ELEGIA PARA LÁZARO AMORIM

Súbito em zoom

a câmara emudeceu,

 

e em lenta e calma agonia lentamente

em close pôs o triste olhar imenso

e soprou clara leve e longamente

as longas notas do toque de silêncio.

Teu sangue Lázaro bandeira aberta

pelo rubro diapasão da violência

gritou um mar na calçada em vã alerta

no país da impunidade e da demência.

 

Tua voz-ofício canção lenticular

na panda cronologia dos mirantes

vingou nordestes luz auricular

foi signo radial eco eletrizante.

Jamais filmaste pássaros de água

ou peixes de ventania tu filmaste.

Surpreendeste mangues taipas suas mágoas

nas ribeiras da vida que miraste.

 

Dorme em paz icônica liberdade:

os úberes da morte te alimentam

graves pombas da terra sem idade

na paz do teu viver se dessedentam

e chora o tempo e a chuva branca chora.

Lázaro Lázaro gritam os ventos

e peixes e sereias em mão sonora

erigem tua estátua aos elementos.

 

Para que as longarinas da morte

te ceifassem espigas de terra caminhaste

semeaste risos pomares de concórdia

a paz precordial na tempestade humana,

 

uma canção verdemente tecida

com os fios marinhos da noite

uma oração Lázaro feita de argila

do barro mais virgem

 

do peixe mais puro

filmada no azul pergaminho

da mais límpida memória

no mariscado cristal das horas.

 

Os panambis Lázaro os panambis

nascem do teu sangue

e adejam na flor do teu silêncio

e Justiça sentindo as Valquírias

 

alçarem teu corpo além dos ares

implora aos guanambis

os olhos desvendar-lhe

porque Lázaro das mãos do caeté

 

súbito em zoom

a câmara emudeceu.

 

Olinda, 02/agosto/1984

130 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.