Soneto do Efêmero
Adeus às essências de cristal polido,
aos véus que enganam mãos sedentas de verdade.
A poesia não cultiva o imutável — habita
o instante em que o caos, vestido de ritmo,
devolve ao olho bruto o seu próprio reflexo,
sem mentira, sem mapa, sem nome. Não há
consolo no verso, só o corte súbito
que sangra sentido no branco da página.
Celebra o efeito, não a causa; o tremor,
não o osso. Desfaz certezas como um vento
que apaga seu rastro na areia molhada.
O informe, sob a máscara do compasso,
cuspindo de volta o que nunca foi nosso,
um espelho sem fundo, um fogo sem brasa.
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