Lista de Poemas
Nos olhos...
Nos olhos do meu amor
duas lágrimas brilharam...
Teu cheiro de água de flor:
nossas bocas se encontraram.
Nilza Azzi
48
Dizem
Hoje dizem que poesia é isso
um fluxo de pensamento
sem amarras
uma explosão de sons
uma corrente calma
sem a história errante de um amor perdido
uma questão engajada
Hoje dizem que a poesia é livre
e perambula solta pelas linhas
sem aceitar medidas coercitivas
alucinante desde o festival de Verão
Nasça ela do coração ou da mente
deve crescer sem freios
explorar formas desavisadas
esmiuçar as novas propostas
rolar como a água entre as pedras
versar um conteúdo insípido
mas que possa embeber as pautas e suprimir delírios
Hoje dizem que a poesia esperta é moderna
não quer saber da fonte em que nasceu
de onde bebeu a lírica selvagem
e transformou a imagem para sempre
não quer a teoria necessária
a prova de toque da pureza
serve a si mesma e a seu poeta
Cansada dos rigores das escolas
dizem ter ela incitado um movimento
murmuram que partiu
achou em Safo a voz tão procurada
Dizem que inventa a si mesma a cada verso
e isso basta
Mas eu que sigo a regra empedernida
e vi valor nas vozes dos meus mestres
acredito no ritmo e na rima confortando meus ouvidos
nessa ilusão em contraponto à lucidez
uma artimanha para expor-me à verdade
Hoje dizem que já não sou poeta
dizem que repito a mim mesma a cada verso
e isso não basta
Nilza Azzi
48
Doces lembranças
Quando o dia começa, inda bem cedo,
e atravessa a cortina do teu quarto,
entra um raio de sol que, quase a medo,
vem beijar o teu corpo lasso. E, farto
dos prazeres da noite, nas texturas
dos lençóis, tu repousas as mãos puras
contra o peito, num gesto de abandono.
Ao teu lado, com medo de acordar-te,
meu olhar te contempla, mas destarte,
quando lembro teu beijo, eu me apaixono.
Nilza Azzi
55
Descrição
Tinha a cor do trigo maduro,
nos cabelos longos e lisos,
na pele a textura das sedas,
ao caminhar, um porte altivo;
do futuro, não tinha medo,
ao presente nenhum apego:
toda manhã, ao acordar,
sentia uma angústia forte, intensa,
(nada de mal, porém, sonhara)
no coração de mel em chamas,
o velho medo e as mesmas tramas.
Nilza Azzi #retranca
19
Dia de chuva
Quatro gatinhos na janela
olham a rua muito atentos,
mas a menina tagarela
não quer conversa com ninguém;
hoje choveu e não há jeito
de ela fazer o seu passeio,
pois vem a enxurrada e traz lama,
e a garotinha fica triste,
por não poder correr na grama:
lá fora chove em profusão
e a tal menina chora em vão.
Nilza Azzi #retranca
32
Fim
A vida me tem golpeado, e não pouco,
pareço a bigorna nas mãos do ferreiro.
A alma ferida ressente o braseiro,
bem sei que este mundo está velho, está louco
e nada é eterno, a tristeza tampouco,
porém mal consigo parar de chorar
– a velha saudade não quer me largar!
Enquanto as imbuias prateiam a serra
e o meu pensamento essa névoa descerra,
revivo o meu sonho na beira do mar.
A dor que me habita resiste ao meu grito,
pois ela não sabe que sou resiliente
e tenho o controle perfeito da mente.
Assim, eu espero por tempo infinito;
na luta sem fim, sou fiel, acredito,
jamais duvidei de qual é meu lugar,
naquela varanda um amor aguardar.
No meio da areia, uma flor vai rasteira,
na areia branquinha da espuma que abeira,
até que haja morte na beira do mar...
Nilza Azzi #galopeàbeiramar
47
Meandros
Um sonho, guardado nas dobras da noite,
caiu de repente do céu sobre a terra
e foi repousar onde o nó se descerra,
curando as feridas e as dores do açoite.
Cruzou os meandros confusos da carne,
privou do pulsar das vontades alheias,
ardendo em faíscas queimou suas peias,
mas nunca encontrou um sinal, um alarme,
que um dia mostrasse quão fútil já era
seu brilho sem sombras na vã primavera.
Nilza Azzi
39
Cantiga pop
Contigo apreciei estrelas
onde o mundo já não me atinge:
a entrever na azul poeira,
chispas, faíscas dos confins,
nós éramos seres reais;
à escolha, ao encontro fatal,
as nossas almas partiram,
em uma viagem sem volta,
sideralmente reunidas
no fato que a ti ora exponho,
ou terá sido um mero sonho?
Nilza Azzi_Retranca
61
Você me tira o fôlego
Está distante a vez primeira... Eu não previ
e adormecida eu não senti o seu olhar,
mas acredito, nesse instante eu revivi,
embora às vezes, mal consiga respirar
e já não lembro quantas vezes eu senti
faltar alento, ao ver você se aproximar,
mas sempre ao susto desse amor sobrevivi
e a recompensa não me deixa reclamar.
Quero entender a melhor forma de medir
o que nos traz transformação, nos alimenta
ao mergulhar no que é sentir, chegar ao âmago
e reconheço uma verdade, sem fingir,
é fruição o que minh'alma experimenta,
pois eu confesso sim, você me tira o fôlego!
Nilza Azzi
35
Despojos
As sensações deixei atrás de mim
e já não sou quem quer a plenitude.
Se toda vida, um dia, chega ao fim,
não sei por que buscar tudo que ilude.
Na Terra não há bom, nem há ruim:
apenas acontece que, amiúde,
queremos retornar e crer, assim,
que pode, o que passou, ter amplitude.
Porém qualquer sentir é doloroso,
já que resume a perda posterior
e junto da chegada, está a partida.
Andei, por este mundo, comovida,
mas hoje já não penso num amor;
não mais eu creio que me traga o gozo.
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!