Iran Gama

Iran Gama

n. 1943 BR BR

Filho da lavadeira Iraci Gama de Souza (Iara), Iran Gama nasceu no Cais de Santa Rita, no Recife, no dia 25.09.1943. Advogado, atua na Advocacia desde 1995. É poeta, ficcionista e artista plástico. Publicou os livros CANTO MURAL (poesia), FRAGMENTÁRIO (poesia) e ROTA SIGMA (micronovela).

n. 1943-09-25, Cidade do Recife, estado de Pernambuco, Brasil.

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POEMA CONVEXO PARA JOAQUIM CARDOSO


 
Imune aos histerismos
de calcinhas rendadas
e panfletos de entrecasca
            e ao ciclo dos gritos cavalgadores

fiel de si mesmo
todo princípio todo sonata
tem a mente em caligramas
            na mão o peso matinal
                        das alquimias naturais
            olhos de círculos mirantes
            o perfil de gênese linear
            o sonho de planície
                        sem murais
            a vocação de rasga-mundos,
Cardozo, Joaquim.

 De cristal e aço
fez consoantes e vogais
                        a latiníssima palavra
                        a pontuação undecimal
                        a rima quântica
                        a sindérese das emoções
                        o verso pernambucanoédrico,
Cardozo, Joaquim.
 
Sem horizontes provisórios
tua poesia gravitacional:
            as contorções estruturais
                        os pés firmes pés no chão
            coordenando os azimutes
                        da alma essencialmente estética
            no lirismo topograficamente humano
                        sem ingênuos acordes
            dessa geometria poética,
Cardozo, Joaquim.

 Tua cactácea solidão
            tarugo de vigília
                        entre o eu e o mundo
incorporada ao cristal do aço
            na dor trigonométrica
                        dos quadriláteros humanos,
Cardozo, Joaquim,
cresceu-te de granito
o social do gesto na palavra.

 Memórias do Zumbi
do chão varzino
            de muitos umbigos nordestinos,

implodiram dinâmica e dias
            dias dos sustos das faces aprisionadas
            permanentemente torturadas
                        a anemia da inflação
                        o arrocho salarial
                        a tridimensão do silêncio
                        o nó do desemprego
                        a pandemia da fome
                        o escrutínio da miséria
            tristes duendes da crônica social
                        eretos na mecânica do mundo,

 onde a cópula do ódio com a dor
também é um conjugado de prismas,
Cardozo, Joaquim.

E esse canto todo agrimensura
            se vestiu ventos
                        também vestiu alertas
                        do caos contra a semeadura:
                        enésimos escritórios de espantalhos
                        atomizando a liberdade
                        (progresso= vida x destruição2).

 Um canto todo vivido
            nordestemente entoado,
Cardozo, Joaquim.
 
Recife, 1981.
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Poemas

33

PASSANTES

 

 

Entre os cães da casa, Rose resmunga.

Sujeira... sujeira... E trabalha... trabalha...

Quando Rose parará? 

Quando pararão os cães?

Alguém parará?

 

Os cães ladram pelas ruas,

olhando sobre os ombros as estrelas.

Estrelas não rosnam, mas cães ladram...

Ladram os cães, dentro de casa e nas ruas

ensimesmando os ares e a lua.

 

Com qual lua sonhará Rose?

Há lua que míngua, outra que cresce...

Há lua nova no pátio e lua cheia no quintal...

Os cães ladram à lua...

De quarto em quarto a lua passa

como passam os cães

e passam os ventos

e a vida de Rose passa!

 

Olinda,23/08/2023.

83

DUAS VIDAS

 

 

Maduros anos caminhando nesta estrada

Depois da aurora do sonho materno

Materializado – eu me lembro.

 

Foram passos longamente percorridos

Costurando a roupagem da vida

Desorganizada – eu me lembro!

 

E tu vieste, verdejantes vinte anos

esquecendo os maduros ao redor

iludidamente – eu me lembro.

 

Posso ser ácido, azedo, salgado e amargo

nessa salada de sentimentos duros que exponho

decididamente – eu  me lembro.

 

Mas você se é doce na folha é amarga no talo

e vocifera agressão quando sussurra carinho

desordenado – eu me lembro!

 

Não chore, mulher, o córrego seca

após as chuvas e o solo fica estéril

longamente – eu me lembro.

 

Não vejo o belo no espelho

não choro passividade nas pegadas

resumidamente – eu me lembro.

 

Assim foi nos dias já ultrapassados

como visto do alto destas cãs

abertamente – eu me lembro.

 

Fizemos a vida como ela está

subterfúgios ludíbrios sem panaceia

decididamente – eu me lembro,

 

peremptoriamente!

 

 

Olinda,

28/05/2024.

21

Do Ofício



Trago no dorso das mãos
o destro exame da matéria
terra vento água homem
espaço tempo existência
vida e sofrimento
morte e liberdade
paz principalmente.

Teço o roteiro e o traçado
no azul da servidão
do verso e da palavra
trocada por destino
para o homem revolver o mundo
e levá-lo além do impossível azul
de todas as palavras.
                                                          
Do livro: "Fragmentário", Ed. autor, 1982, PE
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Hilton, tb filhi da " LAVASEIRA"
Hilton, tb filhi da " LAVASEIRA"

Tu és "O CARA"