Daniel Smuler

Daniel Smuler

Daniel Smuler foi/é um poeta de Porto Alegre, Brasil, onde sempre morou. É autor de dois livros ("Asilo e Anonimato", de 2020, e "De agora em diante musgo", 2025), ambos editados de forma independente. Também é autor de outro livro, ainda não concluído; e até é possível, por que não?, que se torne autor de outros mais.

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Poema 107 do livro "De agora em diante musgo"

Algum dia serei jovem?
Algum dia terei um coração?
Não sei por que tudo é tão escuro.
Mas ainda tenho estas balas,
e meu rifle está apenas dormindo.

Aquele ano nunca sairá da minha cabeça?
A vida é tão torta que eu caio.
No entanto, do chão eu vejo tudo.
Tu não te escondes, Rei de nada.
No fim das contas sou eu que saio rindo.

Jovem nunca serei, é certo.
Coração, só tenho um cheio de cinzas.
Mas há algo de que não desconfiam:
embaixo da minha cama,
entre o pó e a morte, há um deus
esperando o seu nascimento,
esperando...

Morto, talvez, eu serei jovem –
e ele,
o deus incógnito e amargo,
ele nascerá.

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Poemas

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Poema 107 do livro "De agora em diante musgo"

Algum dia serei jovem?
Algum dia terei um coração?
Não sei por que tudo é tão escuro.
Mas ainda tenho estas balas,
e meu rifle está apenas dormindo.

Aquele ano nunca sairá da minha cabeça?
A vida é tão torta que eu caio.
No entanto, do chão eu vejo tudo.
Tu não te escondes, Rei de nada.
No fim das contas sou eu que saio rindo.

Jovem nunca serei, é certo.
Coração, só tenho um cheio de cinzas.
Mas há algo de que não desconfiam:
embaixo da minha cama,
entre o pó e a morte, há um deus
esperando o seu nascimento,
esperando...

Morto, talvez, eu serei jovem –
e ele,
o deus incógnito e amargo,
ele nascerá.

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Poema 539 do livro "De agora em diante musgo"

Que achem o que achem
se acharem que devem achar qualquer coisa,
ou então que não achem nada:
eu, por mim, não acharei coisa alguma
a não ser na medida da perda,
na medida de um desacerto brutal.

É natural que achem qualquer coisa,
eles que amam ter opiniões sobre qualquer coisa,
que em qualquer coisa gostam de meter o focinho.
Então que achem o que acharem, não me importa,
mas sobretudo me deixem de fora dessa vergonha,
deixem que eu seja alheio como sou por natureza.

Que eu, por mim, não acharei nada
a não ser na medida da derrocada,
na medida precisa do desmoronamento,
com a exótica imperfeição dos cogumelos
e o semblante ascético da anarquia.

1

OPERA BUFFA

"há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios" (Roberto Piva)

rilkeanos anjos sodomitas 
nos mictórios da minha cabeça de ozônio
eu ergo o braço direito em direção ao Sol
e o braço esquerdo em direção à Lua
não faço parte de grupinhos neonazistas 
embora também gostasse de matar alguns fedelhos
e gostaria (quem sabe?) de distribuir folhetos
lá no parque das árvores fecais
folhetos apologéticos às maiores barbáries

Laforgue se torna um cavalo e eu o cavalgo velozmente
atravessando os pampas da minha mente
cruzo coxilhas e sangas e grandes estancieiros
me saúdam com seus chapéus cheio de sangue

o dia nasce langoroso e eu aguardando a luz 
a luz enviada pelos falsos deuses de Blake 
enquanto isso Pierrô chora sorrindo sobre a minha cama
Arlequim dança além da morte na minha sala-de-estar
e Polichinelo sorrateiro furta alguns dos meus objetos lunares
mas tudo está bem - a plateia gargalha
e no gargalo desta dimensão nobilitante eu me dispo 

me disponho aos favores de estranhos anfíbios 
me deixo ir junto com insetos gigantescos 
para onde vamos não sei 
e já não me interessa 
vou levado pela shakespeariana emoção do momento
vou e quem sabe se voltarei - eu não sei
os rilkeanos anjos sodomitas 
saem dos mictórios da minha cabeça pervertida 
o dia raia finalmente com força indefinível 

Whitman me entra casa adentro arrombando a porta
com seu chapéu cheio de relvas reluzentes 
entra salmodiando belezas a um deus-infinito 
e eu tímido embora excitado o abraço emocionado 

não faço parte de quaisquer grupinhos
sou um lobo solitário do começo ao fim 
do Alfa ao Ômega sou sozinho e escondo minhas armas
no porão mágico da minha torre de marfim 

maestro que sou rejo esta ópera com minha batuta de carne
mas logo sou sugado para o subpalco e já não comando nada
meus personagens improvisam com sua fome de vida
improvisam com toda sua luxúria de fantasmas 
e a minha batuta de carne ficou ali no palco 
e de alguma forma viva ela se retorce como uma lagartixa 
e a plateia já não ri e se entreolha
e incomodada ela esvazia o teatro 
e cada um vai para sua casa morrer mais um bocado 
morrer burguesmente está certo
e os personagens aos poucos também somem
dissolvem-se no ar - tornam-se puro fumo
e eu volto ao palco e estou totalmente sozinho no teatro
neste teatro que talvez seja apenas a minha mente

respiro com dificuldade mas profundamente 
e García Lorca vem em minha direção com trejeitos de marica
impossivelmente ele equilibra um piano na cabeça 
e me fala sobre os bravos cães da Andaluzia 
e sobre os geniais burros de Castela-Mancha
e com o piano já no chão ambos sentamos para tocar juntos
e sai uma música homossexualmente palpável 
até sentirmos que os deuses nos metem alfinetes sob as unhas

pessoanos anjos sodomitas 
nos escritórios da Rua dos Douradores 
traduzindo cartas e fazendo trabalhos deveras burocráticos
enquanto eu e Álvaro de Campos vagamos pelas ruas lisboetas
entramos em um e outro bar e bebemos vinho às dez da manhã
(um flagrante de litro para todos pais de família)
eu ergo a mão direita em direção ao Ocidente
(onde tudo morre)
e a mão esquerda em direção ao Oriente 
(onde tudo nasce)
não faço parte de grupinhos vanguardistas
embora também gostasse de parir um feto natimorto
e gostaria (quem sabe?) de distribuir folhetos
lá no parque das árvores fecais
folhetos apologéticos a incestos e pedofilias 

no meu automóvel feito de brumas disparo pela cidade
a manhã é radiante e vazia 
é como se toda a população tivesse sido exterminada durante a noite
mais sozinho do que nunca
celebrando a solidão como um bem impermutável 
abro a janela do carro e grito a plenos pulmões:
não será tão fácil dar cabo de mim, oh oficiais da normalidade!
não será tão fácil sumir comigo, oh burocratas do bem-estar!
não será nada fácil acabar comigo, oh ministros da felicidade!

estou em casa (será que sempre estive em casa?)
deito na cama e Álvaro de Campos deita comigo
ele diz: ninguém saberá que fuzilamos tanta gente hoje
eu concordo embora não me lembre com clareza -

e nos damos aos mãos e adormecemos como bebês.

(31/07/26)

8

Os mortos comem demais


Não há comida suficiente
porque os mortos comem demais.

Não há manhã suficiente 
porque os pássaros acordam demais.

Não há luz bastante, nem água
nem horizonte bastantes,
porque as crianças sangram demais.

E nós que queríamos as plantas de cal,
a encruzilhada dos ventos,
a romaria do impossível!
Sim, nós que queríamos...

Mas não há vida suficiente
porque os mortos vivem demais. 
 

217

Roubos

Quando somos crianças

os adultos nos roubam o nariz.


Quando somos adultos

as crianças nos roubam os ouvidos.

 

Quando somos muito velhos,

uns e outros nos roubam a boca.

 

E quando enfim somos mortos,

todos eles nos roubam o corpo todo.

184

sem título

Era como se me cagassem em cima.
Era como se um tubarão agonizasse
por cima de mim e eu,
por correspondência solidária,
agonizasse sob seu volume oceânico.
Era como se me retirassem o chão,
como se me roubassem o próprio
pisar o solo, a inteira gravidade.

Era como se um deus me cagasse em cima,
ou como se me cagassem em cima um deus.

187

A eles, os animais (poema 661 de Asilo e Anonimato)

É um cachalote dormindo
verticalmente. É um ínfimo besouro
carregando as fezes que o alimentam.
É um fantasmal cardume de peixes
fazendo seu gesto hipnótico.
É um urso gigantesco
que se roça na árvore centenária
como se dançasse no infinito.
É o cachorro que pergunta,
é a formiga que trabalha,
é a lesma que, embora não pareça,
vive tão veloz. É o uivo
do lobo ecoando no ermo.
É o ronco do búfalo na confusão
da savana. É o vagaroso esgar
da preguiça entre a beleza do verde.
É a família de elefantes
destruindo e criando. É o sangue
na bocarra da leoa. É o coito
barulhento dos gatos.
É um pinguim que caminha
como que bêbado. Ou uma morsa
que acorda com mais bondades
que qualquer religião.
Ou a dor de dente do gorila,
ou o parto da canguru,
ou a girafa bebendo água
na sua arte ininteligível.
É a ópera dos mosquitos,
é a sábia cegueira das toupeiras,
é o instante preciso em que a onça
se decide a atacar. É a presa
morrendo: suas tripas dançando no chão.
É o pássaro, talvez um sabiá,
cantando sem medo na cidade.
É a águia altaneira, implacável,
caçando seu alimento ambulante.
É um cachalote de trinta
ou quarenta toneladas
dormindo verticalmente,
no oceano absurdo,
como se o Universo não existisse.

200

Poema 166 – Asilo e Anonimato

O que se aprende com os defuntos
não é estar mudo nem imóvel –
é estar íntegro, acabado, dócil
mas de uma doçura de rocha.

O que se aprende com os defuntos
é estar presente, corpo inteiro,
isolado e ineficazmente colossal,
submerso em um frio tectônico.

Não, o que se aprende com eles
não é a arte da inércia, o nada –
é outro grito do ser, a fissura
que se abre em cada talvez.

184

Maciço facial ósseo

Alucino. Me transito.

Me transmigro, impossível:

às cegas sorrateiro,

sombriamente ao sol,

tangendo o violão do inútil.

 

O crânio assomando e sumindo,

e de novo assomando (lúdico?)

nas janelas da razão, 

sem qualquer serventia nem dó. 

Alucino, sim. Me transmito

a intratáveis jogos e mitos.

Tosco e perdido, eu grito –

e sou faísca e goma e pó. 

 

Assim só, de litro em litro,

com um pé na masmorra

e o outro no delito. 

Me transfiguro, improvável:

ao céu sem deus,

relampejante sob tetos,

caçando o coelho da contradição.

 

Alucino. Me desfaço 

em hino, em faca,

quietude barata ou estrondo. 

Traço o quadrado redondo. 

O crânio, ainda, piscando

no breu mais longo,

e eu andando e andando.

 

Acordo. Me transmito,

a mim mesmo ou a outro bicho,

não sei, mas impossível: 

batendo nas teclas dum piano invisível.

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