Intervalo
Na cozinha escura
contra o vidro picotado
dançam as folhas da schefflera
ao sabor do vento noturno.
Um jogo de contrastes
entre as cores da luz de rua
chegando quase ao sépia
e a iluminação doméstica
de um branco azulado
alterna-se no cintilar do cristal.
O quadro vivo e mutante
convida o olhar ausente
a beber da poesia.
Nilza Azzi
Mistura apreciável
A Lua que passeia pela estrada
qual fada com varinha de condão
no chão deixa pegadas luminosas
e a rosas ganham cores momentâneas.
O Sol que ferve a areia do deserto
decerto faz viver as criaturas
promove uma mistura apreciável
a vida ainda mantém o seu recado.
Ao lado o mar recua e ainda avança
a dança das certezas mais quiméricas
acesas vão estrelas pelo cosmos.
A foz nos diz que o rio um dia acaba
a taba ainda existe alegórica
em triste fragmento de incertezas.
Nilza Azzi
Ocupação
Há sempre um embate
entre o traço e o espaço
cada movimento
sobre o papel, a tela
requer o direito
da apropriação.
nilza azzi
Descompasso
Na Via-Láctea, ela é apenas um pontinho
entre os zilhões de corpos no vazio do Espaço.
Ao contemplá-la, deste modo, eu adivinho:
o ser humano que ali vive é tolo e lasso.
Não foi capaz de conservá-la, em bom compasso,
e do ambiente, só retira, comezinho,
por egoísmo e interesse, um erro crasso,
na exploração, sempre quer mais um bocadinho.
Entre os segredos que carrega inda consigo,
ela revela pouco a pouco do perigo,
das atitudes predatórias, tão marcantes.
Um dia, a calma do planeta irá cessar
e as aflições, pelo calor que está no ar,
farão lembrar da inconsequência que houve antes.
Nilza Azzi
Desenhos do vapor
Era dessas sextas-feiras
meio frias, meio mortas
em que se fecham as portas
para as nossas alegrias
em que as ruas nos parecem mais vazias
e a alma inteira se resfria
Era um dia desses
de chegar em casa e fazer escalda-pés
de tomar um chocolate quente
e distrair a mente
nos desenhos do vapor
Daqueles em que nenhum cobertor
aquece a carcaça dolorida
ou te faz esquecer de quem és
Nilza Azzi
Recursos
Se contemplo um jardim silvestre,
vejo que a natureza escolhe,
entre todas as variedades,
aquelas que crescem melhor,
no microclima, em certo espaço,
sem que seja mister regá-las;
no mundo da tecnologia,
tudo pode ser adaptado,
segundo a vontade agilize,
até a muda mais pixilinga,
co'adubo certo cresce, vinga.
Nilza Azzi
Entremeios
se ao romper a teia fina
dos campos do silêncio
– o limbo eterno das palavras –
pudesse tocar-te a alma
e na névoa do sonho
a brancura fosse azul
os horizontes palpáveis
pela verdade sem limites
de amanheceres claros
com seus começos de dizer
sobre a inútil direção do destino
entregue aos vãos do precipício...
se por um quase
tudo fugisse ao fim previsto
e a sensação de luz
fosse romper escuros
– nada mais que um fóton –
a voz seria espelho do vazio.
Nilza Azzi
Cena
A visão alada
sempre vale a pena
pois o toque da pluma
(um quase nada)
diz do desejo
de possuir a leveza
a natureza da ave
Pele e pena
demoram-se juntas
transpõem os limites
entre o ser e o lá fora.
Nilza Azzi
Em foco
Ela
era descarada
nada temia
tudo enfrentava
e ousadia
era seu lema
Quando era sua vez
subia ao palco
e brilhava
sempre audaz
no mundo vogava
Mas ela era também tímida
receosa e tão pequena
por vezes vibrava num tom tão baixo
quase cinza de um poema
nilza azzi
Destas e de outras
Destas e de outras sombras desespero:
quero ter comigo a dor que menos doa.
Quem vai perceber que a vida vai-se embora?
Vem! Comigo chora
e que não seja à toa.
Destas e de outras lágrimas não falo!
Corre o longo inverno... Súbita garoa.
Foi-se a ilusão e nada é mais, sincero;
mesmo assim espero
um som que não ressoa...
Destas e de outras lembro as despedidas;
da dor que existe em mim, nada mais destoa.
Na máscara a impressão de algo a resguardar-se
– e o rubor da face
diz que não sou boa.
Nilza Azzi