Espanto
Havia luz, havia o céu – antes o Caos...
Era silêncio e o Verbo estava bem ali,
pelo poder que só detém o Todo em Si,
havia os anjos bons, havia os anjos maus.
Havia cor, nas mãos de Deus, e foi dali
que o verde mar Ele criou e fez o sal,
e fez azul o globo inteiro, imemorial,
em água e ar, a clara nuvem de organdi.
Era o momento além do espaço, antes da Terra
achar a Lua, achar o Sol, girar no espaço;
antes de haver o mal no mundo e a solidão...
Era bem mais além da espera, quando então,
de uma explosão, voou por tudo, um estilhaço,
fazendo crer que a dor do caos nunca se encerra.
Nilza Azzi
24 de maio
Ainda lembro daquele ensaio,
a nossa festa era virtual.
Como esquecer, num dia de maio,
esta amizade, que é sem igual?
Querido amigo, eu te distraía,
da tal tristeza em que tu vivias...
Que lá do céu venha neste dia,
penca de bênçãos e de alegrias!
Os tempos hoje são mais amenos;
isso permite que nós brinquemos
com a franqueza gratificante.
Desejo a ti uma longa vida
e, pela data que é tão querida,
meus parabéns, digo neste instante.
Nilza Azzi
Desencontro
quando o teu olhar buscava o Sol
o meu se imiscuia nos raios da Lua
nascente numa clareira de prata
desfiz a rota da magia do tempo
te alinhaste com a direção do vento
o outono foi quente e seco
meu avião já levantara voo
e mal chegavas ao aeroporto
tamara trevi
Lírios
O luar ilumina os lindos lírios,
pelos campos pálidos espalhados.
Só a lua sabe sobre os meus martíros
e os lírios levam longe os meros fados.
Um azul, profundo anil, no céu cintila...
O verso lido, lembro ainda era famoso
e lembrava a lucidez que se destila,
superando o sentimento animoso.
Nilza Azzi
Madrigal de primavera
Chegou a primavera e tudo refloresce,
espalha pelo ar um gosto quente e doce.
O azul está brilhante; a cor do céu impôs-se!
A natureza vibra e a alma fica em prece:
há movimento e ardor, até quando anoitece.
Em tudo há pulsação, assim como se fosse
o início, a Criação, a forma que em si trouxe
estados de prazer, certezas e esperança...
Sempre a renovação − a vida não descansa!
A luz viés que incide e brilha onde alcança,
revela em variação matizes pelos prados.
Há flores em ciranda, há aves em seus ninhos,
é tempo para o amor, é tempo de bonança.
Nilza Azzi
Fonte
o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!
o meu desejo por você
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...
então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.
em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.
sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!
nilza azzi
Migalhas
A insipidez dos nossos dias,
um mundo em chamas deslocou
e foi assim que eu me atrevi
a descobrir quem não mais sou:
não sou migalha do que cismo,
nem a cascata sobre o abismo;
poeira à luz de uma esperança,
talvez a fome de entender
na solidão, a esmola vã
de ter sonhado, em juventude,
que a vida é paz e plenitude.
Nilza Azzi
Inspiração
Evasiva e fugaz
saindo pela tangente
desemboca na secante
um aceno dispensa
Lírica dedilha a lira
escapa em cada nota
foge pelo rodapé
Rastro meteorítico
em fagulhas transitórias
das vertentes impulsivas
nilza azzi
Regata
A água mais pura despenca da altura,
descendo em cascata, no meio da mata.
Foi grande a bravura (ninguém a mensura)
de quem faz regata, é melhor, desempata.
Ao longe a figura, que os remos segura,
veloz acrobata que a equipe contrata,
retoma a postura, espreita a ventura;
tal aristocrata, descobre a bravata.
Envolto na luta, com garra disputa
com adversários os meios contrários
das águas barrentas e bem turbulentas.
A visão arguta, atento ele escuta
ruídos tão vários, lembrando estuários
e ondas violentas atingem-lhe as ventas.
Nilza Azzi
Sufoco
Ontem, à tarde, quando me deixaste,
e seguiste seguro pra bem longe,
meu coração partiu-se qual semente,
a lançar longe de si novas raízes.
Depois, a noite veio embrutecer-me,
envolver-me em torpor, em manto escuro.
E vivi na distância, nesse exílio,
sem saber de horizontes, de clareiras.
Quantos dias terei com clara angústia,
com dores e incertezas, com desgosto?
Ó pedaço de mim, da minha essência,
ó vontade cruel de poder mais!
Foste o centro do bosque, a árvore firme,
ao redor da qual frutificava
a riqueza, o verdor, a mata viva.
Antevejo os tempos de deserto
e lamento que não mais estejas perto.
Nilza Azzi