🔵 Teatrinho
Fui, mesmo sabendo se tratar de uma roubada e prevendo que eu teria que fingir ser um tipo intelectual, “cabeça”, antenado e culturalmente bem integrado. Minha namorada me convenceu da aventura. Imaginei meu figurino “hippie de butique”, inspirado nos habitantes da Vila Madalena, consumidores de cachaça com linguiça ao som de chorinho.
Chegando no teatro, uma senhora, conduzindo o que eu deduzi que era a Galinha Pintadinha, subia as escadas. Ri com a absurda situação, entretanto acho que fui o único. São Paulo proporciona cenas muito mais insólitas sem despertar reações. Nem andando de ônibus ou metrô alguém é capaz de esboçar um sorriso. Mas eu logo vi que aquilo começou de um jeito muito estranho.
O chamariz da peça era um ator que era conhecido por ter atuado em novelas da Globo. Fui, mesmo sabendo que o espetáculo, quando é anunciado pelo elenco estrelado em vez de um bom roteiro, costuma ser um pastiche. Num monólogo, o ator global interpretou Gandhi. Nem a indumentária exigia um investimento que justificasse o preço do ingresso. Uma visita rápida à rua 25 de março, e alguns metros de algodão cru resolveriam o problema.
Sentamos na primeira fila, num pequeno auditório em forma de ferradura. Se o ator possuísse alguma sensibilidade mediúnica, eu seria facilmente expulso do recinto, porque meus pensamentos denunciavam que estava incomodado e não contribuía para aquela vibração bicho-grilo.
Pela pobreza do texto, com a profundidade de um teatrinho escolar, logo vi que o ator famoso se tratava de um farsante, no mínimo um canastrão. Além disso, o panorama geral explodiria um medidor de “bichogrilice”. Praticamente todos fingiam estar vendo o suprassumo da arte dramática, como se estivessem diante de um Laurence Olivier. Eu tinha certeza, no meio daquela plateia havia outras pessoas se sentindo infiltradas naquele bando de paulistanos metidos a “cabeça”. Tudo o que eu queria era fugir dali. Porém, o formato do auditório impediria a ação, pois eu invadiria o palco, arruinando a peça e correndo o risco de o ator perguntar se eu não gostei da representação.
Bem que eu poderia ter dado um murro no intérprete da Galinha Pintadinha e fugido fantasiado do galináceo brincalhão.
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