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A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
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