🔴 Ônibus elétrico
Apesar de veículo elétrico aludir a algo futurista, tratando-se de ônibus, resgato à memória afetiva, quando eu era muito jovem, porém estes coletivos já eram arcaicos.
Os ônibus de 1949, antes do Tucuruvi, pareciam ter como destino algum país da Cortina de Ferro. Sempre que embarquei nesse trólebus, tive a impressão de ir, voluntariamente, a um Gulag (campo de concentração soviético). Só caía na real ao ver trabalhadores ou baladeiros (dependendo do horário).
Enquanto o ônibus elétrico esteve em circulação, tive um impasse “esquizofrênico”: o carro era exótico, feio, muito feio, ridículo ou mal executado? Depois da sua retirada de circulação (aposentadoria), exibido como peça de museu, cheguei à conclusão de que o veículo é lindo. Tá bem, exótico. Digo isso, com certa licença poética; se dissesse isto na época, eu seria excêntrico.
Rumo ao Butantan, Pinheiros, Mandaqui ou Tucuruvi, ía, devagar e sempre, o velho, pesado e lento, porém intrépido, estranho meio de transporte. Somente com muita atenção poder-se-ia (com uma arcaica mesóclise) perceber se ía ou vinha.
Velhos ou muito velhos, às cinco da manhã vinha subindo a rua Augusta a quinze por hora. Lento, contudo salvador, acolhedor e eficiente carro. Esse transporte público de características humanas, mostrava-se generoso com trabalhadores e baladeiros, gente de todos os cantos do Brasil, sóbrios e ébrios, pagantes e impostores. Estes, rastejavam embaixo de uma burocrática, porém ineficiente, borboleta (roleta ou catraca). Como o carro era elétrico, nos semáforos vermelhos e paradas de ônibus estabelecia-se um incômodo silêncio muito semelhante ao dos elevadores.
Hoje, aquele trólebus de 1949, com aspecto soviético, porém estadunidense, realiza passeios turísticos. Para quem sentou em seus bancos de couro, o coletivo, com características humanas, leva a uma volta ao passado.
O transporte coletivo parecia pouco convidativo por fora, mas era muito acolhedor, confortável e sonífero do lado de dentro. O que decretava o sono era o ranger das peças internas presas por parafusos gastos. Talvez essa aceitação e o saudosismo sejam frutos da visão do velho ônibus surgindo na subida da rua Augusta. Às cinco horas da manhã o sono só não era mais forte que a expectativa de aparecer o valente veículo exibindo o destino: Tucuruvi.
Cruzando ruas e avenidas de São Paulo, aquele trólebus se impunha e abria caminhos, transportando baladeiros e trabalhadores.
Hoje, aquele ônibus elétrico da CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) não circula mais, fica exposto no Museu dos Transportes Públicos. Virou peça de museu...
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