Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A rua azul do sonho era perfeita e pura na paisagem, estirada, ao sul do meu olhar, pela direita, findava por perder-se em outra estrada. No azul do teu olhar, minh’alma deita desejos de findar a caminhada – livrar-se de seu medo e da suspeita – morrer-se por um susto, um quase nada. No alto desse céu, onde voava apenas um pedaço de intenção, abriu-se um precipício – cores fingem... Faíscas, pigmentos, luz escrava, em rápidos lampejos passam, dão, um jeito de esvair-se na vertigem.
Nilza Azzi
1 562
Autorretrato
A juventude passou, foi embora; maturidade chegou. Mas que bom! Toda experiência nos cobra penhora, saber viver, — agradeço esse dom.
Nunca serei uma velha senhora, o tal chapéu preto, o xale marrom... Imposições não me valem agora: — São minhas vestes! — Escolho seu tom.
Mas não serei uma falsa sereia, a esconder de mim mesma a verdade. De veleidade esta vida está cheia!
Uma certeza, apenas, me invade: A poesia me corre nas veias, — hoje melhor do que em tenra idade.
Nilza Azzi
1 537
Inverno
Os dias me parecem sonhos longos, durante o inverno, quando é cedo escuro, enquanto o tempo escorre sem futuro e nos mosteiros repercutem gongos...
E as noites de um tecido vasto e puro, tecem contornos rútilos e oblongos nos telhados escuros, nos prolongos, e o mundo é uma tristeza sem seguro.
O frio, sempre esse frio estranho e mau que me vara as entranhas, fundo, é tal, é fruto da distância e da carência
da fonte, a principal luminescência... E as noites se confundem com os dias, sem qualquer tepidez, noites vazias...
Nilza Azzi
568
'té hoje
'té hoje, a conversadeira depende de uma janela, mas não pode haver floreiras e nem perfumes, na tela...
Nilza Azzi
541
A meia-lua
A meia-lua no alto parece um queijo de Minas. Menina de olhar incauto, o que do amor tu me ensinas?
Nilza Azzi
595
Ritmo cinzento
Não foi da solidão que me escapou a voz; se canto a desventura, é porque sou incauta e o verso fugitivo é aquele que não falta, pois cumpre o seu papel e faz menos atroz
o eterno isolamento e o branco desta pauta. A voz surgiu do além, bem antes, não após a vida revelar que há multidão em nós e a vida, quando quer, assusta e nos assalta.
E assim vem deste som a cor e a fantasia, a força natural e o ritmo cinzento da ave que se eleva e voa à revelia;
entrega o seu cantar ao vasto firmamento, que pelo espaço irrompe e súbito irradia, mas cala ao refletir a pausa em que me adentro.
Nilza Azzi
547
O céu choveu...
O céu choveu, à vontade, toda chuva que podia... Não há no mundo, verdade que não veja a luz do dia.
Nilza Azzi
595
No outono...
No outono que se avizinha, espero dias mais claros. A vida que diz: − Caminha! − não me fornece anteparos.
Nilza Azzi
572
Chegam as luzes...
Chegam as luzes do outono, frouxas, incertas e mornas; entre as cobertas ressono, enquanto o dia não torna.
Nilza Azzi
588
Além da Porta
A cor do céu já é a cor do inverno e muda o mapa aos poucos de aparência. O vento esfria e o frio parece eterno; a luz boceja, esvai-se em indolência.
A noite guarda em sonho a minha essência, a solidão escura o mundo interno; traz a quimera, a dor que ninguém vence e a confusão das formas mal governo.
Além da porta, além dos velhos muros, onde andará o meu amor de outrora, olhos de mar em dias de ressaca?
Vive a lembrança cada vez mais fraca; na ideia esquiva a busca se demora. Oh, luz noturna, vastos céus escuros!