Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Na fonte das certezas e dos medos escorrem meus silêncios, minhas pausas, enquanto uma esperança morre cedo e a minha solidão tem sombras rasas.
Esgotam-se as nascentes, calam vozes, permutam-se as vontades por promessas... As horas cada vez vão mais velozes e apontam as loucuras inconfessas.
Na rua um carro breca, em sobressalto, entendo que o perigo é sempre esperto. O som de uma buzina é qual arauto e o sonho me adverte de algo incerto.
O dia ─ mais um dia ─ vai ao meio e deixa em minha alma outro receio...
Nilza Azzi
161
Encontro romântico
O meu amor não teme as madrugadas e vence o frio e a chuva sem receio. Caminha, vem de carro ou outro meio de transporte, por ruas alagadas...
O meu amor me olha e diz que é feio usar qualquer desculpa esfarrapada. Denota indiferença pela amada, mandar uma mensagem por correio.
E para estar comigo, no meu leito, escolhe o seu perfume mais cheiroso, aquele que ele sabe ser perfeito,
num gesto delicado, afetuoso. Assim, desejo vê-lo satisfeito e faço a minha parte por seu gozo.
Nilza Azzi
196
gato-poesia
meu gato-poesia espia e mia em cima do muro inseguro, lambe as patas espreme os olhinhos amarelos...
se teme o inimigo ancestral bem ou mal, enfrenta o perigo e junto ao perdigueiro vai brincar
nilza azzi
178
Linhas cruzadas
Para Dudu Oliveira
Vi o fio bem esticado, mas mesmo assim tropecei me atrapalhei nas palavras e não consegui tocar seu âmago, seu sentido
Nas linhas eu me enrolei desenhei um zigue-zague juntei frases desconexas enfrentei os meus pecados e desfiz-me em personagens
Bem do topo da montanha olhei um mar sem sentido a banhar areias brancas mas vacilei nas palavras e perdi encanto e vez
Nilza Azzi
173
Nebulosa
O amado surge e o horizonte brilha em cintilações de luz, em cor e festa. E o cheiro do capim dessas manhãs rescende ao bom odor da terra bruta. Por onde andei, em solitária estrada, longe de ti, ó força de minh'alma? Somente atrás da pequenina chama do amor que vislumbrava prado além; em busca da estrelinha sobre o monte, nas tardes de perdida escuridão... Não sei! Nem sei de como estás diante de mim, atrás das névoas de ilusões tão fortes. Diz, meu amor, da essência dessas flores, do encantamento dos jardins celestes; e dessas vinhas de cachos maduros das fontes virgens cujas águas cantam outras canções, das quais não falaremos...
Nilza Azzi
195
domínio
deixo meus dedos passearem pelo teclado com a mesma impaciência com que desenhava a lápis sobre o papel palavras nascidas da memória antiga e dessa intimidade sem fronteiras retiro dos sentidos que me restam os sons velozes das vogais e as esperanças surdas das consoantes procuro as sensações inusitadas de quando se combinam as verdades em vocábulos tontos de tristeza em palavras loucas de alegria e quando o espaço todo se recobre de preto tanto quanto posso dar de mim procuro descanso numa praça e espero que essas aves tenham asas
nilza azzi
204
Velas ao vento
Na linha do vento, prossigo sem lei, singrando esses mares, tão verdes, além... Acima esse teto de céu azul rei, meus rumos tomei, não me curvo a ninguém.
Se o vento se acalma ou se estaca de vez, eu paro e contemplo a existência ao redor, mas quando ele sopra, bem doce e cortês, eu sou vela inflada e navego melhor.
No mar da poesia, as palavras eu pesco e, ao tempo do vento, seguimos velozes, nos damos as mãos, em completa união.
Os meus sentimentos aos verbos eu mesclo, exponho minh'alma e juntamos as vozes — veleiros ao vento, os meus versos se vão...
Nilza Azzi
205
Inconstância
Na terra em que havia palmeiras e o sabiá com seu canto habitam jovens faceiras mas seu mundo é desencanto.
Foi-se embora o trovador num navio sem destino a cantar versos de amor e a sofrer por desatino
Nilza Azzi
166
Natureza reciclada
Entre brotos e botões, a primavera tece o rubro colorido e se prepara, com a cor mais adorável e mais rara, e com calma, pouco a pouco, ela se altera.
Foi preciso um ano inteiro e quem repara nos galhinhos que dormiram longa espera, entre os raios, sob o sol, vê que prospera um vermelho intermitente e uma tiara,
debruçada sobre o arco, adorna a entrada. Logo, logo as flores vão formar cascata: À visão de intensa cor, atordoadas,
borboletas... As asinhas abstratas das abelhas, transparentes – quase nada – e avezinhas com seu canto e passeata...
Nilza Azzi
232
Estragos de mim...
Estragos de mim esses olhos em seus caminhos indiscretos penetram as sombras sem medo descobrem alternativas
Começos de mim essa boca faminta por beijos errantes
Numa tela de Djanira a vida plana como um rio escoa a luz do momento reflete os desejos sinuosos
Entre as negras sobrancelhas surge um vinco involuntário