Tambor
Levado pelas águas de um riacho,
um seixo foi rolando serra abaixo
e quanto mais rolava, mais polia
a sua superfície lisa e fria.
Cristal, rico em rutilos cintilantes,
um dia se enroscou, não foi adiante,
e ali perdido em meio a tantas pedras,
quedou-se a meditar em suas quedas.
E havia no riacho quem olhasse
o seixo e reparasse em suas faces,
na forma de aparência estranha e rara.
Porém novo destino se escancara,
depois de ser colhido numa enchente
que o pôs em movimento novamente.
Nilza Azzi
Oscilações
Chegou um dia à ilha da Incerteza,
navegador versado em sete mares.
Ao percorrer a praia achou belezas,
nenhuma, não, prendia os seus olhares!
No alto de um outeiro, uma princesa
tecia um véu de cores estelares.
Nas teias que sustinha a alma acesa,
adormecia em dúplices lugares.
Não era o navegante um mau sujeito,
nem era a tal princesa um sonho bom;
em tudo estava inserto um outro tom.
Se o sonho da princesa era perfeito,
vivia o bom marujo em desventura,
na dor de um desviver que não se cura.
Nilza Azzi
Boneca de trapos
Quando um dia eu acordei,
sem inda saber quem era,
ao meu lado imaginei
as flores, a primavera...
Mas alguém sorriu e disse:
-Vejam só que bonitinha!
E se esse alguém não sorrisse,
como saber de onde eu vinha?
Nas mãos que ali me tomaram,
já me vendo à luz do sol,
entendi que me fizeram
com tiras de algum lençol.
Uma boneca de trapos,
– cada um tem uma história –
para alguns os grandes atos,
para outros, menor glória.
Minha vida de boneca
era inteira e bem feliz,
mas me usaram de peteca;
não fui eu quem assim quis.
Depois de despedaçada,
perdi todo o meu valor.
Hoje não me sobra nada
e vivo só, sem amor.
Nilza Azzi
A força
Ela é a força forte que penetra,
com seu falo de luz, serpente alada ,
a caverna matriz, fonte secreta:
luz e sombra são senha nessa entrada.
No mistério do caos, da vida asceta,
brilha a luz, um prenúncio da alvorada;
o princípio de tudo que decreta:
a criação jamais virá do nada.
Mas que não seja a luz jamais direta
e sua força, a força de uma espada,
não se evada naquilo que secreta
da fonte escura, em luz escalonada.
Tal disciplina exige a dura estrada
e no saber, contido nesta meta,
não seja o orgulho a busca malfadada,
e sim a vida, a escolha predileta.
Nilza Azzi
Reserva especial
A vindima perfumada
de estrutura poderosa
faz lembrar meu namorado
vindo das terras vulcânicas
a um tempo ácido e seco
com seus toques sensoriais
vinho claro mas seguro
que sabe à uva e ao mar
Nilza Azzi
Nas bolhas desse vácuo
Há calma. E se nenhuma ave canta
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto:
perdeu-se a voz do amor. Que então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz, que incauto inda procuro,
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
A um professor
Quando eu crescer, quero ser professor,
como você, de uma classe repleta...
Pelas crianças, fazer o que for,
pois através da esperança e da meta,
elevaremos o nosso futuro.
Melhores rumos daremos ao mundo,
quando encontrarmos um meio seguro
de formação, de um saber mais profundo.
Quando eu crescer, também quero ensinar,
essa é a frase que espero ecoar
nos corredores de nossas escolas.
Com alegria, os alunos, gabolas,
seguindo exemplo concreto e cabal,
tomar seus mestres por seu Ideal.
Nilza Azzi
Querendo dizer que eu te amo
Se eu acreditasse no amor,
não perderia esta chance,
única ao meu alcance de dizer-te
no poema do momento,
sobre um simples sentimento: "‒ Eu te amo!"
Mas não sei escrever poemas de amor;
e, dilema, nem mesmo sei escrever um poema:
às vezes, um ou outro verso me descreve.
Se agora é o momento, breve, de revelar o amor,
sinto-me tentada a dizer teu nome,
mas a coragem logo some
e me vejo tola.
E já não me consola a certeza do sentir;
e me cabe trilhar as entrelinhas,
a te escrever sem nexo, o que nem é verdade.
Mas sinto uma saudade de quando estás comigo:
o abrigo de um abraço costumeiro e forte,
o alívio do cansaço de viver, quem sabe,
a estranha inquietude dessa falta de esperança,
a dança dessas horas inconstantes,
as relevantes flores sem perfume,
o lume tão mortiço,
os campos que perderam viço
e a lua prisioneira de um escuro...
A falta de futuro, o insípido passado,
não sabem se de amor
um dia eu hei falado.
Nilza Azzi
Estranha
A rima fácil, eis a tentação,
falácia traiçoeira, assim concluo.
Palavras escorregam pelo vão
dos vagos pensamentos, um recuo
da forma que não tem explicação.
Quem quer o bom labor rejeita o duo,
no fluxo perfeito e sem senão
da estranha poesia em que flutuo.
Há algo, no meu imo, que incomoda
e busca certo alívio por caminhos,
desvios de uma estrada clara e ampla.
Na luta por livrar-me desta roda,
a alma parte em busca de moinhos
e o verso perde o brilho e já descamba.
Nilza Azzi
Corpos
Uma estrada começa e termina,
ou emenda e assim vai embora.
Uma rua se dobra na esquina;
o horizonte, essa quebra devora.
Com estradas se faz uma rede
que se espalha por todo lugar.
Se uma rua termina em parede,
é preciso virar e voltar...
Essa estrada infinita que eu sigo
é teu corpo, o caminho, a viagem
que me leva aos confins do meu ser;
é o espaço que pode conter
nossas almas enquanto interagem,
pela carne, na qual têm abrigo.
Nilza Azzi