Lágrimas de uma dona inexistente.
Esta que passa por mim sem olhar.
A que olho discreto e distante a pensar.
Que dor é esta que carrega?
Que ânsia é esta que lhe cega?
Que emana como uma aura?
Que tanto corre, tanto passa, como paira.
Que na minha folha branca deixara.
Como marca de quando veio a passar.
Lágrimas que caem sem molhar?
É uma senhora estranha e distante.
A quem observo pasmo e hesitante.
Não sei se é nova ou velha, bela ou feia.
Mas a minha curiosidade incendeia.
Poderia ela talvez, explicar e detalhar.
Como é possível chorar sem molhar?
Estas gotas fixas em meu caderno.
Confrontam estes ventos de inverno.
Como pontos no escuro a brilhar.
Eis que, de repente, a mulher some.
Eis que uma ânsia febril me consome.
Suas lágrimas, agora escurecendo.
Seu brilho, agora desaparecendo.
Se espalham pela folha sem parar.
E nesta ânsia vou me perdendo.
Me perco e me ponho a chorar.
Minhas lágrimas, também não molham.
E como as dela, caem e se espalham.
Peço a meu Deus que me acalma.
Acalma o corpo, a mente e a alma.
As batidas do meu coração escuto.
Fora isto, o silêncio é absoluto.
Abro os olhos, a folha a minha frente.
Me mostra algo tão surpreendente.
Que não acreditei, mesmo ao ver.
Um poema! Um poema de lágrimas!
Perfeito! Que nem em minhas máximas.
Chegaria sequer próximo de escrever.
Agora eu entendo! Escrever é chorar.
Abrir as portas da tristeza, escancarar!
Esta descoberta me alegrou tanto.
Que acordei em um súbito espanto.
Na minha mesa tinha uma folha.
Deixei cair uma lágrima num bocejo.
Olhei a folha, com entusiasmo e desejo.
E descobri que a minha lágrima molha.
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