Súbito em zoom
a câmara emudeceu,
e em lenta e calma agonia lentamente
em close pôs o triste olhar imenso
e soprou clara leve e longamente
as longas notas do toque de silêncio.
Teu sangue Lázaro bandeira aberta
pelo rubro diapasão da violência
gritou um mar na calçada em vã alerta
no país da impunidade e da demência.
Tua voz-ofício canção lenticular
na panda cronologia dos mirantes
vingou nordestes luz auricular
foi signo radial eco eletrizante.
Jamais filmaste pássaros de água
ou peixes de ventania tu filmaste.
Surpreendeste mangues taipas suas mágoas
nas ribeiras da vida que miraste.
Dorme em paz icônica liberdade:
os úberes da morte te alimentam
graves pombas da terra sem idade
na paz do teu viver se dessedentam
e chora o tempo e a chuva branca chora.
Lázaro Lázaro gritam os ventos
e peixes e sereias em mão sonora
erigem tua estátua aos elementos.
Para que as longarinas da morte
te ceifassem espigas de terra caminhaste
semeaste risos pomares de concórdia
a paz precordial na tempestade humana,
uma canção verdemente tecida
com os fios marinhos da noite
uma oração Lázaro feita de argila
do barro mais virgem
do peixe mais puro
filmada no azul pergaminho
da mais límpida memória
no mariscado cristal das horas.
Os panambis Lázaro os panambis
nascem do teu sangue
e adejam na flor do teu silêncio
e Justiça sentindo as Valquírias
alçarem teu corpo além dos ares
implora aos guanambis
os olhos desvendar-lhe
porque Lázaro das mãos do caeté
súbito em zoom
a câmara emudeceu.
Olinda, 02/agosto/1984