Lista de Poemas
Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse,
doída, como um nada, a doer tanto,
talvez doera só pelo interesse
de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante
e doerá, por certo, eternamente,
que doa, de uma vez, lacrimejante,
qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía,
tal qual doeram todas, vezes mil,
deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia a dia,
embora já me doam, dor gentil,
as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi
154
gato-poesia
meu gato-poesia espia
e mia em cima do muro
inseguro, lambe as patas
espreme os olhinhos amarelos...
se teme o inimigo ancestral
bem ou mal, enfrenta o perigo
e junto ao perdigueiro vai brincar
nilza azzi
169
Linhas cruzadas
Para Dudu Oliveira
Vi o fio bem esticado,
mas mesmo assim tropecei
me atrapalhei nas palavras
e não consegui tocar
seu âmago, seu sentido
Nas linhas eu me enrolei
desenhei um zigue-zague
juntei frases desconexas
enfrentei os meus pecados
e desfiz-me em personagens
Bem do topo da montanha
olhei um mar sem sentido
a banhar areias brancas
mas vacilei nas palavras
e perdi encanto e vez
Nilza Azzi
165
Encontro romântico
O meu amor não teme as madrugadas
e vence o frio e a chuva sem receio.
Caminha, vem de carro ou outro meio
de transporte, por ruas alagadas...
O meu amor me olha e diz que é feio
usar qualquer desculpa esfarrapada.
Denota indiferença pela amada,
mandar uma mensagem por correio.
E para estar comigo, no meu leito,
escolhe o seu perfume mais cheiroso,
aquele que ele sabe ser perfeito,
num gesto delicado, afetuoso.
Assim, desejo vê-lo satisfeito
e faço a minha parte por seu gozo.
Nilza Azzi
185
Nebulosa
O amado surge e o horizonte brilha
em cintilações de luz, em cor e festa.
E o cheiro do capim dessas manhãs
rescende ao bom odor da terra bruta.
Por onde andei, em solitária estrada,
longe de ti, ó força de minh'alma?
Somente atrás da pequenina chama
do amor que vislumbrava prado além;
em busca da estrelinha sobre o monte,
nas tardes de perdida escuridão...
Não sei! Nem sei de como estás diante de mim,
atrás das névoas de ilusões tão fortes.
Diz, meu amor, da essência dessas flores,
do encantamento dos jardins celestes;
e dessas vinhas de cachos maduros
das fontes virgens cujas águas cantam
outras canções, das quais não falaremos...
Nilza Azzi
184
domínio
deixo meus dedos passearem pelo teclado
com a mesma impaciência
com que desenhava a lápis sobre o papel
palavras nascidas da memória antiga
e dessa intimidade sem fronteiras
retiro dos sentidos que me restam
os sons velozes das vogais
e as esperanças surdas das consoantes
procuro as sensações inusitadas
de quando se combinam as verdades
em vocábulos tontos de tristeza
em palavras loucas de alegria
e quando o espaço todo se recobre
de preto tanto quanto posso dar de mim
procuro descanso numa praça
e espero que essas aves tenham asas
nilza azzi
196
Inconstância
Na terra em que havia palmeiras
e o sabiá com seu canto
habitam jovens faceiras
mas seu mundo é desencanto.
Foi-se embora o trovador
num navio sem destino
a cantar versos de amor
e a sofrer por desatino
Nilza Azzi
159
Velas ao vento
Na linha do vento, prossigo sem lei,
singrando esses mares, tão verdes, além...
Acima esse teto de céu azul rei,
meus rumos tomei, não me curvo a ninguém.
Se o vento se acalma ou se estaca de vez,
eu paro e contemplo a existência ao redor,
mas quando ele sopra, bem doce e cortês,
eu sou vela inflada e navego melhor.
No mar da poesia, as palavras eu pesco
e, ao tempo do vento, seguimos velozes,
nos damos as mãos, em completa união.
Os meus sentimentos aos verbos eu mesclo,
exponho minh'alma e juntamos as vozes
— veleiros ao vento, os meus versos se vão...
Nilza Azzi
194
Estragos de mim...
Estragos de mim esses olhos
em seus caminhos indiscretos
penetram as sombras sem medo
descobrem alternativas
Começos de mim essa boca
faminta por beijos errantes
Numa tela de Djanira
a vida plana como um rio
escoa a luz do momento
reflete os desejos sinuosos
Entre as negras sobrancelhas
surge um vinco involuntário
Nilza Azzi
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Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!