Iniciação
És tu mulher, a guardiã desse portal invisível,
aquele que há tanto tempo procuro nos cantos,
nas ruelas, nas travessas e alamedas, sem mesmo
refletir sobre o cansaço dos meus verbos,
a deusa metamórfica do sentido latente.
Sem ter a permissão, invado o átrio e peco
contra a tua intimidade, a vasculhar além
dos teus segredos, nas dobras paralelas.
A ousadia é armadilha, veja o espelho de Hércules
que aponta para a Medusa vencida. A conclusão das formas,
o poema a exasperar a instável perfeição,
segues correta, enquanto o ávido, inábil ser que sou,
escapa pelas linhas pontuadas de todos os sentidos do teu ser.
Nilza Azzi
Noturno
Estrelas desse céu que, sobre mim,
derramam influências tão sutis,
valei-me pelas preces que não fiz,
poupai-me de viver tão triste assim.
Se tudo sobre a terra tem um fim,
(e nada que eu conheça o contradiz)
livrai-me do impossível, outrossim.
Estrelas merencórias do meu sonho,
não posso confessar que me envergonho
de amar com tal paixão – não por enquanto!
E o céu, que a tudo abarca em sua luz,
conclama a não querer o amor – não tanto –
mas ele é o vencedor que me seduz...
Nilza Azzi
sons da noite
As notas soam claras
a noite vai errante
a musica preenche
a mente em seu vazio
A dor e a solidão
são pretextos falsos
escorrem livremente
as lágrimas guardadas
A realidade avança
e zumbe nos ouvidos
perfeita expressão
de isolamento extenso
Se o mundo é só espanto
a próxima estação
vai ser uma parada
difícil de encarar
Nilza Azzi
Atraso
Não morro de amores por fogo em floresta,
por ave em gaiola, por tudo que agrida
e, menos ainda, por tudo que empesta
o mundo animal destruindo-lhe a vida.
Não morro de amores por fato homicida,
por ignorância, por tudo que gesta
ausência de paz e esperança na vida;
por tudo que é guerra, essa coisa funesta.
Porém o que dói, em minh’alma, bem fundo,
decerto é tortura, em qualquer situação,
fazendo morrer o sorriso em meus lábios.
Provoca revolta, esse horror oriundo
de seres brutais que atrasados estão
bem longe da luz elevada dos sábios.
Nilza Azzi
Vácuo
Momentos em que alma vive estranha,
aqueles sem o som de um mar de rosas,
distante de outras horas venturosas;
momentos em que luta, perde, apanha.
Desastres naturais – porque curiosas
são sempre as situações em que se acanha,
enquanto o vergonhoso da façanha,
resvala da poesia para a prosa.
É vácuo, tão feroz em seu abalo,
a força deste embate, enquanto calo
o espanto de viver sem esperança.
É, sim, um vento frio. Ele resseca
os olhos que se voltam para Meca.
A alma, mesmo morta, não descansa.
Nilza Azzi
História pequena
Os olhos da velha chinesa,
nos campos de arroz, ancestrais,
têm alma que à terra está presa,
além dos limites da paz...
Atrás do horizonte dos olhos,
nascido de um Sol emergente,
encontram-se, dobram-se os polos
– a vida – calvário dos crentes.
O mundo contido no espaço,
alcance interior da visão,
estende as cortinas – colapso –
o escuro, onde as dores não são.
Os olhos da velha chinesa
esticam as cordas dos sonhos.
Constroem a cena indefesa;
são tela de filmes tristonhos.
Nilza Azzi
A um professor
Quando eu crescer, quero ser professor,
como você, de uma classe repleta...
Pelas crianças, fazer o que for,
pois através da esperança e da meta,
elevaremos o nosso futuro.
Melhores rumos daremos ao mundo,
quando encontrarmos um meio seguro
de formação, de um saber mais profundo.
Quando eu crescer, também quero ensinar,
essa é a frase que espero ecoar
nos corredores de nossas escolas.
Com alegria, os alunos, gabolas,
seguindo exemplo concreto e cabal,
tomar seus mestres por seu Ideal.
Nilza Azzi
Pé de couve
Fiz um plano de amor para nós dois,
mas depois percebi que houvera engano;
decidi que plantar um pé de couve
ia dar algum lucro e tive fé...
Mas não é que ele vive bem viçoso
e formoso nas folhas verdejantes?
Dá-me instantes de ação, enquanto cuido
de evitar os pulgões co’a água de fumo.
E consumo uma folha aqui e ali,
pra manter essa planta vigorosa,
já que rosa não serve de alimento.
No momento, conservo a minha escolha!
Fico aqui e, se tanta é minha dor,
meu amor, ao olhar-me, ri feliz...
Nilza Azzi
Reserva especial
A vindima perfumada
de estrutura poderosa
faz lembrar meu namorado
vindo das terras vulcânicas
a um tempo ácido e seco
com seus toques sensoriais
vinho claro mas seguro
que sabe à uva e ao mar
Nilza Azzi
Nas bolhas desse vácuo
Há calma. E se nenhuma ave canta
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto:
perdeu-se a voz do amor. Que então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz, que incauto inda procuro,
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi