar feito um zumbi!
Viver os dias, saber que a alvorada
conduz à noite, ao crepúsculo rubi
e ao esvair-se, a visão atordoada,
reconhecer ter falhado... Não previ
que o meu fingir era falso. Ter assim,
a dor maior, esse espanto permanente,
sem compreender a razão de ser poeta...
E a uma só vez, nessa força que me afeta
tornar vazios os momentos do presente,
fazer chorar pelo amor longe de mim.
Nilza Azzi
Ave migratória
Deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor,
pequenas aves voam contra o vento forte;
vão para o sul, onde farão ninhos de amor.
Chegado o inverno há que partir, buscar a sorte,
e assim precisam viajar com destemor,
deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor.
A avezinha solitária, quase à morte,
encontra forças pra voar como um condor!
Talvez a busca de um destino nem lhe importe,
mas bate as asas com vontade e com vigor,
deixando os ares congelados lá do norte...
Nilza Azzi
Em tiras
Enchem os cestos
de tentativas desastradas
os papéis rasgados
Estímulos externos
conduzem a certezas
acredito que consigo
um bom trato com a palavra
mas não sigo nesse trilho
sei que é falta de juízo
A alma dilacerada
reconhece suas tiras
na lixeira insuficiente
Nilza Azzi
Cantilena campestre
toda vestida de azul ela caminha no sonho
não sei de quando desperta
nem do portal que transponho
na névoa desse luar, na poeira das estrelas
a palha do milho maduro, a terra cheirando a chuva
quem sabe de tal sonhar supõe que consegue vê-las
as promessas do futuro
a colheita de candeias
uma pequena andorinha, ao seu lado revoava
e nas mãos comer, lhe vinha
não! não era sua escrava
naqueles campos de milho, a luz da lua se espalha
nos caminhos por que trilho
todo o milharal farfalha
com o brilho das estrelas, por onde o sonho se escoa
polvilha as luzes mais belas e talha o céu de garoa
para ali os reis já vêm
buscando a presença atávica
a noite sabe a Belém
distante, mas sempre mágica
nilza azzi
Urano
Ó meu amado, o quanto espero ver teu rosto,
bem junto ao meu com terna sombra protetora;
ir por caminhos aos quais dantes nunca fora,
teu coração junto do meu e, justaposto,
de forma tal, que eu não me sinta pecadora,
pelo compasso irregular e tão oposto,
à tua calma compressão, ao antegosto
de passear-te pelos prados, tal pastora.
És para sempre a plenitude em minha vida,
longe de ti o mundo não ganha sentido;
a tua ausência faz de mim um ser disperso.
O beijo doce que conheço e não se olvida,
não encontrei em outra boca; é o preferido
e o meu prazer é do tamanho do Universo.
Nilza Azzi
Intensa
Eu sou assim, alguma coisa incerta:
a luz bruxuleante em alvoradas,
farol que em mar revolto a nau alerta
e tenho a intrepidez que desagrada.
Quisera ser mais sábia e mais esperta,
porém me sei um pouco desvairada;
nenhuma tentativa me conserta...
Sou floco de algodão, ou quase nada.
Sou peça que faz falta no teu mundo,
contudo, não me encaixo como queres.
Restaram-me as arestas barulhentas,
assim, minha presença, não aguentas!
Desejo nivelar-me a mais mulheres,
mas quanto mais eu subo, mais me afundo.
Nilza Azzi
Poesia, ah! que te quero!
Poesia assim me escapa
e me deixa triste e só...
Se a vida me desse um mapa
e todo esse rococó
tirasse do meu caminho,
quem sabe, minha Poesia,
eu soubesse o que é carinho;
m sabe a velha alegria
surgisse à frente primeiro,
nesse espaço em que me esgueiro...
Quando chega o desespero,
fujo às pressas, sem parar.
Mas às vezes o exagero
faz com que nos falte o ar;
Poesia, ah! que te quero,
nos sonhos de um mundo aberto!
Por ti eu falo e exagero
e luto por ti decerto.
Doce és tu, viva no sonho,
não nos versos que componho.
Há flores no teu caminho,
que não crescem para mim!
Por certo eu não adivinho
a direção do jardim,
onde vivem, sempre belas,
as ideias e as palavras;
onde não causem querelas;
já não sejam de outras lavras...
Poesia, ah! que te quero!
nesse meu verso sincero.
Nilza Azzi
Ressaca
Quando a saudade bate à minha porta
e os dias decrescentes, outonais,
são sucessivamente desiguais,
nenhuma distração me reconforta.
Indiscutivelmente não sei mais
porque já nesta vida pouco importa
se a linha do destino é reta ou torta;
viver na desventura é não ter paz.
As aves silenciam bem mais cedo
e mesmo quem, do escuro, não tem medo,
vacila quando o sol declina e some.
Se, à dor desse vazio, falta um nome,
o sentimento agudo que me ataca
semelha os vagalhões de uma ressaca.
Nilza Azzi