a fome - ave de rapina -
fita o que nos desalimenta,
cada farelo que nos consome:

os ásperos grãos

de pão,
de guerras,
de prêmios, 
de dinheiro, 
de poder...

caberia tudo 
num só clarão de espanto ou
num bater de asas sovinas?

a fome, de modo inclemente,
mata com pílulas de culpa,
de exílios e silêncios cortantes!

um sonho de capa de jornal:
em fase de inapetência e autoflagelo,

a fome suicida-se,
com uma garfada,
no fundo da vasilha
em que jantava vazios.


*Poema do livro No alto da ladeira de pedra, Editora Patuá, 2017.
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