Lista de Poemas
SOBRE O SONO
Enquanto a noite adiciona sermões de sombras
ao voluntário calendário dos sonhos
Cresce a solidão nos agônicos mundos
onde sátrapas do medo
homens fadas e duendes assustam.
Preciso de barro
para moldar auroras
preciso de ferro
para forjar vontades.
Não creio em medo cinzelado
por fantasmas noturnos
senão no medo da minha figura
Transitando no espelho.
Vejo-me grotesco na alfândega da noite
assim como sentencio minha vontade
ao silêncio, diante de si mesma
exposta no reflexo do espelho.
Quanto doem meus erros
Quanto afligem-me as palavras
erradas que pronunciei
ao longo dessa biografia.
Um urro perpassa o frio do espelho
Enquanto sinto o mergulho
no torpor do sono...
a paz não sobrevém!
Olinda, 03.10.2020.
SOBRE FRUTAS E SOLIDÃO
... Então vieram os cajus e as pitangas;
também vieram pitombas e araçás.
As seriguelas e umbus, os trapiás,
brotaram depois rasgando o fora da terra.
Depois dançaram mangas espadas
e mangas rosas cheirando a moça-virgem
as carambolas e os manguitos
também ali dançaram
convergindo para o núcleo outonal
abraçados no ciclo das pitangas.
Não há laranjas no terreno...
laranjeiras têm espinhos...
Nós somos espinhos
e ardemos a dor da convivência...
Somos transeuntes na dor
e nas quimeras da febre de agosto.
Depois vieram os açaís e os umbus
os juás, os sapotis e muricis
os jambos-roxos e as mangabas
As graviolas logo surgiram
no tempo dos cajás e das pitombas.
Penderam sobre o solo
pinhas, tamarindos, seriguelas
e as jacas encouraçadas de oriente.
Um acre olor dardejando o horizonte
desta cidade manguezina ...
tão cheia de cajus e de pitangas!
Ilha de Itamaracá, 07.02.2025.
Iran Gama
CANÇÃO PARA DIOGO
Sabe menino Diogo
te desconheço o semblante
mas quero a palavra nuvem
para navegando sonhos
sentir o afago mindinho
do teu rosto de pelúcia
Quero o sono-pirilampo
menino de rastro alado
para mergulhar na lenda
e reacender os contos
da minha horta de infâncias
aberta aos meninos-netos
Quero teu pomar de mitos
para conceber ao sério
como em tua voz de aletria
o queixo do pé sorrindo
infante da ventania
da meia rasgada e curta
Sabe menino Diogo
quero ver os passarinhos
cantando ao vento-viola
sem ver o bico da paz
trinando à triste batuta
das talas de uma gaiola
MEMÓRIA DE CURUMIM
Fui menino de pés no mangue
coabitando com caranguejos e siris,
pombos roxos e aratus. Depois...
muito além do dízimo da lama,
levado pelo Terral,
finquei bandeira no mar...
de onde sempre retorno,
com o revolver das ondas
e o sorriso das estrelas,
ao fundo do meu quintal.
Olinda, outubro, 08, 2024, 16:54hs.
ELEGIA PARA LÁZARO AMORIM
Súbito em zoom
a câmara emudeceu,
e em lenta e calma agonia lentamente
em close pôs o triste olhar imenso
e soprou clara leve e longamente
as longas notas do toque de silêncio.
Teu sangue Lázaro bandeira aberta
pelo rubro diapasão da violência
gritou um mar na calçada em vã alerta
no país da impunidade e da demência.
Tua voz-ofício canção lenticular
na panda cronologia dos mirantes
vingou nordestes luz auricular
foi signo radial eco eletrizante.
Jamais filmaste pássaros de água
ou peixes de ventania tu filmaste.
Surpreendeste mangues taipas suas mágoas
nas ribeiras da vida que miraste.
Dorme em paz icônica liberdade:
os úberes da morte te alimentam
graves pombas da terra sem idade
na paz do teu viver se dessedentam
e chora o tempo e a chuva branca chora.
Lázaro Lázaro gritam os ventos
e peixes e sereias em mão sonora
erigem tua estátua aos elementos.
Para que as longarinas da morte
te ceifassem espigas de terra caminhaste
semeaste risos pomares de concórdia
a paz precordial na tempestade humana,
uma canção verdemente tecida
com os fios marinhos da noite
uma oração Lázaro feita de argila
do barro mais virgem
do peixe mais puro
filmada no azul pergaminho
da mais límpida memória
no mariscado cristal das horas.
Os panambis Lázaro os panambis
nascem do teu sangue
e adejam na flor do teu silêncio
e Justiça sentindo as Valquírias
alçarem teu corpo além dos ares
implora aos guanambis
os olhos desvendar-lhe
porque Lázaro das mãos do caeté
súbito em zoom
a câmara emudeceu.
Olinda, 02/agosto/1984
MEMÓRIA DO PESCADOR
Iran Gama
Tua voz navegava esperanças
nos contrafortes da dor
que combatias,
moderno Jorge contra o dragão.
Vestias branco como de branco
vestem-se os dias
e as noites tuas eram verdes
navegando nas coxilhas
do amor que urdias
perigosamente urdias
nesse convívio cruel,
coito da Dor com o Sofrimento.
Vesti a dor da impotência
no leme de uma jangada desgovernada
impelida pelo vento da adversidade
nessa arrogância que o medo impõe.
Ouço nas colinas o Terral soprando
trazendo o cheiro dos campos
e o gosto de barro com sua visão
de barranco visto do mar
como víamos
enquanto caminhávamos sobre as águas
nos confins da Ilha de Itamaracá.
Jamais vi em ti senão calmarias
dessas que o Terral alenta
e que a chuva sob o sol dessedenta
nas manhãs simplórias de janeiro.
Agora, tua jangada vai
rumando para o Valhala
esse misterioso continente do não ser.
Atrás ficam as pegadas profundas
de amor, ternura, abnegação
essa parte imaterial da equação humana
que decifraste para nós.
Adeus, Pescador!
Olinda, 17/06/2024.
Memorando a Santana
I
Chegavas caminhando no sorriso
vestindo carnavais e nostalgias
os olhos rebrilhando como guizos
os dedos libertando alforrias.
A luz do pentagrama em tua voz
e a vida que no canto conduzias
estrelas derramavam sobre nós
carentes prematuros de alegrias.
–– As portas da memória por um trato
guardaram esses teus artesanatos.
Tangias teus acordes de ternura
no Pátio de São Pedro Pescador
crescendo tua oral arquitetura
no Bangüê de poeta e pecador.
Sofreste por seresta o escalpelo
na paz do violão debulhador.
Da cabeça faltaram-te os cabelos
tarraxados ao pinho trovador.
–– do Arraial da alegria foste embora
levado por São Pedro céu afora.
Agora o Pátio lembra alegre o desatino
mas chora feito menino
teu vulto que se calou.
–– Está gravada tua voz nessas bandejas
nas pedras e nas cervejas
do Pátio do Pescador.
Parabit
por seu valor à esquerda
mas à direita volteia múltiplos
que em dez campeia
deixando de ser número
firmando-se então em ceia.
Altiplano de si mesmo o zero esplende
no recôncavo da fórmula
e reformula o sentido próprio
no lirismo amorfo do ser binário
formatando-se em bit.
Par romântico do uno
não perfaz senão nuvens e sombras
no algoritmo das penumbras
e no sigilo campeante do ser mudo.
É ser tonitroante mas sem voz
e sem olhos que lacrimejem
no presídio nanométrico
cuja maior grandeza se contrai e agiganta
no poder que constrói e alimenta
o zeteticismo da nanotecnologia.
Olinda, 13/12/2023.
BAÚS
I
Com tanto mar e tanta canga
muxoxo de japecanga
solidão luso-além-mar,
fiz-me guerra sanguessuga
cravo e santo com verruga
no barlavento de salgar.
Caravelas almirantes
rainha morta no mirante
do poema-soletrar.
Caminhante esotérico
massagista teleférico
no equinócio lunar.
Carrego ilhoses navegantes
moinhos ventos elefantes
no roceiro desbravar.
Quadra de fome e cansaço
caramujo seca e bagaço
soleira de copiar.
Amor de farra afamado
água terra fruto arado
baús pontes relembrar.
Caminharei para os desertos
lá estarei sempre desperto
ventanas de quebra-mar.
Matulão canto e terreiro
conduz compasso ligeiro
dez passos capoeirar.
O sonho é feito bodega
sacola de toda refrega
meu canto nordestinar.
II
No espaço avesso da carne
viver tormentos siderais
encantos e desencarne.
De aço e rugas teço espera
travo e traço carnavais
convivência e biosfera.
Lunetas e astrolábios
quebrei sextantes avais
e trevo crescente e sábio.
Ganhar prostituta bela
vestir de jeans cardeais
abrir sites na gamela.
Cocada de munganga
tapiocas aurorais
vazios de bugiganga.
Samba velhice e tormento
caramelo sopa de pedra
delírio de livramento.
Pastoril leve praieiro
mingau de lua crescente
aurora de candeeiro.
Umbuzada bambuzal
Há essa fome detenta
nas abas do milharal.
Feira cancela e bodoque
cometa no mulungu
xarope de bate-entope.
Mulher candango bizarro
cuscuz sacola e bruaca
memórias prontas no sarro.
Recife, 29/04/2005
CANÇÃO PARA DIOGO
Sabe menino Diogo
te desconheço o semblante
mas quero a palavra nuvem
para navegando sonhos
sentir o afago mindinho
do teu rosto de pelúcia
Quero o sono-pirilampo
menino de rastro alado
para mergulhar na lenda
e reacender os contos
da minha horta de infâncias
aberta aos meninos-netos
Quero teu pomar de mitos
para conceber ao sério
como em tua voz de aletria
o queixo do pé sorrindo
infante da ventania
da meia rasgada e curta
Sabe menino Diogo
quero ver os passarinhos
cantando ao vento-viola
sem ver o bico da paz
trinando à triste batuta
das talas de uma gaiola
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Tu és "O CARA"