Lista de Poemas
Pedaço de intenção
A rua azul do sonho era perfeita
e pura na paisagem, estirada,
ao sul do meu olhar, pela direita,
findava por perder-se em outra estrada.
No azul do teu olhar, minh’alma deita
desejos de findar a caminhada
– livrar-se de seu medo e da suspeita –
morrer-se por um susto, um quase nada.
No alto desse céu, onde voava
apenas um pedaço de intenção,
abriu-se um precipício – cores fingem...
Faíscas, pigmentos, luz escrava,
em rápidos lampejos passam, dão,
um jeito de esvair-se na vertigem.
Nilza Azzi
1 547
Autorretrato
A juventude passou, foi embora;
maturidade chegou. Mas que bom!
Toda experiência nos cobra penhora,
saber viver, — agradeço esse dom.
o tal chapéu preto, o xale marrom...
Imposições não me valem agora:
— São minhas vestes! — Escolho seu tom.
Mas não serei uma falsa sereia,
a esconder de mim mesma a verdade.
De veleidade esta vida está cheia!
Uma certeza, apenas, me invade:
A poesia me corre nas veias,
— hoje melhor do que em tenra idade.
Nilza Azzi
1 512
Inverno
Os dias me parecem sonhos longos,
durante o inverno, quando é cedo escuro,
enquanto o tempo escorre sem futuro
e nos mosteiros repercutem gongos...
E as noites de um tecido vasto e puro,
tecem contornos rútilos e oblongos
nos telhados escuros, nos prolongos,
e o mundo é uma tristeza sem seguro.
O frio, sempre esse frio estranho e mau
que me vara as entranhas, fundo, é tal,
é fruto da distância e da carência
da fonte, a principal luminescência...
E as noites se confundem com os dias,
sem qualquer tepidez, noites vazias...
Nilza Azzi
554
A meia-lua
A meia-lua no alto
parece um queijo de Minas.
Menina de olhar incauto,
o que do amor tu me ensinas?
Nilza Azzi
579
'té hoje
'té hoje, a conversadeira
depende de uma janela,
mas não pode haver floreiras
e nem perfumes, na tela...
Nilza Azzi
526
Ritmo cinzento
Não foi da solidão que me escapou a voz;
se canto a desventura, é porque sou incauta
e o verso fugitivo é aquele que não falta,
pois cumpre o seu papel e faz menos atroz
o eterno isolamento e o branco desta pauta.
A voz surgiu do além, bem antes, não após
a vida revelar que há multidão em nós
e a vida, quando quer, assusta e nos assalta.
E assim vem deste som a cor e a fantasia,
a força natural e o ritmo cinzento
da ave que se eleva e voa à revelia;
entrega o seu cantar ao vasto firmamento,
que pelo espaço irrompe e súbito irradia,
mas cala ao refletir a pausa em que me adentro.
Nilza Azzi
532
Chegam as luzes...
Chegam as luzes do outono,
frouxas, incertas e mornas;
entre as cobertas ressono,
enquanto o dia não torna.
Nilza Azzi
573
O céu choveu...
O céu choveu, à vontade,
toda chuva que podia...
Não há no mundo, verdade
que não veja a luz do dia.
Nilza Azzi
582
Além da Porta
A cor do céu já é a cor do inverno
e muda o mapa aos poucos de aparência.
O vento esfria e o frio parece eterno;
a luz boceja, esvai-se em indolência.
A noite guarda em sonho a minha essência,
a solidão escura o mundo interno;
traz a quimera, a dor que ninguém vence
e a confusão das formas mal governo.
Além da porta, além dos velhos muros,
onde andará o meu amor de outrora,
olhos de mar em dias de ressaca?
Vive a lembrança cada vez mais fraca;
na ideia esquiva a busca se demora.
Oh, luz noturna, vastos céus escuros!
Nilza Azzi
558
O amor é escrito na areia...
Não há como controlar...
O amor não se prende, creia;
o amor é escrito na areia.
Como a mentira no ar,
como a água se evapora,
como a chuva vai embora,
como o rio encontra o mar,
é verdade secular
que todo amante receia:
o amor é escrito na areia.
Meu amor, eu sei agora
desse calor que me aquece.
Quando a luz já se amortece
e o dia, ao fim se descora,
enquanto a alma padece
e a lua a praia clareia,
o amor é escrito na areia.
Nilza Azzi
557
Comentários (4)
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Belos sonetos!
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!