A ATRIZ E O POETA
Alves Andrade
(ou a vitória do Ciúme)
“O ciúme é a véspera do fracasso
E o fracasso provoca o desamor.”
A atriz chegando ao Brasil
Fez sucesso de repente,
Deixando besta a plateia,
Deixando os homens contentes,
Viu a cidade a seus pés,
Via o mundo sorridente.
Ele imberbe, já arauto
Do amor e da liberdade,
Ascendeu então na vida
Com lisura sem maldade,
Verso de encantar a todos
O moço, o velho a beldade.
Se fama arrastava os dois,
O Amor do alto os mirava,
O plano, juntar a ambos,
Assim Ele então tramava,
Sem mesmo eles saberem
Um só caminho trilhavam.
Nos palcos, encanto dela,
Tal qual o Condor voava
O eco das palavras dele,
Bem distante já vibrava,
Ele a mirava em sonhos,
Ela com ele sonhava.
De repente se encontraram
E ocorreu o inexorável,
Ele prostrou-se a seus pés
Beijou-lhe a mão, amável,
Recitou então seus versos,
Com a sua voz adorável.
Embora sendo casada,
Nos seus braços se jogou,
A língua da hipocrisia
Logo logo os difamou,
Não viram nem ouviram
Foi Eros que os consagrou.
Sumiram por algum tempo,
Naquele idílio afogados.
Quando reapareceram,
Eram seres enlevados,
A terra de flor se encheu,
E o Amor foi mais amado.
O sent’mento se fez carne
Por sobre a terra andou,
Até as pedras se amavam,
O Ódio o mundo deixou.
Vitória do Bem ao Mal,
O Bem na terra reinou.
Fez-se a união perfeita
Verso com dramaturgia,
Se ele escreveu Gonzaga
E enquanto pra ela lia,
Ela na tela do tempo
Representando se via.
Se ele na praça cantava,
Ela enlevada assistia;
Se ela representava,
Ele sentia alegria
Enquanto um só via o outro
O outro somente um via.
Mas como Céfalo e Prócris,
Inveja ao mundo causavam,
E toda aquela alegria,
Que as pessoas admiravam,
Em alguns corações torpes
Vis emoções despertava.
As emoções negativas
Turvaram-lhes o caminho
E o alfinete do ciúme
Penetrou bem de mansinho,
Tilintou em seus ouvidos
O seu trágico sininho.
E onde existia cuidado,
Somente agora desídia;
Os olhares um do outro
Via só o que não havia
Nos sonhos sempre a discórdia,
Traição, descuido, perfídia.
E eles, que eram tão próximos,
Tornaram-se tão distantes,
Fizeram-se indiferentes
Ele e ela, tão amantes.
Vivendo ela no Rio,
Ele, aventureiro errante.
E pouco tempo depois,
Grave doença o levou,
Ela, então, mulher do tempo,
Com outro se amancebou.
Para tristeza de Eros,
Ciúme assim triunfou.
Mas nas lides siderais,
Seu ser o dela encontrou
Ele, apenas metade,
Com ela se completou,
Somente naquela esfera
A corda do amor vibrou.
(Alves Andrade)
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