Doces lembranças
Quando o dia começa, inda bem cedo,
e atravessa a cortina do teu quarto,
entra um raio de sol que, quase a medo,
vem beijar o teu corpo lasso. E, farto
dos prazeres da noite, nas texturas
dos lençóis, tu repousas as mãos puras
contra o peito, num gesto de abandono.
Ao teu lado, com medo de acordar-te,
meu olhar te contempla, mas destarte,
quando lembro teu beijo, eu me apaixono.
Nilza Azzi
Você me tira o fôlego
Está distante a vez primeira... Eu não previ
e adormecida eu não senti o seu olhar,
mas acredito, nesse instante eu revivi,
embora às vezes, mal consiga respirar
e já não lembro quantas vezes eu senti
faltar alento, ao ver você se aproximar,
mas sempre ao susto desse amor sobrevivi
e a recompensa não me deixa reclamar.
Quero entender a melhor forma de medir
o que nos traz transformação, nos alimenta
ao mergulhar no que é sentir, chegar ao âmago
e reconheço uma verdade, sem fingir,
é fruição o que minh'alma experimenta,
pois eu confesso sim, você me tira o fôlego!
Nilza Azzi
Cantiga pop
Contigo apreciei estrelas
onde o mundo já não me atinge:
a entrever na azul poeira,
chispas, faíscas dos confins,
nós éramos seres reais;
à escolha, ao encontro fatal,
as nossas almas partiram,
em uma viagem sem volta,
sideralmente reunidas
no fato que a ti ora exponho,
ou terá sido um mero sonho?
Nilza Azzi_Retranca
Fim
A vida me tem golpeado, e não pouco,
pareço a bigorna nas mãos do ferreiro.
A alma ferida ressente o braseiro,
bem sei que este mundo está velho, está louco
e nada é eterno, a tristeza tampouco,
porém mal consigo parar de chorar
– a velha saudade não quer me largar!
Enquanto as imbuias prateiam a serra
e o meu pensamento essa névoa descerra,
revivo o meu sonho na beira do mar.
A dor que me habita resiste ao meu grito,
pois ela não sabe que sou resiliente
e tenho o controle perfeito da mente.
Assim, eu espero por tempo infinito;
na luta sem fim, sou fiel, acredito,
jamais duvidei de qual é meu lugar,
naquela varanda um amor aguardar.
No meio da areia, uma flor vai rasteira,
na areia branquinha da espuma que abeira,
até que haja morte na beira do mar...
Nilza Azzi #galopeàbeiramar
Dia de chuva
Quatro gatinhos na janela
olham a rua muito atentos,
mas a menina tagarela
não quer conversa com ninguém;
hoje choveu e não há jeito
de ela fazer o seu passeio,
pois vem a enxurrada e traz lama,
e a garotinha fica triste,
por não poder correr na grama:
lá fora chove em profusão
e a tal menina chora em vão.
Nilza Azzi #retranca
Descrição
Tinha a cor do trigo maduro,
nos cabelos longos e lisos,
na pele a textura das sedas,
ao caminhar, um porte altivo;
do futuro, não tinha medo,
ao presente nenhum apego:
toda manhã, ao acordar,
sentia uma angústia forte, intensa,
(nada de mal, porém, sonhara)
no coração de mel em chamas,
o velho medo e as mesmas tramas.
Nilza Azzi #retranca
Meandros
Um sonho, guardado nas dobras da noite,
caiu de repente do céu sobre a terra
e foi repousar onde o nó se descerra,
curando as feridas e as dores do açoite.
Cruzou os meandros confusos da carne,
privou do pulsar das vontades alheias,
ardendo em faíscas queimou suas peias,
mas nunca encontrou um sinal, um alarme,
que um dia mostrasse quão fútil já era
seu brilho sem sombras na vã primavera.
Nilza Azzi
Revisão
Além da lembrança, nos tempos antigos,
a Terra e a Lua girando no espaço,
as águas ferventes, o ar inda escasso,
momentos repletos de tantos perigos...
Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos
gestavam as formas, ainda sem lar.
O ventre da Mãe concebia, sem par,
futuras belezas, nas formas mais várias,
enquanto no globo, grupavam-se os párias
marcavam galope na beira do mar.
Depois, o intervalo de calma aparente;
ajustes, encaixes surgiram, sem pressa,
e foi olvidada essa fúria pregressa.
Aos poucos a vida mudou o ambiente
e soube fazê-lo de forma eficiente;
criou condições pra poder respirar,
ganhou as lonjuras, sonhou viajar...
Assim espalhou as sementes dos povos
que foram seguidos por outros mais novos,
migrando, em galope, da beira do mar.
A curta memória criou a ilusão
de certo conforto e até mesmo, de paz;
chegou o progresso com tudo que traz.
Na forma sem freios, ausente a razão,
perdeu-se o controle. Problemas, então,
tomaram de vez a atenção secular;
a terra a tremer e, nas ondas do mar,
perigos, tsunamis, tragédias e dor.
No mundo presente, essa cena de horror:
– fugir, em galope, da beira do mar.
Ao homem, pequeno, perante o universo,
compete rever os caminhos que trilha,
deixar de criar sua própria armadilha,
pois toda medalha contém seu reverso.
Mister, é conter esse estrago disperso
que altera a paisagem e faz duvidar
do nosso futuro; é preciso buscar
mais formas viáveis ao meio ambiente,
dar chance a uma vida que, em festa, apresente,
feliz, um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
Despojos
As sensações deixei atrás de mim
e já não sou quem quer a plenitude.
Se toda vida, um dia, chega ao fim,
não sei por que buscar tudo que ilude.
Na Terra não há bom, nem há ruim:
apenas acontece que, amiúde,
queremos retornar e crer, assim,
que pode, o que passou, ter amplitude.
Porém qualquer sentir é doloroso,
já que resume a perda posterior
e junto da chegada, está a partida.
Andei, por este mundo, comovida,
mas hoje já não penso num amor;
não mais eu creio que me traga o gozo.
Nilza Azzi
Viagens da Luíza
Conheço muita gente que gosta de frio,
conheço muito mais que prefere o calor;
é muito bom viver nas praias do Brasil,
mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.
Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu,
alguém que não estava ao inteiro dispor,
na hora da filmagem, que o público viu,
e assim tornou-se um ícone revelador...
Cada qual seleciona um lugar pra viver
todos podem saber, se dá pé, se não dá,
menos a Luíza que voltou para cá.
Acabou-se o passeio, o que se há de fazer?
Sabemos que o inverno anda brabo no norte,
menos a Luíza que não teve essa sorte...
Nilza Azzi