BAÚS
I
Com tanto mar e tanta canga
muxoxo de japecanga
solidão luso-além-mar,
fiz-me guerra sanguessuga
cravo e santo com verruga
no barlavento de salgar.
Caravelas almirantes
rainha morta no mirante
do poema-soletrar.
Caminhante esotérico
massagista teleférico
no equinócio lunar.
Carrego ilhoses navegantes
moinhos ventos elefantes
no roceiro desbravar.
Quadra de fome e cansaço
caramujo seca e bagaço
soleira de copiar.
Amor de farra afamado
água terra fruto arado
baús pontes relembrar.
Caminharei para os desertos
lá estarei sempre desperto
ventanas de quebra-mar.
Matulão canto e terreiro
conduz compasso ligeiro
dez passos capoeirar.
O sonho é feito bodega
sacola de toda refrega
meu canto nordestinar.
II
No espaço avesso da carne
viver tormentos siderais
encantos e desencarne.
De aço e rugas teço espera
travo e traço carnavais
convivência e biosfera.
Lunetas e astrolábios
quebrei sextantes avais
e trevo crescente e sábio.
Ganhar prostituta bela
vestir de jeans cardeais
abrir sites na gamela.
Cocada de munganga
tapiocas aurorais
vazios de bugiganga.
Samba velhice e tormento
caramelo sopa de pedra
delírio de livramento.
Pastoril leve praieiro
mingau de lua crescente
aurora de candeeiro.
Umbuzada bambuzal
Há essa fome detenta
nas abas do milharal.
Feira cancela e bodoque
cometa no mulungu
xarope de bate-entope.
Mulher candango bizarro
cuscuz sacola e bruaca
memórias prontas no sarro.
Recife, 29/04/2005
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