Tristeza II
Alegre-se, Tristeza! Não reclame.
Não é que um mar de fatos é confuso?
Decerto cada terra tem seu uso,
e às vezes ele pode ser infame.
Há falsos ideais! Fuja do abuso.
Quem sabe pode haver algum liame
e a vida de outro modo se amalgame,
e o riso surja, mesmo que difuso...
Verdade é que, Tristeza, chega o dia
que a casa vai ficando mais vazia,
porque ninguém se importa e as coisas tristes
afastam o melhor que a vida traz...
Abafe a sua dor, não chore mais;
descubra o picaresco e faça chistes!
Nilza Azzi
Falácia
Falam de mim as folhas mortas,
tão distraídas, sem pudor,
dançam ao vento, fazem roda,
num burburinho animador:
não tenho medo ou fujo delas,
das folhas secas, amarelas,
já não me importa o que se diz,
se muito bem ou muito mal,
se envelheci, se sou feliz;
mesmo que as lágrimas desabem,
quem diz que as folhas de mim sabem?
Nilza Azzi
Eclipse
Então o sol se pôs e a Poesia
foi encontrar a Lua do outro lado,
a lua cheia em gêmeos nesse dia,
em que terá seu brilho eclipsado.
E lhe diz a Poesia: – Tem cuidado
e dá valor à luz que te alumia,
pois antes que tivesse, o sol, brilhado,
eras escura em céu sem harmonia.
Responde a Lua: – Ah, Poesia, és doce
e é por isso que eu gosto de inspirar-te,
de somar meu lirismo à tua arte.
... Retoma ainda, quase em um sussurro:
– Os vates pelo céu à noite empurro,
antes mesmo que o sol, estrela fosse...
Nilza Azzi
Correntes
A tua quietude é pausa,
camada aparente, é superfície
armadilha a atrair loucos e parvos
Nas profundezas das águas
revoluciona e não cessa
o movimento das ondas...
A voz calada alheia ao meu encanto
pressente as correntezas subterrâneas
por onde viajam todos os pensamentos
... e o mar se agita
o sal por fim afoga a minha sede
Longe de alcance vagam à deriva
os focos que me levam à voragem
então confesso
estranha e companheira
possuir esse tesouro será sempre
minha quimera
Nilza Azzi
Vazio
Hoje acordei com saudade de ti
do tempo que nunca tivemos juntos
esse intervalo vago, inexplicável
Investiguei minhas entranhas
e no vazio abri mais chagas
as dores amargas recrudesceram
e te busquei como se foras pedaço meu
Hoje senti falta dos beijos que não dei
do passado que nunca foi presente
de não saber se me amas, se me amaste
Encontrei-me abandonada em meu desterro
como se o amado habitasse minha alma
e validasse para sempre o meu sentir
sem razão e sem consentimento
Nilza Azzi
A lua
Bela ela brilha e reina no céu.
deixa seu rastro em sinais de luz.
Quando se esconde, perde-se, é fato,
grande beleza em noites escuras,
onde se esconde a ave e a caça.
Falte o luar, então, nem por graça,
pode-se achar o rastro cruel,
de um sorrateiro lobo que aduz,
a perseguir as pobres criaturas
com aguçado ouvido e olfato.
Mas se um poeta ama de fato
e a lua cheia, pelo céu passa,
a inspiração se agita e reluz:
e não escapa tinta e papel
que não descreva suas agruras.
Se a companheira, pelas alturas,
sabe que a dor sentida é um fato,
o sonhador não faz escarcéu
e, disfarçando, bebe da taça:
bebida estranha, sabe a alcaçuz...
Lua formosa, minha fé pus,
busquei azeite e doces canduras;
deixei as flores, lá onde grassa
água da fonte. Não falte o tato.
Ao meu amado, o pote de mel.
Nilza Azzi
#cinquina
Retrato de alguém
Sou assim sem graça, sem glamour ou dramas
o que em mim se passa, guardo lá nas tramas
de um pensar distante.
Nada por dizer, passo a voz adiante.
Meu modo de ser desafia a norma
pouco sei de mim
do que me transforma nesse ser que, enfim
arrebenta a casca e quer redefinir
aquilo em que se enrasca...
Nilza Azzi
Selo
À tarde, quando o Outono bate à porta
e o vento sopra baixo, agita as folhas,
se vens falar de amor, a mim não tolhas,
nem faças dessa via a rua torta,
na qual eu vá seguir sem ter perdão.
Os ares já permitem ver encantos,
nas vestes mais charmosas, ou nos mantos
que aquecem corpos... Quero a ti, então,
a fonte mais real que traz prazer
à vida interna, ao mundo azul do centro,
às formas tão intensas, quando adentro
a inércia frágil, própria a todo ser.
Mas, caro, não me beije à luz de velas,
se o nosso amor, de fato, tu não selas...
Nilza Azzi
Bucólica
A sombra da mangueira compensava
o peso do calor. Era agradável
notar que além do voo de uma ave
o céu era imutável como estava.
A luz do sol cegava de tão forte.
O lago cintilava. Ao longe o gado
bebia a água com algum enfado,
o vento não soprava mais do Norte.
Os olhos descansavam sonolentos,
nas garças brancas por ali perdidas,
as formas adelgadas e compridas,
o mundo a espiar por um momento.
O ronco de um trovão feriu a cena
− A paz não perdurou, foi tão pequena.
Nilza Azzi
Príncipe do amor
Sem lembrar que a vida é plena de amor,
morri sem querer, me esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor
toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.
Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza
a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:
– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.
Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,
por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.
Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:
– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!
Nilza Azzi #terzarima