soneto tardio
Estás sob a terra... Mas, em mim fecundas
As flores que te não pude dar em vida.
E o perfume que neste jardim abunda,
Póstumo, toma a forma de uma ferida...
Não há consolo nesta hora moribunda
À minha alma que, de dor enriquecida,
Relembra as tuas mãos vazias e fundas,
E se vê, de pétalas, empobrecida.
Sinto estas flores com amarga ironia...
Medraram no espaço que deixaste ao ir,
Fixando as raízes na melancolia
Da impossibilidade de ver-te sorrir
Outro instante. Ah, mas, Deus! O que eu não daria
Pra com estas flores tuas mãos florir...
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