Lista de Poemas
Critério
A minha mente anda confusa e vaga,
perdeu o siso, o pouco que ainda tinha...
E assim deixou-me a murmurar sozinha,
linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha,
do pensamento, um fato não se apaga:
– indiferente aos rumos desta saga,
meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz,
pois quer contar do seu estado aéreo;
o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério.
Se sofre mais que a mente, e sofre a sós,
é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
185
Viés
olho os teus poemas
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme
Nilza Azzi
com olhos de través
cortando as palavras
num viés bem comprido
num mergulho indefeso
nos jogos de sentido
barco sem leme
entre luas e corujas
e mares e pontes
e o coração que treme
Nilza Azzi
127
Vênus exilada
O quanto peque em versos, sem qualquer talento,
tentei fugir de ti poesia malfadada,
seguir outro caminho, andar por outra estrada.
Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,
a nuvem de meu estro, a linha alinhavada,
o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento,
o meu querer pesado, o coração ciumento
e a dor de bem saber a letra da toada...
Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo,
pois tem muito em comum, a saga das paixões,
e paguei um a um os meus pecados tolos.
Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo
− e saberias tu, se os limites transpões −
que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?
Nilza Azzi
176
Voltas
Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo
desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e por menos larguei sobre a pauta.
Se esta rua dirige-se ao cais,
a medida dos passos que avanço
não permite chegar ao seu fim.
Há tristezas que vivem em mim,
sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, jamais.
Nilza Azzi
177
Feitiço
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm e nem por isso
serão os meus desejos mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
150
Vestígios
Um verso eu rabisquei na areia do deserto,
sabendo de antemão que o vento levaria,
palavra por palavra, além da areia fria,
até que não restasse a minha voz por perto.
No verso eu descrevi o quanto eu te queria
e como acreditei que amar pode dar certo.
A marca que deixei foi sob um céu aberto
e o mundo em que vivi vibrava em harmonia.
Porém como esperava, o vento ali soprou,
rasteiro, e foi levando a areia e, em cada grão,
desfez-se a minha voz, fugiu-me a força, então.
Quem sabe a brisa entregue, à areia que espalhou,
uns traços deste verso, e não de outro qualquer;
vestígios sem função do amor de uma mulher.
Nilza Azzi
174
Versos de um domingo
O rio desce tranquilo da montanha;
com calma, escorre as águas cristalinas,
mas quando chove muito ele se assanha
e invade, além das margens, as campinas.
E a força da torrente é tal, tamanha
a callha da enxurrada, que termina
por revolver o saibro; a água ganha
a cor barrenta e arrasta a areia fina.
À beira de um remanso, vendo a cena,
o olhar perdido, a alma, então serena,
transmite para o corpo um sobressalto.
Relembra de beber da água mais pura,
do tempo em que o amor era ventura,
de quando o coração fremia, incauto.
Nilza Azzi
136
Repique
Quando amanhece pelas bandas de Campinas,
quando o céu limpo da cidade é azul intenso,
quando o perfume do jardim recende a incenso,
é que me esqueço das tristezas vespertinas...
Como se a noite desfizesse o mundo denso,
como tirasse da lembrança as dores finas,
como se o dia solevasse as minhas sinas,
é que me vejo a carecer de um outro senso.
E, nessas contas de um balanço equivocado,
jamais encontro a solução do meu agrado,
pois tenho um saldo negativo que não cubro.
Ao confrontar-me com tristezas e alegrias,
vejo-me sempre com as mãos demais vazias.
– E outro poente engole o dia, exato e rubro.
Nilza Azzi
143
Transição
Um anjo, uma mulher, bateu à minha porta,
com flores nos cabelos e uma forma alada.
Quisera que ficasse (o tempo não importa)
e uma tarde qualquer, me desse a mão e nada
pudesse coibir que a trilha, embora torta,
surgisse à frente firme, em luz clara e dourada.
Na sua companhia, o amor sempre conforta
e a tepidez do abraço anula a madrugada.
Mas nunca coube a mim, ditar-lhe: “- Agora escolha!”
Apenas quis fruir do canto, um certo gozo,
enquanto perdurou, a ligação fatal.
Não posso reclamar, pois nunca me fez mal,
porém partiu, deixou-me em círculo vicioso,
em volta da Poesia: − a pétala e uma folha.
Nilza Azzi
182
Momentos
A tarde traz um céu de brilhos brancos,
varando o azul, produto da ilusão...
O frio é seco, a vida segue aos trancos
e as andorinhas rumo ao norte, vão.
Tão simples os sorrisos, quanto francos,
vou devagar, escolho a contramão;
já despenquei ladeiras e barrancos,
mas não me decidi por sim ou não...
Se o coração ainda tem perguntas,
descubro que respostas nascem juntas
e tudo se embaralha no horizonte.
Se o Sol já não se põe atrás de um monte,
em morte lenta, atrás dos prédios arde,
bem no momento exato, e nunca tarde.
Nilza Azzi
176
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!