CONVERSEI COM O MOINHO DE VENTO
Conversei com o moinho de vento
num fim de tarde, quieto, quase suspenso.
As pás giravam como quem pensa devagar,
e eu perguntei-lhe: “o que é viver sem parar?”
Ele riu num rangido antigo de madeira:
“É dançar com o invisível a vida inteira.
O vento vem e vai, nunca é meu,
mas sem ele, diz-me… quem sou eu?”
Sentei-me na terra, ouvindo o seu girar,
como se cada volta fosse um segredo a contar.
“E não te cansas?”, arrisquei dizer,
“de rodar sempre, sem nunca escolher?”
“Cansa o que é preso, não o que flui,”
respondeu o moinho, firme e gentil.
“Eu não persigo o vento que passa,
eu aceito o sopro — e faço dele graça.”
O sol descia, dourando o momento,
e eu já entendia melhor o movimento.
Nem tudo que gira está perdido, afinal,
às vezes, é só a vida em estado natural.
— Moinho, porque giras sem cessar?
— Porque o vento me chama para trabalhar.
— E o que fazes com tanta voltinha no ar?
— Transformo sopros em pão por chegar.
— Não te perdes nesse rodopio constante?
— Perder-me seria ficar ignorante.
Cada volta é trigo que deixo de ser,
para em farinha o mundo poder comer.
— E quando o vento decide parar?
— Eu descanso, sem medo de esperar.
Também no silêncio há função escondida:
guardar força para a próxima vida.
— E esse ranger, parece cansaço?
— É só o tempo marcando o compasso.
Sou madeira que fala, ferro que sente,
trabalho antigo, mas sempre presente.
— Moinho, ensina-me a tua lição.
— Trabalha com o invisível na mão.
Não prendas o vento, nem fujas do chão:
faz do que passa a tua criação.
— Moinho, o que fazes com o grão que te chega?
— Dou-lhe destino na mó que não nega.
Entre pedra e tempo, num abraço certeiro,
a semente desfaz-se — e nasce o primeiro.
— Primeiro o quê, se tudo ali se parte?
— Primeiro o milagre da mudança em arte.
A mó canta baixo, num roçar contínuo,
e o trigo rende-se ao gesto mais íntimo.
— E depois dessa farinha leve como o ar?
— Vêm mãos pacientes para a amassar.
Água fermento e sal, num encontro profundo,
fazem da massa um pequeno mundo.
— E o pão, moinho, quando ganha vida?
— Quando o fogo lhe dá forma aquecida.
No forno repousa, cresce em silêncio,
até romper em aroma e pertenço.
— E quando sai, dourado, a fumegar?
— É mais que alimento, é casa no ar.
Pão quentinho, nascido do vento e da mão,
é o fim da viagem… e nova criação.
Maria Antonieta Matos