"há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios" (Roberto Piva)

rilkeanos anjos sodomitas 
nos mictórios da minha cabeça de ozônio
eu ergo o braço direito em direção ao Sol
e o braço esquerdo em direção à Lua
não faço parte de grupinhos neonazistas 
embora também gostasse de matar alguns fedelhos
e gostaria (quem sabe?) de distribuir folhetos
lá no parque das árvores fecais
folhetos apologéticos às maiores barbáries

Laforgue se torna um cavalo e eu o cavalgo velozmente
atravessando os pampas da minha mente
cruzo coxilhas e sangas e grandes estancieiros
me saúdam com seus chapéus cheio de sangue

o dia nasce langoroso e eu aguardando a luz 
a luz enviada pelos falsos deuses de Blake 
enquanto isso Pierrô chora sorrindo sobre a minha cama
Arlequim dança além da morte na minha sala-de-estar
e Polichinelo sorrateiro furta alguns dos meus objetos lunares
mas tudo está bem - a plateia gargalha
e no gargalo desta dimensão nobilitante eu me dispo 

me disponho aos favores de estranhos anfíbios 
me deixo ir junto com insetos gigantescos 
para onde vamos não sei 
e já não me interessa 
vou levado pela shakespeariana emoção do momento
vou e quem sabe se voltarei - eu não sei
os rilkeanos anjos sodomitas 
saem dos mictórios da minha cabeça pervertida 
o dia raia finalmente com força indefinível 

Whitman me entra casa adentro arrombando a porta
com seu chapéu cheio de relvas reluzentes 
entra salmodiando belezas a um deus-infinito 
e eu tímido embora excitado o abraço emocionado 

não faço parte de quaisquer grupinhos
sou um lobo solitário do começo ao fim 
do Alfa ao Ômega sou sozinho e escondo minhas armas
no porão mágico da minha torre de marfim 

maestro que sou rejo esta ópera com minha batuta de carne
mas logo sou sugado para o subpalco e já não comando nada
meus personagens improvisam com sua fome de vida
improvisam com toda sua luxúria de fantasmas 
e a minha batuta de carne ficou ali no palco 
e de alguma forma viva ela se retorce como uma lagartixa 
e a plateia já não ri e se entreolha
e incomodada ela esvazia o teatro 
e cada um vai para sua casa morrer mais um bocado 
morrer burguesmente está certo
e os personagens aos poucos também somem
dissolvem-se no ar - tornam-se puro fumo
e eu volto ao palco e estou totalmente sozinho no teatro
neste teatro que talvez seja apenas a minha mente

respiro com dificuldade mas profundamente 
e García Lorca vem em minha direção com trejeitos de marica
impossivelmente ele equilibra um piano na cabeça 
e me fala sobre os bravos cães da Andaluzia 
e sobre os geniais burros de Castela-Mancha
e com o piano já no chão ambos sentamos para tocar juntos
e sai uma música homossexualmente palpável 
até sentirmos que os deuses nos metem alfinetes sob as unhas

pessoanos anjos sodomitas 
nos escritórios da Rua dos Douradores 
traduzindo cartas e fazendo trabalhos deveras burocráticos
enquanto eu e Álvaro de Campos vagamos pelas ruas lisboetas
entramos em um e outro bar e bebemos vinho às dez da manhã
(um flagrante de litro para todos pais de família)
eu ergo a mão direita em direção ao Ocidente
(onde tudo morre)
e a mão esquerda em direção ao Oriente 
(onde tudo nasce)
não faço parte de grupinhos vanguardistas
embora também gostasse de parir um feto natimorto
e gostaria (quem sabe?) de distribuir folhetos
lá no parque das árvores fecais
folhetos apologéticos a incestos e pedofilias 

no meu automóvel feito de brumas disparo pela cidade
a manhã é radiante e vazia 
é como se toda a população tivesse sido exterminada durante a noite
mais sozinho do que nunca
celebrando a solidão como um bem impermutável 
abro a janela do carro e grito a plenos pulmões:
não será tão fácil dar cabo de mim, oh oficiais da normalidade!
não será tão fácil sumir comigo, oh burocratas do bem-estar!
não será nada fácil acabar comigo, oh ministros da felicidade!

estou em casa (será que sempre estive em casa?)
deito na cama e Álvaro de Campos deita comigo
ele diz: ninguém saberá que fuzilamos tanta gente hoje
eu concordo embora não me lembre com clareza -

e nos damos aos mãos e adormecemos como bebês.

(31/07/26)

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