Lista de Poemas
Pretexto
Eu me envolvi nesse sonho
e quis fugir, mas ão pude.
Vi teu semblante risonho;
minha'alma assim não se ilude.
Desisto e fico tristonho;
não posso ver-te amiúde...
Meu pranto é forte, medonho;
não encontro a plenitude.
Se ao amor eu não me oponho,
por que comigo és tão rude?
Mil barreiras eu transponho
numa estranha quietude;
de um modo tão enfadonho,
foi-se a minha juventude.
Nilza Azzi
39
Corpo de mulher
Em teu corpo, ó mulher,
há um segredo guardado.
É segredo e quem quiser
desvendá-lo sai logrado.
Não existe corpo feio,
sempre há algo a realçar,
o colo, a curva do seio,
cabelos, boca e olhar.
Aquela que assim se entende
sabe bem o que lhe vale,
se é o modo como prende
o cabelo, ou como fale,
sorria, vista, caminhe,
deixe os pés em evidência,
as mãos sobre o peito aninhe,
ou olhe com displicência
as unhas, enquanto alisa
uma mecha do cabelo
e de forma bem precisa
realça seu tornozelo.
Cada mulher é um mistério
único, doce, indiviso.
Conhecê-la é assunto sério,
mas arriscar-se é preciso.
Um mistério desvendado
perde a graça e o encanto,
então mantenha o cuidado;
haja o esforço, mas não tanto...
Nilza Azzi
64
Migalhas
A insipidez dos nossos dias,
um mundo em chamas deslocou
e foi assim que eu me atrevi
a descobrir quem não mais sou:
não sou migalha do que cismo,
nem a cascata sobre o abismo;
poeira à luz de uma esperança,
talvez a fome de entender
na solidão, a esmola vã
de ter sonhado, em juventude,
que a vida é paz e plenitude.
Nilza Azzi
24
Madrigal de primavera
Chegou a primavera e tudo refloresce,
espalha pelo ar um gosto quente e doce.
O azul está brilhante; a cor do céu impôs-se!
A natureza vibra e a alma fica em prece:
há movimento e ardor, até quando anoitece.
Em tudo há pulsação, assim como se fosse
o início, a Criação, a forma que em si trouxe
estados de prazer, certezas e esperança...
Sempre a renovação − a vida não descansa!
A luz viés que incide e brilha onde alcança,
revela em variação matizes pelos prados.
Há flores em ciranda, há aves em seus ninhos,
é tempo para o amor, é tempo de bonança.
Nilza Azzi
55
Bijuteria
guardei teu olhar
na caixinha de música
junto com a bailarina
nas contas do colar
na dança inesquecível
tamara trevi
28
Ver de ver
Os homens sem dever
avançam o sinal
andam na contramão
porque verdes são as matas
e verdinhas são as notas
...um jeitinho ver de perto
um verde sem esperança
verde ver de ver de ver de ver
Nilza Azzi
53
Regata
A água mais pura despenca da altura,
descendo em cascata, no meio da mata.
Foi grande a bravura (ninguém a mensura)
de quem faz regata, é melhor, desempata.
Ao longe a figura, que os remos segura,
veloz acrobata que a equipe contrata,
retoma a postura, espreita a ventura;
tal aristocrata, descobre a bravata.
Envolto na luta, com garra disputa
com adversários os meios contrários
das águas barrentas e bem turbulentas.
A visão arguta, atento ele escuta
ruídos tão vários, lembrando estuários
e ondas violentas atingem-lhe as ventas.
Nilza Azzi
29
Sufoco
Ontem, à tarde, quando me deixaste,
e seguiste seguro pra bem longe,
meu coração partiu-se qual semente,
a lançar longe de si novas raízes.
Depois, a noite veio embrutecer-me,
envolver-me em torpor, em manto escuro.
E vivi na distância, nesse exílio,
sem saber de horizontes, de clareiras.
Quantos dias terei com clara angústia,
com dores e incertezas, com desgosto?
Ó pedaço de mim, da minha essência,
ó vontade cruel de poder mais!
Foste o centro do bosque, a árvore firme,
ao redor da qual frutificava
a riqueza, o verdor, a mata viva.
Antevejo os tempos de deserto
e lamento que não mais estejas perto.
Nilza Azzi
92
Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
nilza azzi
14
Guerra secreta
Feroz, esse gelar que sinto agora,
pensando no passado, o tempo ausente,
perdeu-se a vibração e a dor devora;
adiante a solidão já se pressente.
Só finjo que não sinto nada, embora
me custe constatar o quanto é breve
a paz da criatura, enquanto chora.
Entendo que chorar não mais se deve.
Inferno que nos traz a despedida,
o tom da desolada paisagem,
perturba a minha alma combalida
e os meus parcos neurônios não reagem,
nem mesmo se a esperança me convida
a ser mais otimista... Que bobagem!
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!