Lista de Poemas
Tristeza II
Alegre-se, Tristeza! Não reclame.
Não é que um mar de fatos é confuso?
Decerto cada terra tem seu uso,
e às vezes ele pode ser infame.
Há falsos ideais! Fuja do abuso.
Quem sabe pode haver algum liame
e a vida de outro modo se amalgame,
e o riso surja, mesmo que difuso...
Verdade é que, Tristeza, chega o dia
que a casa vai ficando mais vazia,
porque ninguém se importa e as coisas tristes
afastam o melhor que a vida traz...
Abafe a sua dor, não chore mais;
descubra o picaresco e faça chistes!
Nilza Azzi
598
Falácia
Falam de mim as folhas mortas,
tão distraídas, sem pudor,
dançam ao vento, fazem roda,
num burburinho animador:
não tenho medo ou fujo delas,
das folhas secas, amarelas,
já não me importa o que se diz,
se muito bem ou muito mal,
se envelheci, se sou feliz;
mesmo que as lágrimas desabem,
quem diz que as folhas de mim sabem?
Nilza Azzi
59
Eclipse
Então o sol se pôs e a Poesia
foi encontrar a Lua do outro lado,
a lua cheia em gêmeos nesse dia,
em que terá seu brilho eclipsado.
E lhe diz a Poesia: – Tem cuidado
e dá valor à luz que te alumia,
pois antes que tivesse, o sol, brilhado,
eras escura em céu sem harmonia.
Responde a Lua: – Ah, Poesia, és doce
e é por isso que eu gosto de inspirar-te,
de somar meu lirismo à tua arte.
... Retoma ainda, quase em um sussurro:
– Os vates pelo céu à noite empurro,
antes mesmo que o sol, estrela fosse...
Nilza Azzi
465
Correntes
A tua quietude é pausa,
camada aparente, é superfície
armadilha a atrair loucos e parvos
Nas profundezas das águas
revoluciona e não cessa
o movimento das ondas...
A voz calada alheia ao meu encanto
pressente as correntezas subterrâneas
por onde viajam todos os pensamentos
... e o mar se agita
o sal por fim afoga a minha sede
Longe de alcance vagam à deriva
os focos que me levam à voragem
então confesso
estranha e companheira
possuir esse tesouro será sempre
minha quimera
Nilza Azzi
40
Vazio
Hoje acordei com saudade de ti
do tempo que nunca tivemos juntos
esse intervalo vago, inexplicável
Investiguei minhas entranhas
e no vazio abri mais chagas
as dores amargas recrudesceram
e te busquei como se foras pedaço meu
Hoje senti falta dos beijos que não dei
do passado que nunca foi presente
de não saber se me amas, se me amaste
Encontrei-me abandonada em meu desterro
como se o amado habitasse minha alma
e validasse para sempre o meu sentir
sem razão e sem consentimento
Nilza Azzi
40
Príncipe do amor
Sem lembrar que a vida é plena de amor,
morri sem querer, me esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor
toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.
Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza
a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:
– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.
Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,
por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.
Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:
– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!
Nilza Azzi #terzarima
morri sem querer, me esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor
toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.
Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza
a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:
– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.
Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,
por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.
Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:
– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!
Nilza Azzi #terzarima
69
Tolices
Ah, se de fato não se consentisse
que nada se dissesse assim, à toa,
por vaidade, até mesmo por tolice,
ou só porque o silêncio descorçoa.
E se da voz, o som não mais se ouvissse,
levando essa canção que só destoa,
a mesma loa em forma de sandice,
a frase que compõe qualquer pessoa.
Reservaria um tanto dos meus sonhos,
poemas que jamais escreveria,
os ninhos de algodão, meus pensamentos.
E como os anjos, róseos e risonhos,
viveria nas nuvens, noite e dia,
bem longe deste mundo barulhento.
Nilza Azzi
48
Selo
À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua torta,
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Os ares já permitem ver encantos,
nas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.
Mas, caro, não me beije à luz de velas,
se o nosso amor, de fato, tu não selas...
Nilza Azzi
33
A lua
Bela ela brilha e reina no céu.
deixa seu rastro em sinais de luz.
Quando se esconde, perde-se, é fato,
grande beleza em noites escuras,
onde se esconde a ave e a caça.
Falte o luar, então, nem por graça,
pode-se achar o rastro cruel,
de um sorrateiro lobo que aduz,
a perseguir as pobres criaturas
com aguçado ouvido e olfato.
Mas se um poeta ama de fato
e a lua cheia, pelo céu passa,
a inspiração se agita e reluz:
e não escapa tinta e papel
que não descreva suas agruras.
Se a companheira, pelas alturas,
sabe que a dor sentida é um fato,
o sonhador não faz escarcéu
e, disfarçando, bebe da taça:
bebida estranha, sabe a alcaçuz...
Lua formosa, minha fé pus,
busquei azeite e doces canduras;
deixei as flores, lá onde grassa
água da fonte. Não falte o tato.
Ao meu amado, o pote de mel.
Nilza Azzi
#cinquina
119
Retrato de alguém
Sou assim sem graça, sem glamour ou dramas
o que em mim se passa, guardo lá nas tramas
de um pensar distante.
Nada por dizer, passo a voz adiante.
Meu modo de ser desafia a norma
pouco sei de mim
do que me transforma nesse ser que, enfim
arrebenta a casca e quer redefinir
aquilo em que se enrasca...
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!