Mendigo (crônica)
Nem acreditei quando me deparei com aquela cena. Aquela situação constrangedora em minha frente deixou-me tão aterrorizado que fiquei estático, não consegui fazer outra coisa senão olhar fixo para aquele que estava diante de mim. Até me esqueci que estava parado numa calçada movimentada, cheia de pessoas apressadas de cabeças baixas a digitar mensagens ou a falar com alguém no telefone ou talvez somente fingindo estar apressadas para não ter que olhar e prestar atenção em quem está sentado às margens das sarjetas...
Aquele homem que eu vi diante de mim, só o pude ver quando ousei me desligar do celular e andar mais devagar pelo caminho que todos os dias eu fazia, mas por estar ocupado, sempre me foi invisível. Este homem estava vestindo elegantes trapos pretos italianos que muito lhe deve ter custado. Seus pés eram envolvidos por uma couraça de cor negra como o asfalto por onde tanto andava. Seu rosto revelava um passado de lutas, desafios, desilusões e um presente cheio de humilhações e de sujeição a situações desumanas. Em suas mãos ele trazia uma sacola da qual por nada se separava, pois nela havia tudo o que possuía em sua vida, e tudo, se resumia em nada. Seu olhar estava desprovido de qualquer tipo de esperança ou de paz. Estava sempre atento e desconfiado como um animal que se vê em constante estado de alerta para defender seu território e assegurar sua sobrevivência.
Meus olhos se encheram de água. Minha garganta deu um nó. Palavra alguma se atreveu a sair da boca. Perdi meu chão. Até o tempo pareceu parar naquele momento. Quando retornei a mim percebi que eu estava diante de uma vitrine. Ela me refletiu a mim mesmo e me fez refletir. Na verdade, aquele homem que eu estava vendo diante de mim era um homem digno de pena, que precisava imensamente de ajuda. Era um infeliz, vítima da sociedade. Um executivo bem sucedido. Tão miserável como qualquer outro mendigo. Tão digno de ajuda como qualquer outro ser humano. O homem que eu estava vendo era eu mesmo refletido na vitrine.
Guilherme Henrique Lopes.