Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

611

24 de maio


Ainda lembro daquele ensaio, 
a nossa festa era virtual.
Como esquecer, num dia de maio, 
esta amizade, que é sem igual?

Querido amigo, eu te distraía,
da tal tristeza em que tu vivias...
Que lá do céu venha neste dia,
penca de bênçãos e de alegrias!

Os tempos hoje são mais amenos;
isso permite que nós brinquemos
com a franqueza gratificante.

Desejo a ti uma longa vida
e, pela data que é tão querida,
meus parabéns, digo neste instante.

Nilza Azzi
48

Madrigal de primavera


Chegou a primavera e tudo refloresce,
espalha pelo ar um gosto quente e doce.
O azul está brilhante; a cor do céu impôs-se!

A natureza vibra e a alma fica em prece:
há movimento e ardor, até quando anoitece.
Em tudo há pulsação, assim como se fosse

o início, a Criação, a forma que em si trouxe
estados de prazer, certezas e esperança...
Sempre a renovação − a vida não descansa!

A luz viés que incide e brilha onde alcança,
revela em variação matizes pelos prados.

Há flores em ciranda, há aves em seus ninhos,
é tempo para o amor, é tempo de bonança.

Nilza Azzi
65

Ver de ver


Os homens sem dever 
avançam o sinal
andam na contramão 
porque verdes são as matas 
e verdinhas são as notas 
...um jeitinho ver de perto 
um verde sem esperança 
verde ver de ver de ver de ver 

Nilza Azzi

63

Fonte


o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!

o meu desejo por você 
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...

então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.

em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única 
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.

sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!

nilza azzi

 

 

24

Bijuteria


guardei teu olhar
na caixinha de música
junto com a bailarina
nas contas do colar
na dança inesquecível

tamara trevi
37

Tributo ao poeta


É doce a canção que compões, ó Poeta,
Revive momentos alegres, liberta,
é tal a emoção que transmites e enfim,

um clima de grande esplendor, um festim,

aquece meu mundo, tão triste, tão frio.
De um sol jubiloso, teu brilho de estio
desfruto encantada, mas nada me deves,
a ler os poemas, que acabam, são breves,

a ouvir, extasiada, tal sons de um arpejo.
Num mundo de sonho e magia, antevejo,
as formas, beleza sem tempo e lugar,

provocam deleite, é mister confessar:
palavras flutuam e bailam tão leves;

é doce esse encanto de ler o que escreves...

(se você teve a gentileza de ler até o fim, leia agora de baixo para cima...)

Nilza Azzi
59

A tal felicidade


então surgiu no ar
de forma inusitada
um jeito bem real
de ser e cativar
de semear a luz
no meu caminho
mais flores
nos canteiros da poesia

pintou  um céu tranquilo e tão azul
depois, bem devagar
pisou na minha estrada
mostrou-me que a certeza é fruto da ilusão
pediu ao coração que fosse verdadeiro
contou tantas verdades escondidas

mudou a minha vida, fez-me assim
na sua ausência achar o mundo sem sentido

um dia sem que percebesse
estava do outro lado
seguira pela trilha
que o destino traça
e fui quase sem jeito
a reparar o laço
o elo que surgira
sem nenhum aviso

a tal felicidade
é uma coisa imensa
ninguém pode entender
porque não é eterna

os sentimentos
juntam tantos planos
mas o amor é areia fina
das mãos escorre e logo termina

nilza azzi

 
62

Guerra secreta


Feroz, esse gelar que sinto agora,
pensando no passado, o tempo ausente,
perdeu-se a vibração e a dor devora;
adiante a solidão já se pressente.

Só finjo que não sinto nada, embora
me custe constatar o quanto é breve
a paz da criatura, enquanto chora.
Entendo que chorar não mais se deve.

Inferno que nos traz a despedida,
o tom da desolada paisagem,
perturba a minha alma combalida

e os meus parcos neurônios não reagem,
nem mesmo se a esperança me convida
a ser mais otimista... Que bobagem!

Nilza Azzi
49

Sufoco


Ontem, à tarde, quando me deixaste,
e seguiste seguro pra bem longe,
meu coração partiu-se qual semente,
a lançar longe de si novas raízes.
Depois, a noite veio embrutecer-me,
envolver-me em torpor, em manto escuro.
E vivi na distância, nesse exílio,
sem saber de horizontes, de clareiras.

Quantos dias terei com clara angústia,
com dores e incertezas, com desgosto?

Ó pedaço de mim, da minha essência, 
ó vontade cruel de poder mais! 

Foste o centro do bosque, a árvore firme,
ao redor da qual frutificava
a riqueza, o verdor, a mata viva.
Antevejo os tempos de deserto 
e lamento que não mais estejas perto.

Nilza Azzi
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Bem-entendido


Quero fazer amor, mas ele se recusa,
Não quer saber de mim e fico a ver navios,
Se vira pr’outro lado e sinto-me obtusa.
Não sou tão atraente e os beijos vêm tardios!

Se existe indiferença, é dela que ele abusa,
repele o meu desejo e sobram-me vazios...
Sou pobre e sem valor e já não sou a musa
E não há mais fervor, naqueles olhos frios.

Não sei que vou fazer! Não sei de outra saída!
Cada vez mais estou tristonha e retraída;
sou toda devoção, mas perco minha vez.

Deixou-me o tal amanta em busca da palavra,
mas nada eu encontrei, no campo em que se lavra,
um divinal soneto, entendam-me vocês...

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!