O eu poético e o vir-a-ser
Quando nasci não teve anjos nem arcanjos a preconizar o meu futuro
Meu pai, apaixonado pelo saber, profetizou:
- Nasceu uma professora! carregarás bandeiras em dias de luta e receberás troféus em dias de glória!
Cresci com esse bordão na cabeça
e as palavras são a minha armadura,
não as abandono por nada!
De materiais puros vieram os dias de glória
nada em moeda!
Mal sabia que profecia no sertão é destino
Lá, muitas são as mulheres que silenciam
A sina se cumpre quando nela é dado crer
Em dias de chuva fico a pensar nas sementes que irão brotar livremente
assim como voam as gaivotas
Às sextas-feiras recomendo aos meus que atravessem fronteiras
Imagino um chão de estrelas a iluminar os meus passos
Segredo a eles:
- A Geografia não tem limites, e muito menos a imaginação,
obstinadamente eles tentam...
Sempre em torno do mais próximo horizonte
Carrego as dores e as alegrias do mundo
povoada pela maternidade,
sagrada somente para Maria
O amor de mãe me torna plena quando ciente me escuto
Admiro as mulheres que negam os homens por não se responsabilizarem
e entristecida me solidarizo com as que se encolhem
Por assim ser é que milhares de vidas me atravessam
Escolho as viagens subterrâneas
onde somente o ser dar-se conta e se entrega a tudo que a liturgia não recomenda.
Isso meu pai não preconizou
O meu eu é que por assim ser deságua num mar profundo.
Amo ser gauche na vida, mas se isso me bastasse não namoraria.
Nada fundei que tenha concretude
mas o que é o concreto ?
As abstrações são os meus pilares
simbolizo é com o coração, semeando sonhos.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 05 de novembro de 2020.
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