Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A minha mente anda confusa e vaga, perdeu o siso, o pouco que ainda tinha... E assim deixou-me a murmurar sozinha, linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha, do pensamento, um fato não se apaga: – indiferente aos rumos desta saga, meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz, pois quer contar do seu estado aéreo; o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério. Se sofre mais que a mente, e sofre a sós, é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
193
Viés
olho os teus poemas com olhos de través cortando as palavras num viés bem comprido num mergulho indefeso nos jogos de sentido barco sem leme entre luas e corujas e mares e pontes e o coração que treme
Nilza Azzi
135
Vestígios
Um verso eu rabisquei na areia do deserto, sabendo de antemão que o vento levaria, palavra por palavra, além da areia fria, até que não restasse a minha voz por perto.
No verso eu descrevi o quanto eu te queria e como acreditei que amar pode dar certo. A marca que deixei foi sob um céu aberto e o mundo em que vivi vibrava em harmonia.
Porém como esperava, o vento ali soprou, rasteiro, e foi levando a areia e, em cada grão, desfez-se a minha voz, fugiu-me a força, então.
Quem sabe a brisa entregue, à areia que espalhou, uns traços deste verso, e não de outro qualquer; vestígios sem função do amor de uma mulher.
Nilza Azzi
184
Vênus exilada
O quanto peque em versos, sem qualquer talento, tentei fugir de ti poesia malfadada, seguir outro caminho, andar por outra estrada. Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,
a nuvem de meu estro, a linha alinhavada, o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento, o meu querer pesado, o coração ciumento e a dor de bem saber a letra da toada...
Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo, pois tem muito em comum, a saga das paixões, e paguei um a um os meus pecados tolos.
Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo − e saberias tu, se os limites transpões − que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?
Nilza Azzi
188
Turbulência
Já me encontrei perdida em meio à turba. Mal me trouxe de volta até meu canto, já me perdi em vã tristeza e, tanto, sem superar a dor que me perturba,
e não me vi, senão com grande espanto, sorver da paz. Basta que o tempo urda, na solidão de uma esperança surda, um mal de amor: - Dizer, eu não sei quanto!
Não sei contar sobre a descida ao poço, mas ao puxar a corda e ver a draga faltou vontade de beber tal água.
A grande sede, bem contida, trago-a, enquanto aguardo e a sorte não me afaga, não mais me perco em meio a um alvoroço.
Nilza Azzi
212
Feitiço
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços, sem ti, o mundo, inerte, perde o viço e a vida se desfaz num tom mortiço; sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm e nem por isso serão os meus desejos mais escassos, nas horas que me escapam aos pedaços, sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios, mas sonho que divido a minha cama contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios e sem o teu calor não tenho nada: — A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
157
Um pouco de sal
A caminhar tão lentamente (era a lesma), espécie antiga, fadada à extinção, deixava um rastro, um filete de si mesma, sem vislumbrar mais premência... Tudo é vão!
Na insipidez de seu mundo sempre escuro, no silêncio do buraco onde vivia, naquele corpo indefeso e mal seguro, sempre apartada, a fugir da luz do dia,
foi se arrastando... Porém, sem que esperasse, no seu caminho encontrou uma barreira. Tal molusco por não ter nenhuma face, não tem noção da tragédia que se abeira:
sem perceber a razão, em si deságua; some no sal, vira simples poça d’água...
Nilza Azzi
178
Última visão
Éramos dois, num dia tão distante; um mundo em flor, as ruas do mercado! Quem vai saber por que não fui adiante, pois me perdi – caminho equivocado.
Éramos dois, na busca de um instante em que um triunfo fosse declarado, mas a vontade não é o que garante chegarmos sempre ao mesmo resultado.
Longe daqui, montanhas do Marrocos serão teu lar, cobrindo o horizonte, um pôr-do-sol, a cena ali defronte?
Não sei prever se vou morrer na praia; – órfã da luz e sem amor, sufoco – o mar traz ondas brancas, num só bloco.
Nilza Azzi
156
Voltas
Quanto mais, quanto menos te vejo, mais percebo a doçura que falta no meu dia, na noite, no ensejo desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo nos ais dos cortejos, e outros mais nas conquistas em alta. Quanto amor eu não cri benfazejo e por menos larguei sobre a pauta.
Se esta rua dirige-se ao cais, a medida dos passos que avanço não permite chegar ao seu fim.
Há tristezas que vivem em mim, sem a trégua de um mero descanso, sem um ponto de fuga, jamais.
Nilza Azzi
186
Versos de um domingo
O rio desce tranquilo da montanha; com calma, escorre as águas cristalinas, mas quando chove muito ele se assanha e invade, além das margens, as campinas.
E a força da torrente é tal, tamanha a callha da enxurrada, que termina por revolver o saibro; a água ganha a cor barrenta e arrasta a areia fina.
À beira de um remanso, vendo a cena, o olhar perdido, a alma, então serena, transmite para o corpo um sobressalto.
Relembra de beber da água mais pura, do tempo em que o amor era ventura, de quando o coração fremia, incauto.