À moda de Camões
Aos cabelos de Apolo que roubaste,
devolve o ouro belo desses teus.
A luz que Dante viu, a luz de Deus,
quando subiu ao Céu, p'ra ti tomaste
e agora mora cá nos olhos teus.
Te baste o quanto dela te jactaste,
ao Paraíso vai, de onde a tiraste,
e diz: "já não a quero para os meus".
Não te condóis de Clóris, que chorava,
pois lhe furtaste da esmeralda a cor,
que a vista dela tinha e que de amor,
ao invés de Medusa, nos matava?
Essa face não sei de quem a houveste,
mas são suas medidas tão perfeitas
que só certezas tenho e não suspeitas:
humana não será, mas sim Celeste.
Vénus seu corpo deu-te, bom demais,
contando em reavê-lo prontamente;
não foi para te ver eternamente
de desejos matar a nós mortais.
Vertem as Musas lágrimas de dor
por perderem a voz que deslumbrava:
seu canto em harmonia ultrapassava
o que de nautas foi naufragador.
Por ti mudo ficou o divino coro,
de sua boca só o pranto flui;
delas tem piedade e restitui
essa voz que os deuses leva ao choro.
A graça que em teu espírito eu já vi,
reúne a das três Graças nele só.
Destas irmãs, contudo, eu tenho dó,
pois nelas nada sobra já de ti.
Aos deuses, tu, enfim, dás grã tristeza
e ofendida está a Mãe Natura,
pois conseguiste a ínclita proeza
de afeiar toda a bela criatura.
Corrigir o mal feito, ó lindeza,
é necessário, porque, se isto dura,
contra o Homem, por vingança, a Natureza
com os deuses ainda se conjura.
Mas como a ti honestidade devo,
que a ser fiel ao meu melhor me obrigas,
as deidades não ter como inimigas
(dizê-lo é meu dever nisto que escrevo)
menos me move a este duro apelo,
move-me mais o int'resse meu profundo:
de ver-te fico imóvel como o gelo
e tornas-me incapaz de ser facundo,
por isso essa beleza que te adorna,
essa alma cuja graça o sol ofusca,
e ao choro leva e o peito nos transtorna
e os deuses loucos pôs em sua busca,
torna-as a eles, dá a cada um sua parte
e puramente humana torna a mim,
sem a essência dos Céus em ti refém.
Que então eu, que te adoro e sou ninguém,
coragem já terei, sei-o, por fim,
para meus sentimentos declarar-te.
(Dedicado a A. V. L.)
devolve o ouro belo desses teus.
A luz que Dante viu, a luz de Deus,
quando subiu ao Céu, p'ra ti tomaste
e agora mora cá nos olhos teus.
Te baste o quanto dela te jactaste,
ao Paraíso vai, de onde a tiraste,
e diz: "já não a quero para os meus".
Não te condóis de Clóris, que chorava,
pois lhe furtaste da esmeralda a cor,
que a vista dela tinha e que de amor,
ao invés de Medusa, nos matava?
Essa face não sei de quem a houveste,
mas são suas medidas tão perfeitas
que só certezas tenho e não suspeitas:
humana não será, mas sim Celeste.
Vénus seu corpo deu-te, bom demais,
contando em reavê-lo prontamente;
não foi para te ver eternamente
de desejos matar a nós mortais.
Vertem as Musas lágrimas de dor
por perderem a voz que deslumbrava:
seu canto em harmonia ultrapassava
o que de nautas foi naufragador.
Por ti mudo ficou o divino coro,
de sua boca só o pranto flui;
delas tem piedade e restitui
essa voz que os deuses leva ao choro.
A graça que em teu espírito eu já vi,
reúne a das três Graças nele só.
Destas irmãs, contudo, eu tenho dó,
pois nelas nada sobra já de ti.
Aos deuses, tu, enfim, dás grã tristeza
e ofendida está a Mãe Natura,
pois conseguiste a ínclita proeza
de afeiar toda a bela criatura.
Corrigir o mal feito, ó lindeza,
é necessário, porque, se isto dura,
contra o Homem, por vingança, a Natureza
com os deuses ainda se conjura.
Mas como a ti honestidade devo,
que a ser fiel ao meu melhor me obrigas,
as deidades não ter como inimigas
(dizê-lo é meu dever nisto que escrevo)
menos me move a este duro apelo,
move-me mais o int'resse meu profundo:
de ver-te fico imóvel como o gelo
e tornas-me incapaz de ser facundo,
por isso essa beleza que te adorna,
essa alma cuja graça o sol ofusca,
e ao choro leva e o peito nos transtorna
e os deuses loucos pôs em sua busca,
torna-as a eles, dá a cada um sua parte
e puramente humana torna a mim,
sem a essência dos Céus em ti refém.
Que então eu, que te adoro e sou ninguém,
coragem já terei, sei-o, por fim,
para meus sentimentos declarar-te.
(Dedicado a A. V. L.)
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