Lista de Poemas

Depressão


Meu soneto desbotou, perdeu a cor
e me conta que jamais falar de amor,
ele irá, pois não consegue ter mais força
e por mais que ele torça ou se retorça,

fica preso numa forma inconsequente,
na aspereza de uma rima repelente.
Como fosse um marginal posto de lado,
já não tem a mesma glória do passado.

Diz que vai fazer as malas e partir;
procurar por novos ares, vai fugir,
pois não quer saber de dor de sofrimento.

Eu lhe digo que isso é coisa do momento,
mas o pobre diz que não e, decidido,
parte mesmo e me deixa deprimido.

Nilza Azzi

 
38

Atirei um cravo n'água


Ando com mania de escrever versos para crianças
mas aquela linguagem simples e inocente me faz falta
ainda que um dia eu tenha sido a menininha que declamava versos
nas datas cívicas e em outras ocasiões
ainda que tantas vezes tenha subido ao palco de vestido branco
falta um "tantinho assim..." para que eu consiga tocar a pureza...
nunca chego até ela e sei que me escapou
ou terei me afastado dela porque tive o sonho de crescer
de fazer parte do mundo adulto onde há grandes pensadores
engodo traiçoeiro que atrai almas ingênuas
depois de ter cruzado o limiar que acolhe gente grande
escorrego na ilusão da nobreza e do altruísmo
sem jamais poder tocar os poderosos
ainda que não resvale no chão cheio de limbo
ainda assim, não quero chegar a descrever
as dores do eu aviltado
cresci, mas não sou grande o suficiente para isso
e os meus versos, ah!, os meus versos são arremedos inúteis
que não ganham prêmios, não recebem aplausos
porque trago na voz o azedume de um adulto
e a falsa educação de não dizer mais o que penso
sem meias palavras
sustentada apenas por cabelos cacheados
e um brilho nos olhos que mal descortinaram o mundo

Não sou mais uma criança e também não sou adulto
a alma veio das alturas, mas anda presa numa carcaça velha
embalagem que a desclassifica para as prateleiras da frente
para a verdade necessária e contundente
de que esse mundo ainda não foi bem sacudido
por tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas
ainda não foi bastante ameaçado por asteroides
e cometas vindos do espaço exterior
pelas explosões solares
e pelos desmandos dos homens sobre a Terra
por guerras atômicas e crianças famintas
pela desordem que melhor exporia a nossa pequenez

Então vago perdida pelos sentidos das palavras
sem encontrar um nexo e uma exatidão simples
o sentido da esperança para mim está perdido
na forma extrema de dolorosa e inexorável descrença

Salve, mestre Fernando Pessoa

Nilza Azzi
68

Falsete


As aves em bando, as asinhas brancas...
Partida da tarde e nuvens cinzentas.
As manchas nos campos, já não são tantas;
os homens procuram sua querença.

Viver solitários nos é difícil,
nos vastos rincões, nos ermos perdidos,
coubessem na tarde, os sons; quanto ouvissem
poetas e musas, sábios, peritos.

E lá do outro lado, o mundo desperta,
em oposição ao tanto dormente;
de um lado se dorme, de outro se acorda.

A minha tristeza, a dor, é aquela,
que chega num susto, qual um falsete;
é apenas um erro e a vida é remota.

Nilza Azzi
14

Urano


Ó meu amado, o quanto espero ver teu rosto,
bem junto ao meu com terna sombra protetora;
ir por caminhos aos quais dantes nunca fora,
teu coração junto do meu e, justaposto,

de forma tal, que eu não me sinta pecadora,
pelo compasso irregular e tão oposto,
à tua calma compressão, ao antegosto
de passear-te pelos prados, tal pastora.

És para sempre a plenitude em minha vida,
longe de ti o mundo não ganha sentido;
a tua ausência faz de mim um ser disperso.

O beijo doce que conheço e não se olvida,
não encontrei em outra boca; é o preferido
e o meu prazer é do tamanho do Universo.

Nilza Azzi
39

Iniciação


És tu mulher, a guardiã desse portal invisível,
aquele que há tanto tempo procuro nos cantos,
nas ruelas, nas travessas e alamedas, sem mesmo
refletir sobre o cansaço dos meus verbos,
a deusa metamórfica do sentido latente.
Sem ter a permissão, invado o átrio e peco
contra a tua intimidade, a vasculhar além
dos teus segredos, nas dobras paralelas.
A ousadia é armadilha, veja o espelho de Hércules
que aponta para a Medusa vencida. A conclusão das formas,
o poema a exasperar a instável perfeição,
segues correta, enquanto o ávido, inábil ser que sou,
escapa pelas linhas pontuadas de todos os sentidos do teu ser.

Nilza Azzi
45

Simulação


Falar de amor, sem estar apaixonada;
de dor atroz, quando a vida me sorri...
Buscar certezas nos verbos de outra estrada;
ter sonhos maus, acordar feito um zumbi!

Viver os dias, saber que a alvorada
conduz à noite, ao crepúsculo rubi
e ao esvair-se, a visão atordoada,
reconhecer ter falhado... Não previ

que o meu fingir era falso. Ter assim,
a dor maior, esse espanto permanente,
sem compreender a razão de ser poeta...

E a uma só vez, nessa força que me afeta
tornar vazios os momentos do presente,
fazer chorar pelo amor longe de mim.

Nilza Azzi
39

Vácuo


Momentos em que alma vive estranha, 
aqueles sem o som de um mar de rosas, 
distante de outras horas venturosas; 
momentos em que luta, perde, apanha. 

Desastres naturais – porque curiosas 
são sempre as situações em que se acanha, 
enquanto o vergonhoso da façanha, 
resvala da poesia para a prosa. 

É vácuo, tão feroz em seu abalo, 
a força deste embate, enquanto calo 
o espanto de viver sem esperança.   

É, sim, um vento frio. Ele resseca 
os olhos que se voltam para Meca. 
A alma, mesmo morta, não descansa. 

Nilza Azzi
30

Intensa


Eu sou assim, alguma coisa incerta:
a luz bruxuleante em alvoradas,
farol que em mar revolto a nau alerta
e tenho a intrepidez que desagrada.

Quisera ser mais sábia e mais esperta,
porém me sei um pouco desvairada;
nenhuma tentativa me conserta...
Sou floco de algodão, ou quase nada.

Sou peça que faz falta no teu mundo,
contudo, não me encaixo como queres.
Restaram-me as arestas barulhentas,

assim, minha presença, não aguentas!
Desejo nivelar-me a mais mulheres,
mas quanto mais eu subo, mais me afundo.

Nilza Azzi
29

Atraso


Não morro de amores por fogo em floresta,
por ave em gaiola, por tudo que agrida
e, menos ainda, por tudo que empesta
o mundo animal destruindo-lhe a vida.

Não morro de amores por fato homicida,
por ignorância, por tudo que gesta
ausência de paz e esperança na vida;
por tudo que é guerra, essa coisa funesta.

Porém o que dói, em minh’alma, bem fundo,
decerto é tortura, em qualquer situação,
fazendo morrer o sorriso em meus lábios.

Provoca revolta, esse horror oriundo
de seres brutais que atrasados estão
bem longe da luz elevada dos sábios.

Nilza Azzi
23

sons da noite


As notas soam claras
a noite vai errante
a musica preenche
a mente em seu vazio

A dor e a solidão
são pretextos falsos
escorrem livremente
as lágrimas guardadas

A realidade avança
e zumbe nos ouvidos
perfeita expressão
de isolamento extenso

Se o mundo é só espanto
a próxima estação
vai ser uma parada
difícil de encarar

Nilza Azzi
43

Comentários (4)

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petrillipoesia

Belos sonetos!

sergios

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!